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Uma licença sem vergonha
01 Fev 2010, 15:04
Incapaz de seguir gerando energia sem provocar colossais impactos socioambientais, o governo recupera, rumina, insiste e nesta segunda-feira liberou a licença prévia da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA), projeto gestado e formatado durante a Ditadura Militar. O canetaço que, segundo ambientalistas pode decretar a morte do rio Xingu, de paisagens belíssimas (foto) e de diversos povos afetados direta e indiretamente pela obra, recai no colo da intrépida trupe do ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) e do presidente do Ibama Roberto Messias, cuja saída estaria programada para breve. Para não variar, a concessão da licença contraria parecer dos técnicos da casa.

Ao lado de indígenas e ribeirinhos e do Movimento Xingu Vivo para Sempre, a Rede Brasileira de Justiça Ambiental e o Forum da Amazônia Oriental lançaram uma nova campanha contra Belo Monte. A resistência reforçada se deve a ofensiva governista para aprovar o sinistro projeto sem debate com as comunidades afetadas e sem realizar a obrigatória consulta às mesmas, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho das Nações Unidas, da qual o Brasil é signatário. Povos indígenas vêm lutando contra o projeto há mais de duas décadas, como os Tuxucumarrãe e os Kayapó. Um vídeo com suas opiniões foi lançado há poucos dias. Confira abaixo.

Segundo os movimentos sociais contrários a Belo Monte, a usina será a terceira maior do globo e sua construção devastará imensa área de floresta amazônica no Brasil e ameaçará unidades de conservação e a sobrevivência de povos indígenas e tradicionais. O projeto é o maior do PAC, programa federal para aceleração do crescimento sem cuidados ambientais e principal alicerce da candidatuda à presidência da ministra Dilma Roussef (Casa Civil). A usina integra planos para cerca de uma centena de hidrelétricas na Amazônia brasileira, acumulando estragos inimagináveis que o governo pretende varrer para debaixo do tapete.

Estudos independentes demonstraram que os custos reais do empreendimento estão subestimados. Francisco Hernandez, engenheiro elétrico e coordenador de um grupo de 40 especialistas em vários setores que analizou os estudos de Belo Monte é enfático. "Belo Monte é um projeto de viabilidade duvidosa, extremamente complexo e que depende de enormes desvios do rio Xingu, escavações e movimentos de terra semelhantes ao que ocorreram na obra do Canal do Panamá", disse em nota da International Rivers Network.

 

Além disso, Belo Monte vai gerar pouca quantidade de energia durante três a quatro meses ao ano, com investimentos iniciais previstos de até 17,5 bilhões de dólares. Uma festa em período eleitoral. "Ninguém conhece os custos reais de Belo Monte. O projeto irá desclocar dezenas de milhares de pessoas e destruir o modo de vida de outros milhares. Enquanto o Brasil pede à comunidade internacional que apoie a proteção da floresta tropical, seu governo insiste em megaprojetos de infraestrutura, que são ambientalmente e socialmente indefensáveis, disse Aviva Imhof, diretor de campnhas da International Rivers.

Parte da obra será financiada pelo BNDES. A energia de Belo Monte vai abastecer os grandes centros urbanos no Sudeste e uma fábrica de alumínio no Pará.
 
O documentário Xingu: porque não queremos Belo Monte, pode ser conferido aqui.

Saiba mais:
ImPACto na vida indígena
Tambores de guerra
Beleza roubada
Pará aceita Belo Monte
Mais audiências de Belo Monte

Comentários
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O que será, que será...
leticia Pinheiro 02/02/2010 07:54:15

Sempre quando leio matérias como essas me sinto impotente. Dói o peito,
consigo ver se repetir um filme já visto antes. A população que terá que ser
deslocada, deixando para trás toda uma historia de vida e costumes. Costumes e
hábitos que vão desde a forma de se relacionar com o meio buscando o sustento
de suas famílias ate a manutenção de suas raízes culturais. O enredo desse
filme já é conhecido. Aglomeração de pessoas que buscam emprego e terras.

