Retalhando com o parque do Tabuleiro PDF Imprimir E-mail
Felipe Lobo   
26/03/2009, 18:04

O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (SC) recebeu, na manhã desta quinta, o golpe que faltava para perder uma fatia considerável de seus limites. E os responsáveis pelo feito, desta vez, não foram os tratores e motosserras que levaram Santa Catarina ao tricampeonato do desmatamento na Mata Atlântica, mas o governador do estado, Luiz Henrique da Silveira (PMDB). Tudo feito com base em um projeto de lei que desejava mudar a categoria de aproximados 10% da unidade de conservação para Área de Proteção Ambiental (APA). Hoje, o político tratou de usar a caneta para sancionar a determinação aprovada pela Assembléia Legislativa.  

A história da maior unidade de conservação do estado, que ocupava até as nove horas e trinta minutos deste 26 de março cerca de 90 mil hectares, começou na década de 1970. Mas sua importância ecológica vinha de muito antes e era salientada pelo padre Raulino Reitz, botânico famoso em todo o mundo e que presidia a Fundação de Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma) à época. Principalmente a região da planície costeira de Massiambu, onde há restingas.

“Ele sempre chamou o espaço de laboratório natural. Afinal, é lá que acontecem diversos fenômenos recentes geológicos e de formação da vegetação”, explica João de Deus Medeiros, diretor de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Luiz Henrique da Silveira provavelmente nunca ouviu falar no padre Raulino. Afinal, a área vista pelo sacerdote como habitat de diversas espécies e inadequada para a ocupação humana é, justamente, um dos locais que perderam o status de proteção integral.

O mais curioso, no entanto, é a sua descrição no site da Fatma, órgão que aceitou passivamente a recategorização. “Na planície costeira do Massiambu pode-se observar um monumento mundial da geologia formado por cordões semicirculares arenosos da restinga”, diz um trecho do texto.

A fatia do parque começou pouco depois de sua criação. Ainda corriam os anos 1970 quando teve início um grande processo de especulação imobiliária que encheu as praias da Pinheira e do Sonho – dentro dos limites do parque – de ocupações irregulares. Na década seguinte houve uma revisão do perímetro da unidade graças à omissão do governo estadual e da prefeitura de Palhoças, município em que ela se situa. “Com isso, toda a faixa de praia tomada pelo homem, ao lado da planície de Massiambu, foi retirada da Serra do Tabuleiro”, conta Medeiros.

Convívio problemático

A população que adquiriu casas de veraneio nas praias da Pinheira e do Sonho continuava insatisfeita, já que o Ministério Público promovia ações para retirá-la. Aproveitando-se do imbróglio, Renato Sehn, dono de umapousada na ilha de Papagaio Pequeno - entre as duas praias -  mobilizou a comunidade e explicou que os problemas acabariam caso toda a planície fosse retirada do parque e transformada em APA, afirmou Medeiros, do MMA, a O Eco. As residências construídas na primeira porção de terra que mudou de categoria estavam em Áreas de Preservação Permanente (APP). Era essa a reclamação do Ministério Público.

“Sehn convenceu a todos que a solução era desmembrar o Parque da Serra do Tabuleiro, mas isso não fazia sentido, uma vez que eles já estavam fora. A verdade é que ele construiu sua pousada na década de 80 dentro de uma das ilhas costeiras. Ela é que está dentro da unidade de conservação”, diz o diretor do MMA. 

O novo mosaico do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, assinado hoje pelo governador, é uma cópia da proposta de Sehn e sua equipe.

Durante o processo, a Fatma chegou a contratar uma consultoria com recursos do banco alemão KFW (que deveriam ser usados em melhorias da unidade de conservação) para analisar o pedido. Ao notar que o corpo técnico caminhava para uma solução final que não o interessava, Sehn encaminhou o projeto de lei que achava mais adequado. Foi este o aprovado pela Assembléia e por Luiz Henrique da Silveira, provavelmente encantado com as possibilidades econômicas que virão nas entrelinhas da recategorização.

