Análises

Eslovênia: Pequeno País – Grandes Trilhas

Em um país com área aquém de Sergipe, menor estado brasileiro, as trilhas são longas, belíssimas e com uma infraestrutura de fazer inveja.

Pedro da Cunha e Menezes ·
10 de fevereiro de 2012 · 9 anos atrás
O Parque Nacional Triglav. (Foto: Pedro da Cunha e Menezes)
O Parque Nacional Triglav. (Foto: Pedro da Cunha e Menezes)
“Embora o país seja pequenino, é modelo de implementação e manejo de trilhas de longo curso. Nesse quesito, dá aulas à Portugal e até à Inglaterra, para não mencionar o gigante Brasil que, quando o assunto é trilhas, não passa de um pigmeu.”

Só há um problema sério para quem gosta de comungar com a natureza: pouca privacidade. A Europa é super populada e não faltam entre seus habitantes trilheiros e escaladores que, nos curtos meses quentes, literalmente lotam as áreas protegidas. Alguns parques europeus como Tatras na Polônia, Monfrague na Espanha, Wicklow na Irlanda, Peneda-Gerês em Portugal e Slovenski Raj na Eslováquia recebem numerosas hordas de visitantes que, roubam aos excursionistas sociopatas como eu qualquer sensação de isolamento.

Há, contudo, excessões. Uma delas é Triglav, único Parque Nacional da Eslovênia, criado para proteger a porção alpina daquela região que já fez parte da Iuguslávia. A Eslovênia é um país pequenino com apenas dois milhões de habitantes e 20.256 km2, o que a torna mais diminuto que o menor estado brasileiro (Sergipe tem 21.910 km2). No seu caso, ter apenas um parque nacional não é vergonha, mas motivo de orgulho. Triglav, que quer dizer três cabeças, cobre 83.807 hectares, equivalentes a 3% do território nacional. Abriga o pico com três cumes que dá nome à unidade de conservação, cuja altitude monta a 2.864 metros. Muitos eslovenos diriam que é a melhor porção de seu país. Com efeito, o Parque está em toda parte: figura na bandeira nacional, na braçadeira dos policiais, no brasão do governo e no coração das pessoas. A tradição popular requer que todo o esloveno suba o Triglav pelo menos uma vez na vida.

E os eslovenos são um povo tradicional: Triglav recebe 1,6 milhões de visitantes por ano, a grande maioria de nacionais do país. É muito para os padrões brasileiros, mas na Europa é pouco! Com efeito, caminhar por Triglav no verão é uma experiência especial. As trilhas do Parque, elevado a Reserva da Biosfera em 2003, estão conectadas a uma malha de 7.000 quilômetros de trilhas e 165 abrigos de montanha que extrapolam o Triglav e se espalham pelos 8% do território nacional que encontram-se protegidos sob as diversas categorias do Sistema de Unidades de Conservação Esloveno (há propostas para criar mais quatro Parques Nacionais no País). Com tanta quilometragem de trilhas, a turba de visitantes acaba por se diluir e, assim, é possível encontrar sossego na natureza eslovena.

“Ao contrário dos meus planos, não mergulhei em nenhum dos lagos, pois apesar de ser pleno verão, o calor resolveu se atrasar e ainda estava muito frio, inclusive com trechos ainda atulhados de neve.”

Embora o país seja pequenino, é modelo de implementação e manejo de trilhas de longo curso. Nesse quesito, dá aulas à Portugal e até à Inglaterra, para não mencionar o gigante Brasil que, quando o assunto é trilhas, não passa de um pigmeu. Há a opção de atravessar o país de norte a sul pela trilha europeia E6 e de leste a oeste pela trilha europeia E7. Há também a Via Alpina, cujos cinco mil quilômetros cortam todos diversos países pelos quais os Alpes se espetam. Em seu trecho esloveno a Via Alpina tem 220 km divididos, em 14 estágios.