Os nativos deslocados ficarão a mercê das indenização que jamais pagam
realmente as suas perdas. Terão que aprender a sobreviver como um povo sem
pátria e sem dignidade. Um povo que não se insere no mercado de trabalho
tradicional, porque fazem parte de uma outra cultura e de outros valores.
E
mesmo que por ventura essas pessoas se adaptassem ao mercado, o mesmo não tem
espaço pra elas. Os que conhecem um pouco a região sabem perfeitamente o que
falo. Teremos caso de migração em massa para as capitais a longo prazo e mais
todos os horrores que projetos assim tendem a proporcionar.
Infelizmente,sem surpresas
Domingos Loffredo 02/02/2010 19:38:57

Acho que muitos brasileiros como eu se indignam todos os dias porquê todos os
dias para nós brasileiros parecem que estão piorando.Faz décadas que todos
nós escutamos essa ladainha sobre democracia no Brasil.Onde está a democracia
nesse caso de Belo Monte?Sem contar as milhares de pessoas que vão ter de sair
dessa área tão maravilhosa,quem de nós foi consultado sobre mais esse absurdo
que a turminha do SR. Lula vai por em prática? É com nosso dinheiro que essa
usina vai ser feita.Quantos milhões serão des*****s e quanta biodiversidade
será esmagada em mais uma arbitrariedade dessa turma?Eu não me conformo com a
cara-de-pau desse e de outros governos, de ficarem pedindo grana no exterior
para "Projetos Socias" como esse e como muitos outros que já estão
concluídos.
também sinto impotente, mas vamos fazer algo
Tulio Dornas 03/02/2010 07:28:07

Também me sinto impotente como relatado pela Letícia Pinheiro. Cada um com
seus problemas diários e o resultado é que não conseguimos ficar a par do que
acontece em nossa volta no nosso país, e quando sabemos, é dessa forma, com
uma autorização de Licença Previa de uma obra eleitoreira, imprudente e
irresponsável. Mas pode parecer clichê, mas mais do que nunca precisamos fazer
alguma coisa... ainda que encaminhar essa reportagem pra toda sua caixa de
emails seja pouco, façamos; entrar com pedido de baixo-assinado eletrônico ou
impresso pode ser pouco, mas façamos, fazer denúncias ao ministério publico,
comunicar, pedir e ajudar por intervenções a classe ambiental brasileira, mas
façamos (aqui a sugestão, quem conheça pessoalmente o jornalista Wasghinton
Novaes comunique-o o mais rápido), comuniquemos as autoridades máximas
mundiais sobre o papel de duas caras que esse nosso governo possui, (o de
bonzinho pro mundo e o capeta pra os que aqui vive), mas façamos...
Conversando
com uma amiga do MPF, ela me disse que o projeto de Belo Monte ja foi barrado
uma vez. É preciso que façamos algo, de norte a sul. Talvez pessoas que não
vivam aqui pra esses lados do norte do Brasil não se preocupem com que está
pra acontecer, mas ali em Belo Monte tem acima de tudo brasileiros com historia
e cultura das mais impressionantes e valiosoas, pessoas que como qq brasileiro
em qq parte do país lutam diariamente para sobreviver, educar seus filhos,
viver dignamente, e estes muito mais do que cidadãos sudestinos e sulistas,
dependem diretamente dos recursos naturais que os rodeiam.
Estamos em ano de
Copa do Mundo. Espero que as pessoa que botam a mão no peito pra cantar o hino
quando a seleção se apresenta em campo e chora lágrimas de emoção ao
escutar "haja coração", lembrem-se de Belo Monte...
É ano de
eleição. Esses mesmos brasileiros comovidos por nossa seleção, lembrem-se
que na hora de votar, "meio ambiente é ameaça ao desenvolvimento
sustentável" (pra quem não sabe origem da frase link aqui
http://www.youtube.com/watch?v=I71-0eEBq1E), e portanto reflitam onde exatamente
Belo Monte entra nessa frase (ameaça? meio ambiente?...?)
Vamos pessoal fazer
algo....ainda que esse algo individualmente represente pouco, façamos, no final
talvez alcançaremos resultados positivos e então nos mostraremos ser mais
confiantes e capazes e menos impotentes...
Após escrever isso só me resta uma
alternativa, fazer algo... bom, vou fazer...
Revolta
Ricardo Lima 03/02/2010 11:12:12

O que mais me decepciona é não ver a população ciente do que está prestes a
acontecer. Se for feita uma pesquisa popular sobre o que é o projeto Belo Monte
com a população brasileira, garanto que a maioria não saberá do que se
trata. No entanto, se a perguta for: quem saiu no último paredão do BBB, a
resposta sairá quase que de imediata.
Impotência
Zé Brasil 03/02/2010 17:26:36