A partir de agora, o Ministério Público está estudando a extensão das alterações e se houve mudanças substanciais entre o projeto de lei que foi apresentado em consultas públicas e aquele que entrou em vigor. À frente do caso estão o doutor Luis Eduardo Couto, promotor de justiça de Florianópolis e chefe do Centro de Apoio Operacional do meio Ambiente, e a Coordenadoria de Controle da Constitucionalidade.

Há, por enquanto, apenas uma certeza: a Fatma terá de atualizar o seu site. Lá, encontra-se o seguinte texto: “Dentre os onze habitats principais identificados num estudo recente realizado pelo Banco Mundial/Fundo Mundial para a Natureza (WWF) para a América Latina e o caribe (LAC), cinco deles ocorrem no Parque: florestas tropicais úmidas de folhas largas, florestas tropicais de coníferas, restingas, campos de altitude e manguezais”. A partir de hoje, isso é apenas meia verdade.

Procurado pela reportagem, o órgão ambiental de Santa Catarina não retornou as ligações. Até o fechamento desta matéria, Renato Sehn não havia sido localizado. Em 27 de março, dia seguinte à publicação da mesma, foi encontrado, mas não quis se pronunciar por telefone sobre o assunto.

Saiba mais:

Burrice estadual
Pior do que a chuva é o manda-chuva
De parque à APA, novamente
Santa Catarina: tragédia esperada
Comentários
Adicionar RSS
Santa Catarina não vai aprender nunca?
Liliani 26/03/2009 20:48:34

Mais uma vez o Estado de Santa Catarina na contra mão da conservação!
Impressiona a burrice do poder publico e a ganância do poder privado, de mãos
dadas rumo ao lamaçal que eles próprios causam.
E a sociedade diz o que?
Paulo Ramos 26/03/2009 21:22:34

Merecemos os políticos e todas as sacanagens!

Somos todos cúmplices pela
omissão!

Se a população de Santa Catarina não se importa, não se mobiliza!
Como o resto do país distante da área vai se importar?

Sem mobilização
popular estes salafrários políticos, do presidente da nação ao vereador da
menor cidade vão servir mesmo ao poder econômico que os pagou para se
elegerem!

Vamos continuar a dormir em berço esplêndido? Então vamos colher
nossas tempestades.
Réquien para o Tabuleiro...
James Pizarro 27/03/2009 03:54:47

Como todo gaúcho, amo de paixão SC e, sobretudo, Florianópolis. A tal ponto
que, após ter me aposentado da UFSM, S. Maria,RS, onde ministrei aulas de
Ecologia durante mais de 40 anos, vir morar na praia de Canasvieiras. Fico
estarrecido porque a cada 500 metros que se anda a gente dá de cara com um
crime ambiental (esgotos a céu aberto largados direto no mar, restos de
construção largados nos mangues, ocupação ilegal de morros, queimadas,
lixo,desmatamento,superpopulação da ilha, ganância da construção
civil,sescumprimento de leis, ausência de multas rígidas e emblemáticas,
etc...). É uma insanidade completa porque uma zona turística deslumbrante, que
vive de turismo, está a matar a sua galinha dos ovos de ouro para o futuro.
O
povo parece anestesiado,não se dá conta de que os governos não agem...eles
apenas REAGEM. Se o povo não agir, protestar, brigar, exercer sua cidadania, as
autoridades nada farão. Eu estou morando em Canasvieiras desde março de 2008 e
irritado com tanto descaso fiz um blog de Ecologia sob o título de "Antes
que a natureza Morra" : www.antesqueanaturezamorra.blogspot.com
Tenho quase
50 anos de militância ecológica, trabalhei com José Lutzemberger na AGAPAN de
P. Alegre, fundei disciplinas e cursos universitários, presidi a FZB-Fundação
Zoobotânica do RS, tive programas de rádio e TV sobre meio ambiente por
décadas, fiz passeatas, fui processado (e absolvido), etc...enfim, sou um jovem
incendiário de 67 anos que fica estático diante dos jovens de hoje, que se
transformaram nuns apáticos idosos de 18 anos.
Pobre país que se deixa
comandar por corruptos e pelas bobageiras da Rede Globo. Que lástima !
Que
Deus tenha pena dos meus 5 netos...

