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Após ações do projeto, conservação da onça-pintada passou a ser apoiada por filhos de produtores rurais de Alta Floresta, no Mato Grosso. (Crédito: Divulgação)

Após ações do projeto, conservação da onça-pintada passou a ser apoiada por filhos de produtores rurais de Alta Floresta, no Mato Grosso. (Crédito: Divulgação)

 
Crianças na sala de aula de uma escola rural na fronteira de desmatamento da Amazônia não costumam ser vistas como potenciais aliadas na conservação da biodiversidade. Elas ainda não tomam decisões sobre o uso dos recursos naturais. Isso quem faz são seus pais. Só o que normalmente se espera delas é que – algum dia – se tornem adultos que ajam de forma mais ambientalmente correta. Neste cenário, muitos educadores ambientais esperam que seus esforços em sala de aula no presente se traduzam em benefícios para a biodiversidade apenas na próxima geração de tomadores de decisão.
 
O Projeto Conviver Gente e Onças, no entanto, mostra que a educação pode trazer resultados imediatos. Ele foi desenvolvido em Alta Floresta, no Mato Grosso, e surgiu em resposta ao abate de onças pintadas, o que, juntamente com o desmatamento, é uma grave ameaça a esta espécie de nossa fauna que desperta interesse e emoções tanto em crianças quanto em adultos - da Amazônia rural aos grandes centros urbanos, é o primeiro animal que vem à cabeça quando se pensa em floresta. Além disso, todos têm algum sentimento por ela: admiração, fascínio, medo ou raiva, ou tudo isso ao mesmo tempo.
 
O projeto faz uma contribuição relevante para o tema da aprendizagem entre gerações, revelando o potencial das crianças como interlocutores entre os conservacionistas e as comunidades rurais na fronteira de desmatamento da Amazônia. Os resultados - cujos dados foram obtidos em um experimento científico rigorosamente elaborado e conduzido - sugerem que crianças podem transferir para seus pais certas mudanças de atitudes obtidas em sala de aula e, dessa forma, modificar a curto prazo os comportamentos que atualmente ameaçam a biodiversidade na Amazônia.
 
Motivações para o abate
Entrevistas com mais de 600 produtores rurais na Amazônia e no Pantanal revelaram que, além da realidade objetiva do prejuízo econômico, a subjetividade de sentimentos e percepções também pode estar por trás do abate de onças pintadas. Especificamente entre produtores rurais no município de Alta Floresta, o medo de onça e a crença de que matá-las é uma prática comum entre os vizinhos, além da ameaça à pecuária, são as principais motivações para seu abate. Foi com esses produtores rurais e seus filhos que o Projeto Conviver Gente e Onças realizou um experimento que avaliou a efetividade de diferentes abordagens de educação e comunicação – dentro e fora da sala de aula – para melhorar os sentimentos e as percepções acerca das onças e, consequentemente, inibir o comportamento de matá-las.

Silvio Marchini palestra em sala de aula em um dos experimentos do projeto. (Crédito: Divulgação)

Silvio Marchini palestra em sala de aula em um dos experimentos do projeto. (Crédito: Divulgação)

 
O impacto foi maior entre os pais que receberam o livro através da escola, das mãos do próprio filho ou filha: ao final do experimento, eles estavam menos convencidos de que matar onças é uma prática comum e socialmente aceitável. Supõe-se que a distribuição dos livros através das escolas rurais seja uma maneira mais efetiva de prevenir o abate de onças do que sua distribuição por outros meios. Os pais foram influenciados não apenas pela informação comunicada pelo conteúdo, mas também pela mensagem implícita de que a conservação da onça pintada é apoiada por seus filhos, por uma instituição comunitária que eles reconhecem e respeitam – a escola local – e supostamente também por outros membros da comunidade.
 
A escola como aliada
Educadores e comunicadores ambientais devem estar cientes das oportunidades de se beneficiar desse “efeito maria-vai-com-as-outras” e buscar maneiras de fazer com que suas mensagens pareçam partir de dentro da própria comunidade que se pretende atingir; mensagens que chegam horizontalmente de outros membros da comunidade (por exemplo amigos, vizinhos e parentes) podem ser mais facilmente aceitas do que aquelas que parecem chegar de cima para baixo, impostas por pessoas ou instituições “de fora”.
 
Talvez os conservacionistas possam usar as escolas para atingir simultaneamente dezenas de crianças em sala de aula que poderão, por sua vez, influenciar seus pais e outros membros da comunidade. Considerando os desafios, estratégias de educação e comunicação para a conservação com foco na escola podem ter uma relação custo-benefício particularmente atraente na região, desde que as crianças transmitam efetivamente aos pais a mensagem de conservação.

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Silvio Marchini é doutor em Conservação da Vida Silvestre, fundador da Escola da Amazônia e membro do Instituto Pró-Carnívoros. E-mail: [email protected]