Nada muda e tudo continua e vai continuar assim porque o povo brasileiro (nós)
continua encantado com o canto do moluscão e da sereia truculenta. Só
conseguimos ver que é possível comprar mais, gastar mais, consumir mais e
aceitamos pagar qualquer preço por esse prazer ilusório e passageiro. Estamos
matando a galinha-dos-ovos-de-ouro e nem nos damos conta. E ainda aplaudimos
quando o fanfarrão de colete anuncia que "só" desmatamos 247km
quadrados na Amazônia (em 2 meses!);nem damos conta de que só o lago da usina
vai devastar 500km quadarados! Sem contar os outros efeitos... Mas tudo bem: é
o preço do progresso!?!?! Triste país de descerebrados. Vamos concordo com o
Tulio Dornas: temos que fazer algo! Não dá mais para ficar como Jeca Tatú,
repetindo "que não adianta fazer nada".
Muito blá, bla´, blá
rkl 04/02/2010 06:18:57

Muito bonitos os comentários... É fácil se dizer indignado com projetos de
infra-estrutura, que não sabemos como estes absurdos podem acontecer.

Mas a
verdade é que precisamos de energia, ou algum dos que caros colegas acima vive
numa cabana sem luz, sem tv, sem rádio, etc? Não, essa não é nossa
realidade. Mas é a realidade de milhares de brasileiros, que como vcs gostariam
de ter acesso à energia elétrica. É muito fácil criticar de suas casas, ou
trabalho, com tudo bem iluminado, usando o com****dor (que não funciona por
milagre, mas sim usando energia)

Mas imagine como seria chegar a um posto de
saúde no meio da madrugada com seu filho e não ter luz para seu atendimento,
ou não ter vacinas, porque não há energia para um freezer funcionar.

Essas
pessoas não têm o mesmo direito que nós temos? Por quê? É bonito dizer
"comunidades tradicionais que irão perder seu modo de viver, seus
costumes...". Em grande parte dos casos são famílias que vivem em uma
situação deplorável, sem acesso a saneamento básico, saúde, educação.
Será que eles vivem assim porque acham lindo, porque são idealistas; ou porque
não têm outra opção? É justo privá-los disso?

Pensem um pouco nisso! Sem
pré-julgamentos...

Existem outras fontes de energia? Sim, e estão sendo
desenvolvidas e exploradas. Acabou de acontecer (final de 2009) o maior leilão
de energia eólica (dos ventos) no Brasil. Mas essas fontes de energia ainda
têm o preço mais alto e não suprem toda a demanda - lembremos que o país
está crescendo, o que gera empregos e divisas para o país. Ou era melhor
quando vivíamos em crise econômica? Alguém quer que o preço da energia dobre
no Brasil? Será que você reclamaria se sua conta viesse o dobro no próximo
mês? E quem não tem como pagar um valor mais alto?

Projetos estruturantes
como o de Belo Monte são essenciais para o país. Mas devem, sim, seguir
critérios rigorosos de cuidado com o meio ambiente. Para isso o Estudo de
Impacto Ambiental (EIA) envolveu diversas instituições de pesquisa, muitos
pesquisadores renomados e comprometidos com a causa ambiental.

Pensem nisso...
Eustaquio Mendes 04/02/2010 07:59:37

prezado rlk que nao se identifica, talvez nao tenha lido oartigo, mas a energia
de Belo Monstro vai para as megalópoles do Sudeste e para fábrca
eletrointensiva de alumínio, com mais destruiçao e poluicao. grande negocio,
esse governo nao inova em nada, nao e melhor que a direita, e farinha do mesmo
saco
rkl 04/02/2010 11:08:28

Eustaquio,

O sistema de fornecimento de energia no Brasil é chamado SIN
(Sistema Interligado Nacional). O que isso quer dizer? Que a energia de
produzida por Belo Monte pode ser distribuída para praticamente todo o Brasil.
A região onde o empreendimento se localiza será integrada a este
sistema.