O excursionista interessado em percorrer grandes distâncias, contudo, não precisa seguir nenhuma dessas trilhas de longo curso. Com um bom mapa na mão é possível planejar uma caminhada de cinco a dez dias atravessando vales, palmilhando cumeeiras e visitando picos, utilizando somente a rede de percursos sinalizados do país. A partir de cada abrigo há cinco ou seis opções de caminhadas diferentes que levam a outro abrigo e assim por diante. Dessa forma, é simples fazer uma trilha de 50, 100 ou 200 quilômetros que comece e termine no mesmo lugar, sem com isso repetir nenhum trecho. Essa configuração de trilhas em rede permite ao caminhante montar seu próprio percurso de acordo com a distância que pretende andar em cada dia, aliada a seus interesses específicos.

Foi isso que fiz durante quatro dias. Cabritei cerca de oito horas por dia, levando apenas minha mochilinha de ataque, pois nos abrigos há camas, cobertores e comida. Planejei um trajeto variado que incluiu banhos de lago, visualização de fauna, picos nevados e muito aprendizado na arte de desenhar, construir e fazer a manutenção de trilhas e abrigos. Comecei meu périplo na vila de Bohiny, ao longo de um belo e longo lago, onde tomei delicioso banho. Depois enfrentei uma subida interminável e bem pesada, com 1.000 metros de desnível, que me colocou no ritmo do Parque Nacional Triglav. Quando finalmente cheguei ao topo, tomei outro banho no belo e escondido Lago Negro. A partir daí progredi em terreno razoavelmente plano até o abrigo Komna, em meio a uma floresta densa, que evoca duendes e fadas e que é habitada por manadas de chamois. Depois de 22 km, cheguei ao antigo hospital militar usado pelo exército do Império Austro-húngaro durante a Primeira Guerra Mundial que foi transformado no abrigo Komna. Bonito, imponente, confortável e com comida barata, farta e apetitosa, mas incrivelmente não tinha banho!

Vale dos Sete Lagos (Foto: Pedro da Cunha e Menezes)
Vale dos Sete Lagos (Foto: Pedro da Cunha e Menezes)
“Gostaria mesmo, entretanto, é de poder fazer caminhadas de longo curso em trilhas com infraestrutura semelhante no meu Brasil natal. Temos belos Parques com muito espaço, poucos montanhistas e lindas paisagens.”

O terceiro dia foi mais fácil, apenas 19 km sem tantas subidas. Com o bloqueio da trilha originalmente escolhida, desisti de subir ao topo do Triglav e tomei a decisão de seguir pela rota da crista de Spicje. Foi uma opção arrojada, pois estava super nublado e havia previsão de chuva (neguei o bom senso da véspera). Foram momentos de tensão pois, com a névoa forte, a navegação estava difícil e havia vários trechos cobertos de neve e expostos a altura. Cheguei a 2.312 metros de altitude no cume do Monte Spicje, mas estava tão encoberto qumal via um palmo à frente do nariz. Quando a trilha finalmente começou a descer respirei aliviado. Parei novamente em Lopucnica, onde almocei (mas não tomei banho). De lá, avancei para o abrigo Pri Jezeru, onde cheguei depois de mais duas horas de pé no chão. Este abrigo fica às margens de um pequenino e lindo lago bem encaixado na montanha. Ali, como o abrigo também é desprovido de chuveiros, dei um mergulho redentor, pois não me lavava desde o Lago Negro!!!! Comi como um rei e dormi antes de escurecer, o que não foi difícil, pois ainda havia luz do sol às 11 da noite!

No último dia percorri 13 quilômetros até Bohini. Saí cedo para fazer a rota por Prsvec, que é uma linha de cumeada muito estreita com vistas fantásticas do Lago Bohini. Foram quatro horas de lindas paisagens, que teriam atingido o patamar de maravilhosas se não estivesse ligeiramente nublado. Nos últimos quarenta e cinco minutos desabou um temporal, o que me fez acelerar para chegar logo na cidade. Ali aluguei um quarto de hotel e gastei um sabonete inteiro no meu primeiro banho de verdade em quatro dias. Os Alpes no verão estão aprovadíssimos. Planejo voltar para repetir a dose em verões futuros, mesmo que tenha que caminhar em países onde as trilhas alpinas estão mais saturadas com montanhistas. Gostaria mesmo, entretanto, é de poder fazer caminhadas de longo curso em trilhas com infraestrutura semelhante no meu Brasil natal. Temos belos Parques com muito espaço, poucos montanhistas e lindas paisagens. Também temos chuveiros. Já é um começo!

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