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| Colheitas e regeneração dos pinheirais |
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| Aldem Bourscheit | |||||||||||||||||||||||
| 16/06/2009, 18:47 | |||||||||||||||||||||||
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Dos pinheirais é que vive a indústria nacional do pinho e derivados. Caso o ritmo da exploração se mantenha sem alteração, a vida dos pinheirais catarinenses talvez se prolongue apenas por mais 50 anos. **
Conforme especialistas da área biológica, florestas com araucárias em bom estado abrigam até 375 espécies de animais – 256 de aves, 61 de mamíferos e 58 de répteis e anfíbios. O pinheiro-brasileiro é uma das 250 espécies das matas com araucárias e uma das vinte mil plantas conhecidas da Mata Atlântica. Tamanha riqueza depende de um intrincado jogo onde fauna e vegetação atuam lado a lado na formação e manutenção das florestas. “Em matas de araucárias, até 90% das plantas precisam da fauna para dispersar suas sementes”, disse Fernanda Thiesen Brum, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Esse trabalho é feito gratuitamente por pacas, cutias, ouriços, esquilos, catetos, papagaios-charão e gralhas-azuis. Enquanto se alimentam, perdem ou enterram sementes no meio da mata ou nos campos. Indígenas hoje extintos também desempenharam papel forte na proliferação dos pinheirais, estocando e carregando sementes pela região que chamavam de “curiirama”, a terra dos pinheiros. Sem essa movimentação humana e animal, as florestas não teriam coberto no passado um terço do território sulista e tenderiam a encolher, sem o crescimento de vegetação nova. Por isso o coordenador do curso de Engenharia Florestal da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) João Fert Neto é enfático ao afirmar que “floresta sem fauna não é floresta”. E observando a colheita intensiva de pinhões em Painel e outros municípios de Santa Catarina, questiona sobre os impactos na sobrevivência dos animais nativos da região. “A colheita do pinhão deve afetar a fauna, pois é seu principal alimento no inverno. Mas ainda não se conhece o impacto da prática sobre as florestas ou quanto de pinhões deveria ser deixado nas matas para sua regeneração e alimentação de espécies nativas”, disse.
Iob também verificou em seu estudo algo que os produtores catarinenses perceberam na prática: que a produtividade dos pinheiros varia em ciclos de dois a três anos. A colheita, todavia, é sempre do máximo possível de sementes. “Em anos de alta produção, sobram sementes para comercializar e alimentar a fauna. Mas como fica nos anos de baixa produtividade?”, questionou. Vacas, porcos e outros rebanhos domésticos também se alimentam dos pinhões, reduzindo a quantidade disponível para a fauna e regeneração das florestas. Esses fatos preocupam a pesquisadora Fernanda Brum, da UFRGS. “A colheita de pinhões deveria variar conforme a produtividade natural das árvores, deveria ser manejada com cotas relativas aos anos de alta e de baixa produtividade”, comentou. Regeneração e genética Desde que os “madeireiros” abandonaram a exploração do pau-brasil, pela extinção das matas, ainda no tempo do Brasil-Império, desviaram suas atividades para os imensos pinheirais, (...). Foi, assim, que o pinho se tornou a maior vítima da explotação imoderada de “madeireiros” gananciosos, meros exploradores que, visando apenas ao lucro imediato e sem esfôrço e não se preocupando, em absoluto, com o replantio da espécie, destruíram imensos pinhais deixando as terras inaproveitadas e entregues à invasão da bracatinga podendo dar origem a formações acaatingadas extensas, um tipo especial de caatingas de mimosáceas.*
Recompor as matas e reduzir a alta fragmentação dos bosques na região de Painel (veja aqui) é fundamental para ampliar a economia do pinhão e também para as torneiras de Lages. Afinal, daquelas matas vêm as águas que formam o Rio Caveiras, principal fonte de abastecimento da população, comércio e indústria da cidade, incluindo uma fábrica de sacos industriais de papel da Klabin. "Mato é fábrica de água de qualidade", ressaltou Guilherme Floriani, diretor do Projeto Kayuvá. Em bosques abertos e campos iluminados, a araucária avança, abrindo caminho para o crescimento de outras espécies. A espécie produz pinhões quase que ao longo de toda a vida, que pode durar séculos. O início da produção varia muito, entre 15 e 20 anos. Já uma árvore no município catarinense de Caçador começou a gerar pinhas aos oito anos. Em 2008, foram mais de quatrocentas; no ano anterior, 365 pinhas. O Paraná tem um projeto para interligar matas com araucárias dentro de fazendas e áreas protegidas em onze municípios. Empreitadas semelhantes, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, não saíram do papel, conforme Miguel Guerra, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina. “Precisamos interconectar fragmentos com corredores ecológicos, o mais rápido possível, pois a fragmentação dificulta a regeneração das florestas”, disse.