Além disso, deixe-me fazer uma pergunta:
Onde a gasolina, diesel e
demais derivados do petróleo são produzidos? Grande parte na Bacia de Campos
(RJ). Onde e por quem são utilizados? Em todo o Brasil e por quase todos. A
lógica é a mesma.
Portanto, não venham com blá, blá, blá...
Eustaquio Mendes 04/02/2010 14:11:44

rlk ainda anonimo, tou velho de saber sobre SIN e o escambau; aguarde e vera o
desenvolvimento que se desdobrara sobre aquela regiao, para aquelas populacoes,
nao vou perder meu tempo argumentando com quem usa aquele tipo de viseira de
couro; procure se informar sobre o que ocorre na amazonia quando esse tipo de
obra faraonica feita sob medida pra alimentar empreiteiras e campanhas patrola
tudo la; e veja se as populacoes da regiao querem isso ou se esse governo
aspirante a ditador ambiental vai enfiar guela abaixo deles, como tem feito com
varias minorias. nao venha voce com bla bla bla desinformado e alienado
Anônimo 04/02/2010 13:14:20

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/02/ 04/fechem-ibama-263422.asp
A questão mais imediata do meio ambiente é a falta
Nelson Tembra 04/02/2010 17:49:13

Isto não é de hoje, não é exclusividade de certos projetos na Amazônia e na
prática não é para qualquer um...


Nelson Tembra

Para não dizerem
que só ilustro como maus exemplos em meus artigos os projetos da Vale do Rio
Doce, trago para reflexão e análise o exemplo bibliográfico oportuno, do
final da década de 90, bastante didático e representativo do “modus
operandi” habitual, citado por Vicente Rahn Medaglia em Sinópse da Filosofia
do Meio Ambiente.

Esses conceitos estão presentes em se analisando um caso
que ficou conhecido como mais um crime ambiental : a Hidrelétrica de Barra
Grande, situada no Rio Pelotas, divisa com o estado de Santa Catarina. Mais de
5.000ha de mata nativa foram sacrificados em nome de geração de energia. Essa
mata teria um potencial de serviços ambientais, como captação de CO2,
regulação do clima, regulação dos ciclos hidrológicos, etc., perdido para
sempre.

Para a construção da Usina Hidrelétrica de Barra Grande foi feito
“como manda a lei”, um Estudo de Impacto Ambiental. O EIA foi elaborado por
uma empresa, que, surpreendentemente, mentiu sobre a composição vegetal da
área submersa pela barragem. No EIA foi dito que a área comportava somente
capoeiras e capoeirões, estágios de sucessão ecológica que não são
protegidos por lei. Ocorre que, de fato, metade da área era composta por
vegetação primária, ou seja, que nunca havia sido derrubada pelo homem ou
áreas em que se encontrava em estágio avançado de regeneração. Como
sabemos, essas duas últimas formações são protegidas por lei, mas o IBAMA,
órgão responsável por vistoriar o estudo e verificar se ele estava correto,
não apurou essas irregularidades.

O Ministério de Minas e Energia comemorou
mais essa mega-hidrelétrica como mais uma obra que aceleraria o crescimento
econômico do país, mas não o desenvolvimento social. De fato, a construção
dessa hidrelétrica, como todas as demais, só foi possibilitada pela
alegação, por parte do poder público, de que ela era de “interesse
público”.

Esse exemplo nos fornece elementos para que tenhamos uma idéia
superficial sobre de que forma os conceitos filosóficos se aplicariam. Em
primeiro lugar, tentemos identificar a cadeia de ações que aí está
envolvida. Essa cadeia é estabelecida simplesmente perguntando-se o porquê de
cada ação. Então, começando pelo fato “foi construída uma usina
hidrelétrica que irá inundar uma grande floresta”. Por quê ? “Pois se
considera que a energia elétrica gerada é importante”. Por quê ? “Pois
com energia elétrica a economia do país pode crescer, e o crescimento
econômico é algo importante”. Por quê ? “Pois crescendo a economia, o
país tem mais dinheiro, e ter dinheiro é importante” Por quê ? “Pois
dinheiro traz felicidade”. Em se chegando nesse ponto, não cabe mais
perguntar ‘Por quê ?’. Não faz sentido perguntar por que se quer ser
feliz. O que se pode perguntar é o que é e a quem pertence a tal felicidade,
já que é isso que determina toda a escala de valores. Em se assumindo que o
dinheiro traz felicidade, fica então justificada a ação da construção da
barragem.

Passemos ao modelo de felicidade presente na cadeia de
justificativas apresentada. Em primeiro lugar, cabe notar que é conseqüência
direta da construção da barragem a inundação de 5.000ha de mata considerados
como área prioritária para conservação pelo próprio Ministério do Meio
Ambiente. Assim, seja qual a justificativa dada ao empreendimento, ela deve
contemplar esse fato.