Prof. James Pizarro
ENTREGUISMO E RAPINAGEM ! ! !
eduino de mattos 28/03/2009 19:06:56

OLÁ PESSOAL, ESTA PRÁTICA ACONTECEU AQUI NO RGS, O GOVERNADOR GERMANO RIGOTTO
APRESENTOU UM PROJETO EM SUA GESTÃO DE "ADEQUAÇÃO" DO PARQUE DELTA DO
JACUI, RIO GUAIBA, SABEM QUAL ÉRA A INTENÇÃO ?
MANTER AS MANSÕES IRREGULARES
COM MARINAS, QUE FORAM CONSTRUIDAS EM ÉPOCAS PASSADAS POR POLITICOS, GOVÊRNOS,
EMPRESÁRIOS ETC.
DENTRO DOS LIMITES DO PARQUE !
E PIOR UTILIZARAM OS POBRES QUE
MORAM PRÓXIMOS DAS MANSÕES "COMO BUXA DE CANHÃO" DIZENDO "AQUELA
POPULAÇÃO SOFRIDA QUE MORAM NOS BANHADOS !
ETC. ETC.
OLHA PESSOAL É NOJENTO
O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO BRASIL !

"NINGUEM CONSEGUE ENGANAR TODOS POR
MUITO TEMPO"

eduino de mattos- conselheiro municipal de meio-ambiente de
porto alegre rs
ENTREGUISMO E RAPINAGEM ! ! ! > 2
eduino de mattos 28/03/2009 19:16:09

OLÁ PESSOAL,
RETORNEI PARA REPARAR UM ESQUECIMENTO : O EX. GOVERNADOR GERMANO
RIGOTTO É DO MESMO PARTIDO DO GOVERNADOR DO ESTADO DE SANTA CATARINA (PMDB),QUE
COINCIDÊNCIA !


eduino de mattos- porto alegre rs
Extinção a vista
João de Deus Medeiros 29/03/2009 12:15:37

O silêncio da FATMA é sintomático. Nas Ilhas costeiras agora transformadas em
APA, além da mencionada pousada, temos em outra delas a ocorrência de um dos
endemismos mais restritos do planeta. TRata-se de um pequeno roedor (Cavia
intermedia), que vive exclusivamente nas ilhas moleques do sul. OECO já
apresentou detalhada matéria sobre o caso. A FATMA (consta no seu sitio
eletrônico) não apenas tem plena ciência desta situação como utilizou a
raridade e ameaça desta espécie como argumento para aprovar projetos de
conservação na área no GEF e KfW. Com a mudança proposta o risco de
extinção desta espécie, ao contrário do pretendido pelos financiadores
(imagino), é grandemente ampliado.
O outro lado da história do "parque"
André José Campos 13/01/2010 09:53:24

