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Estou começando a achar que todo mundo espera que eu escreva sobre a pré-candidatura de Marina Silva à Presidência da República Bananeira de Pindorama. Vou chegar lá, caros leitores, mas ainda não é esta semana. Gostaria, antes, de convidar à reflexão sobre o estado das coisas no país para além das políticas de gestão ambiental estritamente falando. Como a “transversalidade da gestão ambiental” era uma das falácias que ouvimos no início do (des)governo Lulla Rousseff, Marina à tiracolo para gringo fotografar e tudo, acho que vale a pena darmos uma vista d’olhos nas políticas públicas que estão em curso e que, na contramão de 90% dos eleitores, bolsa-esmoleiros, economistas, políticos e outros, acho que ao invés de salvar o Brasil da crise mundial vão é nos atirar no mais profundo dos abismos – o do atraso social, econômico, e, claro, ambiental – nos próximos anos, se não questionadas e revertidas de imediato.

Onde começar é difícil – sob a perspectiva da sustentabilidade de fato, ou seja, daquilo que vai além das pretensões eleitoreiras das “otoridades” atuais e se remete à sociedade onde viverão nossos filhos, netos e bisnetos, praticamente tudo o que se faz nesse país (e não só neste governo, embora potencializado por ele) está errado.

O álibi do semi-analfabetismo serve perfeitamente ao nosso imperial Einstein de Garanhuns para presidir sobre as políticas insustentáveis que vêm sendo aplicadas ao Brasil. Não sendo capaz sequer de articular leituras em Português, não seria razoável esperar que ele tivesse prestado atenção a um dos livros mais importantes dos últimos tempos, Hot, Flat, and Crowded, do magistral Thomas Friedman, que não apenas reitera a impossibilidade de seguir no atual modelo de “desenvolvimento”, mas principalmente aponta caminhos que estão sendo já implementados no mundo civilizado para que, sem se perder qualidade de vida e estancando o genocídio do mundo natural, as sociedades ocidentais sigam existindo a longo prazo. Em particular, são inestimáveis os exemplos que Friedman coloca em relação às políticas energéticas e aí, mais uma vez, voltamos à grande bandalha que atrasa a sociedade brasileira, que é a infra-estrutura do país.

Os asseclas das empreiteiras e seus lacaios políticos dirão que o problema de infra-estrutura do Brasil é a falta de mais do mesmo, ou seja, precisamos de mais geração centralizada e massiva de energia porca, mais linhas de transmissão elétrica convencionais, mais estradas para caminhões, mais isso, mais aquilo, tudo em escala faraônica e financiado aos empreiteiros de sempre a perder de vista, através da extorsão de quem trabalha e paga impostos de rapina para sustentar a destruição de nosso futuro.

É aqui que se vê o quanto o Brasil de Lulla Roussef avança para trás, célere em direção à Idade Média. Enquanto as economias principais do planeta buscam alternativas para a geração energética a partir de carvão e petróleo – e mais: fazem dessa busca uma construção de oportunidades econômicas, com a China se transformando rapidamente num dos maiores fornecedores de equipamentos para geração de energia solar e os países europeus multiplicando empregos com a fabricação e operação de parques eólicos – aqui em Pindorama seguimos reféns do discurso eleitoreiro do “pré-sal” como redenção nacional e do financiamento de termelétricas a carvão sob a falsa bandeira de “evitar o apagão”. A “energia limpa” das hidrelétricas é anulada em suas vantagens ambientais pela produção em projetos enormes na lonjura amazônica, que perdem imensa parte de seu potencial gerador na transmissão através de linhas antiquadas, e pelo criminoso afogamento de biodiversidade ainda desconhecida em sua enormidade a cada reservatório projetado pelos tarados das empreiteiras clientes de Brasília.

Ao redor do mundo, iniciativas mais inteligentes, mais baratas e capazes de manter uma economia saudável e próspera estão dando certo no plano energético. A criação de fazendas de produção eólica e solar é parte dessas iniciativas, mas mais ainda começa a sobressair a importância da geração local de energia em casas e indústrias através de seus próprios sistemas eólicos e fotovoltaicos, diminuindo as perdas de transmissão e – mais importante – permitindo a venda de energia gerada em casa ao grid elétrico geral. Assim, o fornecimento de energia está deixando de ser uma via de mão única (político sujo > empreiteira destruidora > distribuidora perdulária > consumidor trouxa), e se tornando num bom negócio para o cidadão e para o empresário que podem vender seu excedente energético ao sistema comum.

Mais ainda, começa a se tornar realidade o chamado smart grid, antevendo que no futuro próximo cada consumidor energético terá condições de adquirir energia em horas de menos consumo por preços melhores, e usá-la em aparelhos elétricos capazes de identificar esses horários e funcionar de acordo, inclusive com o uso de baterias inteligentes para o armazenamento temporal de energia.

Futurista? Caro? Ora, pois, quanto desenvolvimento dessas novas tecnologias já provadas poderia ser feito com os famosos royalties do petróleo que hoje alimentam prefeitos demagogos e promessas para 2010? Isso sem falar no que poderia ser investido em modernização do sistema elétrico com o custo de um par de hidrelétricas amazônicas...

Não, a resposta para a recusa terminante das “otoridades” federais em investir em energia alternativa e suas tecnologias associadas é outra, e está debaixo do nosso nariz, nojenta de tão simples: as grandes empreiteiras que fazem termelétricas a carvão e hidrelétricas monumentais, e que penduram milhares e milhares de quilômetros de linhas de transmissão que estripam florestas e perdem na distância uma porção escandalosa da energia, possuem um imenso poder de financiamento de campanhas eleitorais, enquanto os setores empresariais de energia eólica e solar instalados no Brasil não possuem essa “vantagem competitiva”. Logo, ainda vai demorar pra que o Planalto se interesse vagamente pelos temas de geração e gestão alternativas de energia...

Some-se a isto a atual situação eleitoreira. O monstro populista Lulla Roussef necessita, visceralmente, do controle partidário da estatal de petróleo brasileira como braço armado de sua campanha presidencial em 2010. O endeusamento do petróleo e sua extração em níveis nunca dantes pensados como arma de campanha xenófoba é algo que não rima com planejamento e fomento para as energias alternativas. Se os investimentos almejados para o pré-sal e os lucros já amealhados pela Petrobras estariam mais bem aproveitados na construção de um sistema nacional de energias limpas renováveis, nunca saberemos, porque a tara desenvolvimentista convencional é bandeira brandida por todos os demagogos de Brasília, do PT ao DEM/PFL, e não haverá naquela gente vontade ou coragem para dizer o contrário do que prescrevem os donos do “pudê” e seus puxa-sacos do economês caboclo.

Faria Marina Silva diferente? Sei não... mas sonhar não dói, como bem delirou minha amiga Suzana Pádua aqui mesmo n´O ECO. Não apenas sonhemos: sigamos questionando, para que a quadrilha do desenvolvimentismo caro, burro e ultrapassado não consiga matar o Brasil de nosso filhos.