Perguntemos quem é que ganha dinheiro com esse
empreendimento. Pode-se considerar que são os trabalhadores da obra, mas o
dinheiro que eles ganham é pouco. Quem de fato ganha dinheiro às claras são
os acionistas, já que a barragem é um empreendimento totalmente privado.
Poder-se-ia dizer que isso representa somente a contraparte da geração de
energia, que é considerada igualmente um bem que contribui para a felicidade
dos cidadãos que teriam energia em suas casas. Mas isso tampouco é o caso, já
que a hidrelétrica foi construída por grupos industriais de produtos eletro
intensivos, como alumínio (da Alcoa - Aluminium Company of America - com metade
das ações do empreendimento), cimento e celulose (da Votorantin, também
acionista), entre outros grupos. Essa hidrelétrica se coloca em um contexto de
auto-geração, ou seja, os produtos dessas fábricas necessitam de muita
energia e são muito rentáveis, logo, é ótimo negócio construírem suas
próprias hidrelétricas.

Colocados esses pontos, a justificativa ética da
obra ficaria mais complicada, já que, para tanto, o sistema de valores assumido
deveria considerar lícito sacrificar um bem público, o meio ambiente, em nome
de um bem privado, o lucro de algumas megacorporações multinacionais. Isso só
seria factível se assumíssemos que o correto é que quem pode mais, ou quem
possui mais poder, use todos os meios que considere cabíveis, possíveis,
impossíveis, imagináveis e inimagináveis para perseguir seus interesses, doa
a quem doer. Como poderíamos denominar essa posição ? “Cratocentrismo”
verde (do grego krátos, “força”), ou “Crematocentrismo” amarelo (do
grego chrémata, “dinheiro”), ou simplesmente “Cratocrematocentrismo”
cada vez mais verde e amarelo ?
Belo Monte: ora, as leis
Anônimo 05/02/2010 06:21:33

Washington Novaes

Há muito se sabe e se diz que no Brasil há "leis
que
pegam" e "leis que não pegam" ou "ficam só no papel".
É
verdade. Os exemplos poderiam ser dezenas, centenas, mas não é
preciso
enumerá-los, cada pessoa tem em sua memória muitos exemplos. Mas
talvez o
exemplo mais aberrante seja o da Resolução nº 1, de 23 de janeiro de
1987, do
Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que tem força de lei. Diz
ela, no
inciso I do artigo 5º, que projetos que precisem de licenciamento
ambiental
deverão "contemplar todas as alternativas tecnológicas e de
localização
do projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do
projeto".
E entre as iniciativas que a essa exigência devem submeter-se
estão as
"barragens para quaisquer fins", assim como "abertura de
canais"
e implantação de "hidrelétricas acima de 10 MW".

A
Hidrelétrica de
Belo Monte, no Rio Xingu, que acaba de receber do Ibama
licença prévia,
enquadra-se em todos esses itens. Terá sido confrontada com
alternativa de não
execução? Não parece. Poderia ser confrontada, por
exemplo, com o estudo de
Unicamp e WWF, tantas vezes já mencionado neste
espaço, que afirma não
precisar o Brasil de ampliação de sua oferta de
energia; poderia ganhar o
equivalente a 30% de seu consumo atual com programas
de conservação e
eficiência energética (como ocorreu no apagão de 2001);
ganhar mais 10% com a
redução de perdas nas linhas de transmissão (o Brasil
perde mais de 15% nesse
caminho, ante 1% no Japão); e ainda outros 10% com a
repotenciação de
geradores muitos antigos - tudo a custos muitas vezes menores
que os da nova
geração. Mas não só os governantes deixam a lei no papel como
o atual
ministro de Minas e Energia atribui "intenções demoníacas" a
quem
recorde esse e outros questionamentos de alto nível na área científica
e
universitária. E ainda tem a desfaçatez de dizer que só estão
sendo
licenciadas numerosas usinas termoelétricas, altamente poluidoras, porque
o
licenciamento ambiental impede a implantação de hidrelétricas (no momento
em
que não há ameaça de falta de energia e os reservatórios
transbordam).

