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Onças pintadas descansam em recinto da NEX, em Corumbá de Goiás. (Crédito: Karina Miotto)

Onças pintadas descansam em recinto da NEX, em Corumbá de Goiás. (Crédito: Karina Miotto)

Gavião foi resgatado de uma fazenda do Mato Grosso. O animal, uma onça pintada, era visto como propriedade por um veterinário caçador (pasme) que arrancou suas garras e o manteve preso a um cabo de aço de 20 metros por mais de uma década na entrada de sua fazenda. O feito rendeu ao bicho cicatrizes ao redor de toda a região do pescoço. Hoje, Gavião tem uma vida diferente. Depois de 11 anos de tortura passou a viver em Corumbá de Goiás, há cerca de uma hora de Brasília, em uma fazenda da NEX – No Extinction, uma ONG cuja missão é, conforme se lê em seu site oficial, “a preservação e defesa dos felídeos da fauna silvestre do Brasil em processo de extinção”.  
 
Onça-pintada

Animal solitário e maior felino do continente americano. No Brasil, já quase não se veem onças nas regiões nordeste, sudeste e sul. Sua extensão de ocorrência é estimada em 8,75 milhões de km², a maior parte localizada na bacia amazônica.

Estes animais têm desaparecido principalmente devido à destruição de seus habitats e à caça predatória por conta de prejuízos causados à criação de animais domésticos. Muitas vezes são mantidos vivos em situações de tortura. Em 2008, a IUCN classificou a espécie como "quase ameaçada" de extinção.

Há 11 anos, quando não imaginava que teria um criadouro de felinos, Cristina Gianni, fundadora da NEX, foi fazer uma visita ao zoológico de Brasília. Notou que no chão havia uma jaula coberta com lona. Ficou sabendo que se tratava de Pacato, uma onça parda (também conhecida como puma ou suçuarana) encontrada pelo Ibama na Serra do Cachimbo, sul do Pará. Há quatro anos tudo o que ele fazia era se mover, de um lado para o outro, dentro de uma jaula de dois metros quadrados. Estava obeso e com hipertrofia dos membros posteriores. Ele não tinha para onde ir. “Foi quando pensei que havia lugar em minha fazenda”, conta. Com autorização do Ibama, levantou o primeiro recinto. Hoje já são 12 e o número de felinos atendidos chega a 20.

Os bichos são chamados animais-problema que, como Pacato ou Gavião, foram encontrados em péssimas condições: a onça parda Xuxo era criada como cachorro e tomava banho de shampoo; Ferinha perdeu a mãe em uma queimada no Pará, mesmo Estado onde Xingu viveu aprisionado por anos; Brutus também teve a mãe morta e só não morreu porque foi encontrado por uma família ribeirinha e alimentado com o leite de uma mulher que havia tido um bebê. Com o tempo, a falta de uma vitamina fez com que perdesse totalmente a visão.

“Pouca gente conhece a situação dos animais-problema. Existe muito preconceito com criadouros, mas estar aqui, para estes felinos, deve ser chegar à liberdade tamanho o horror que viviam”, afirma a diretora da organização.  Ela conta, por exemplo, que Gavião chegou à NEX com medo de gente. "O ex-dono impunha a mão fechada sobre ele e o animal abaixava a cabeça. Deve ter apanhado muito para ser dominado desse jeito", diz.

Paixão pela causa

Cristina segura Pajé. Seu nascimento foi filmado. (Crédito: Divulgação)

Cristina segura Pajé. Seu nascimento foi filmado. (Crédito: Divulgação)


Muitos não compreendem porque o casal gasta tanto por mês com isso. Silvano diz que esta é sua maneira de retribuir tudo o que recebe do planeta, enquanto Cristina conta que não se conforma em ver “onça sendo morta e torturada simplesmente por ser onça”. Uma boa explicação para esta frase de Cristina vem de Silvio Marchini, colunista de ((o)) eco. De acordo com ele, onças são geralmente abatidas porque provocam muitos sentimentos ao mesmo tempo (como o medo) e comem gado de algum produtor rural que, provavelmente a exemplo do vizinho, sem pensar duas vezes também aperta o gatilho para evitar mais prejuízo. Silvio encabeçou um projeto chamado Conviver Gente e Onças, no qual entrou em salas de aula de Alta Floresta, no Mato Grosso, para ensinar filhos de produtores rurais que onça não é um bicho tão perigoso assim.

Em um movimento com o intuito de aproximar as pessoas destes animais, a NEX mantém o projeto Onça Ajudando Gente, onde emprega pessoas da região e, quando necessário, contrata trabalhadores temporários para serviços pontuais. “Eles sabem que têm emprego por causa das onças e passam a olhá-las com outros olhos”, afirma Cristina. Além de onças pintadas e pardas, a organização também abriga jaguatirica, gato maracajá, jaguarundi, gato palheiro, gato do mato grande e gato do mato pequeno.

Mais NEX pelo Brasil
Pedro Camargo mora no interior de São Paulo e já conhecia a atuação da NEX. Diante do fato de a Ong não ter condições financeiras de manter mais de 20 animais em Corumbá de Goiás, ele pediu autorização do Ibama e recentemente obteve permissão para abrir em sua propriedade particular localizada em Itapira, a 170 km da capital de São Paulo, a primeira filial da organização, chamada NEX Santa Rosa. Vai começar a empreitada dentro de até três meses e com dois recintos para quatro animais ao custo de 200 mil reais, investimento que também virá de seu próprio bolso. “Acredito que, com o tempo, teremos muitos parceiros” diz, otimista. O NEX Santa Rosa, a exemplo do NEX, também permitirá visitas guiadas para grupos fechados e previamente agendados para aqueles que quiserem conhecer um pouco melhor sua maneira de atuação e, claro, o universo das onças.

Projeto Ferinha
Ferinha é uma onça macho que chegou do Pará e, desde pequeno, não demostra nenhum tipo de inclinação para a convivência com humanos. Ao perceber isso, Cristina e Silvano não quiseram perder a oportunidade de prepará-lo para uma possível reintrodução à sua terra natal, a Amazônia. Diferentemente das demais onças, Ferinha não convive com outro animal e vive em um recinto de 800 m² isolado do contato humano. Acima dele há um pequeno chalé cujas paredes são feitas de vidro e madeira. Persianas pretas escondem o movimento interior e um computador registra imagens de todos os movimentos do animal.

O próximo passo da NEX é financiar a soltura em algum local da Amazônia. Está em busca de um pedaço de terra e deixa claro que só fará isso com apoio e autorização do Ibama. “Não me comprometo a ter êxito, mas quero soltá-lo”, afirma Cristina. Seria um feito e tanto. Diante de exemplos como os de Silvio, Cristina, Silvano e Pedro, fica mais fácil acreditar em um futuro melhor para as onças.

Saiba mais:

Veja vídeo do nascimento de Xamã e Pajé, dentro da NEX, em junho de 2011
 

*Atualizado às 20h24