Um caminho apontado por pesquisadores da área florestal é o do melhoramento genético. Assim, seria possível selecionar as melhores árvores existentes, que crescem mais rapidamente e que produzem mais e melhores pinhões, replicá-las em laboratórios e cultivar. Investimentos como esses permitiram ao pinus norte-americano ganhar amplo espaço comercial no globo. “Por isso não é justo comparar o crescimento do pinus com o das araucárias. Eles estão na quarta geração de melhoramento genético. Se tivéssemos feito o mesmo com as araucárias, elas cresceriam muito melhor”, comenta Miguel Guerra, da UFSC. Ele avalia que em três décadas seria possível obter exemplares geneticamente melhorados de araucárias, mas quem pagaria a conta da pesquisa? Florestas nacionais do governo federal foram procuradas, mas não toparam o desafio. Empresas de celulose e papel também negaram, pois suas cadeias de produção foram desenhadas para pinus e eucaliptos. Com baixa oferta de pinheiros-brasileiros, não se sentiram incentivadas a investimentos. Uma luz no fim do túnel surgiu no ano passado, quando a Gaboardi mostrou-se interessada em apoiar estudos com o pinheiro nativo. Sua madeira é ótima para palitos e caixas de fósforos. Os testes podem começar no próximo ano. “É algo que deveria ter sido feito antes da exploração quase total das florestas. A madeira da araucária é melhor que a do pinus para produção de papel e para construção”, disse o professor Adelar Mantovani, da Udesc. Enquanto o Brasil empurra com a barriga pesquisas e investimentos no pinheiro nativo, desde 1993 a província argentina de Misiones cultiva 30 mil hectares com araucárias. O experimento tem apoio do governo de lá. A partir de 2015, eles poderão oferecer madeira manejada de qualidade no mercado internacional. Conforme o professor do Centro de Ciências Agrárias da UFSC Rubens Nodari, investir em melhorias genéticas e sistemas agroflorestais e ampliar o leque de usos para a araucária é uma boa alternativa para a conservação da espécie. Ele lembra do açaí, antes desprezado e dizimado em terras amazônicas, depois valorizado e consumido em quase todo o país. “Conservar sem valor de uso é difícil”, ressaltou. “Se isso for feito, a araucária pode se tornar o carro chefe de muitas economias, em Santa Catarina e no Brasil”, completou. ...continua... Parte 3 - Madeira de qualidade com galhos secos Parte 1 - O futuro nas sementes da araucária * Elza Coelho de Souza, em Tipos e Aspectos do Brasil, IBGE, 1966 ** Lindalvo Bezerra dos Santos, em Tipos e Aspectos do Brasil, IBGE, 1966 Atalhos: Remoção de sementes por pequenos mamíferos potencialmente dispersores em diferentes estágios sucessionais do avanço da floresta com araucária sobre os campos no sul do Brasil. Influência de Frutos e Sementes na Abundância de Pequenos Mamíferos e a Relação com a Predação e Dispersão de Sementes da Araucária. ![]()
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