O
fato é que se concedeu licença prévia para o projeto de Belo
Monte, mas
"com 40 condicionantes", que incluem "ações de
mitigação dos
impactos do empreendimento". Isso incluiria projetos de
saneamento,
"melhoria das condições de vida da população impactada"
(12 mil
pessoas, segundo o governo, 80 mil, segundo várias ONGs), monitoramento
da
floresta e adoção de áreas de conservação. Ao todo, isso poderia chegar
a
R$ 1,5 bilhão, mais 0,5% do valor do empreendimento a título
de
"compensação ambiental".

A Resolução nº 1 do Conama já
"não
pegou". As condicionantes vão "pegar"? A julgar pela
experiência,
tudo indica que não. Pode-se voltar ao caso do projeto de
transposição das
águas do Rio São Francisco, tantas vezes comentado aqui. E
na última
(30/10/2009) para lembrar exatamente isto: que 31 condicionantes
exigidas pelo
Ibama ao conceder licença prévia (como agora em Belo Monte) não
haviam sido
cumpridas e ainda assim as obras tiveram licença de instalação e
foram
iniciadas. E não eram exigências simples: referiam-se à impropriedade
para a
agricultura da maior parte dos solos aos quais se destinaria à água;
diziam
que toda a água iria para açudes onde as perdas por evaporação podem
chegar
a 75%; afirmavam que quase todo o restante se destinaria ao abastecimento
de
cidades onde as perdas de água canalizada estão na casa dos 40%; que
a
transposição não beneficiaria as populações mais carentes, que vivem
em
pequenas comunidades isoladas.

De nada adiantou todos esses argumentos terem
o
aval de nomes ilustres da ciência, da SBPC, da OAB, de prelados religiosos.
A
todos o governo federal respondeu que se tratava de argumentos
de
"má-fé" ou desconhecedores da realidade. E quando o Comitê de
Gestão
da Bacia do São Francisco - o maior interessado -, por 44 votos a 2,
condenou a
transposição, a então ministra do Meio Ambiente levou-a ao
Conselho Nacional
de Recursos Hídricos, onde o governo federal tem maioria
absoluta e, sozinho,
aprovou a obra, também questionada pelo Tribunal de Contas
da União, que
aponta "sobrepreço" de R$ 460 milhões.

Agora, a
licença de
instalação para Belo Monte está concedida, embora nem sequer se
saiba quanto
custará: R$ 16 bilhões, R$ 30 bilhões? Seja como for, a
potência nominal de
11,2 mil MW se transformará em "energia firme" de
apenas 4,5 mil MW,
porque nos períodos de estiagem poderá cair para até mil
MW. E exigirá a
abertura de dois canais no rio, com a escavação de 160
milhões de metros
cúbicos de terra e 60 milhões de metros cúbicos de rochas.
Que impactos
terão no rio obras como essas, em volume superior às que abriram
o Canal do
Panamá? Um painel de 38 especialistas na área acha que o estudo de
impacto
subestimou também o deslocamento obrigatório de moradores da região;
que não
incluiu o custo das infraestruturas urbanas necessárias para alojar
essas
pessoas e as dezenas de milhares que acorrerão em busca de empregos; o
impacto
sobre a pesca (da qual dependem 72% dos moradores da área); a
não-inclusão
dos custos sociais e ambientais no preço da obra e no preço da
energia a ser
gerada; a concessão de incentivos fiscais do Estado e
municípios, em
detrimento de obras sociais; a destinação de praticamente toda
a energia aos
setores de eletrointensivos (alumínio e ferra gusa,
principalmente), a preços
subsidiados, como em Tucuruí, e que precisam ser
pagos por toda a sociedade
consumidora; os prejuízos para vários grupos
indígenas.

Ao lado disso tudo,
ainda restam as questões referentes aos
incentivos à ocupação desordenada da
Amazônia e seus reflexos na temperatura
e no clima, no momento em que a ONU
coloca o Brasil em sexto lugar entre os
países mais afetados por "desastres
naturais".

Como dizem os
tribunais, "é o relatório". Vamos
esperar o veredicto social.



Washington Novaes é jornalista
E-mail:
wlrnovaes@uol.com.br
CORRUPCIÓN
Marcio De Souza 05/02/2010 13:30:39

Até que enfim o Brasil se igualou a China: infelizmente conseguiu fazê-lo nas
Três Gargantas, na morte das formas de vida vegetais, animais e humanas. Cadeia
para Lula, Dilma e cia. pelo anunciado desastre ambiental.
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