O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro é de vital importância para a
conservação dos recursos naturais de Santa Catarina. Isso é um fato
incontestável. Entretanto, vale lembrar que existem famílias que moram no
interior da área do “parque”, mais especificamente na Vargem do Braço.
Essas famílias sofreram por mais de trinta anos com a indecisão sobre
indenizações. Conheço algumas dessas famílias pois moro em Santo Amaro da
Imperatriz e meus pais saíram da Vargem do Braço pois não poderiam nem mesmo
pintar a porta da casa de meus avós. Imaginem a seguinte situação: famílias
trabalhadoras, que sobrevivem da agricultura, trinta anos atrás. Imaginem
chegar em sua comunidade e num ato de terrorismo psicológico dizer que todos
serão retirados de suas casas pois a região se tornou um Parque. Todos serão
indenizados e não podem mais pintar ou reformar as suas casas pois estão em um
parque. Os filhos não podem mais construir uma casa no único terreno da
família pois a região é um parque. Imaginem o que os filhos, trinta anos
atrás pensaram: Vou sair daqui, ir para outro lugar pois nessa comunidade não
posso mais trabalhar ou morar. Houve uma grande evasão da região, pois os
filhos eram multados pelos fiscais do meio ambiente caso tentassem construir uma
residência. Até hoje, trinta anos depois, a comunidade da Vargem do Braço
não foi indenizada!!!!!!!! Isso é uma situação horrível. O poder público
foi extremamente perverso pois não indenizou ninguém e indiretamente obrigou
as pessoas a sair da região. Se houveram recursos para indenização na região
esse dinheiro foi simplesmente des*****.
Enfim, como algumas famílias iriam
sair da região elas pensaram: "vou vender nossa terra para quem oferecer um
bom dinheiro, pois se recebermos indenização esse dinheiro será pouco para o
padrão de vida de um centro urbano". Muitas famílias venderam as terras
que possuíam escritura pública para outros mais ricos. Por isso hoje na
região da Vargem do Braço afirmam que erguem-se mansões, mas os atuais
proprietários não tomaram posse ou invadiram a região. Eles simplesmente
adquiriram uma propriedade legalmente, com escritura pública. Como não houve
indenizações, legalmente a região não era um parque e isso é lógico. Se
você compra um terreno que não foi indenizado, que não é parque, você
pretende fazer algo nele. Aqueles com grande poder aquisitivo construíram casas
mais bonitas.
Enfim, para resolver os problemas do Parque (que duravam mais de
30 anos) foi proposto o projeto mosaico. Esse projeto foi aprovado e foram
criados um Parque e três APAs. Agora sim, a região está legalizada, pois as
terras que não possuem escritura pública são Parque e as que possuem
escritura pública estão nas APAs. A região que é Parque deve ser totalmente
cercada para que não ocorram invasões. A região que é APA deve ter leis para
regularizar a ocupação do solo, impedir loteamentos, regularizar a
agricultura, enfim, dar a segurança jurídica que todos os cidadãos merecem. E
é preciso existir uma fiscalização na região, isso eu concordo
plenamente.
Sobre a água da Grande Florianópolis: Em um Parque de proteção
integral não pode existir nenhum tipo de extração mineral. Ou seja, a água
dos Pilões não poderia ser retirada pela CASAN caso não fosse paga uma
indenização para a FATMA. De onde sairia esse dinheiro? É claro que do bolso
dos consumidores da região da Grande Florianópolis. Para onde esse dinheiro
iria? Bem, todos já devem imaginar o destino. É possível preservar a água
dos Pilões e a região da Vargem do Braço sem precisar causar transtornos para
ninguém. Temos um exemplo da Cidade de Nova York e das Montanhas de Catskill.
Lá funcionou e é uma megalópole, porque no Brasil não funcionaria com
Florianópolis? Estamos assumindo que não temos condições de gerenciar nossos
próprios recursos naturais se não encontrarmos uma solução para esse
problema do Tabuleiro. Como então queremos encontrar a solução para a
Amazônia? Uma região tão importante quanto a Mata Atlântica.
No meu ponto de
vista, o projeto mosaico é uma boa solução para o problema e existe solução
para resolvermos o problema da água na Vargem do Braço. Existe outra
solução: Indenizar toda a região mas essa indenização deverá ser muito,
muito alta, devido ao terrorismo psicológico sofrido pelas pessoas ao longo de
mais de trinta anos. E com a justiça do Brasil, até sair a decisão final
levaria mais 30 anos!!!!!!
Apenas para deixar mais uma informação: soube que
na Vargem do Braço existe uma associação com plantações ecológicas. Aqui
vai o link para a notícia:

http://www.radarsul.com.br/santo_amaro/
recanto-natureza.asp

A associação é Recanto da Natureza.
Espero ter
contribuído para explicar mais sobre o drama da região da Vargem do Braço.
Agradeço a colaboração e qualquer dúvida é só entrar em contato
Escrever comentário

Comentários são moderados e aceitos sempre
que não trouxerem termos abusivos ou ofensivos.


Nome:
Email:
 
Título: