Análises

Questão de pele, mesmo se for casca-grossa

Crocodilomorfos como o jacaré-de-papo-amarelo estão aqui há 250 milhões de anos. Sobreviveram às extinções em massa e resistem às humanas.

Fabio Olmos ·
9 de outubro de 2012 · 14 anos atrás
Foto à curta distância de um jacaré-de-papo-amarelo. Crédito: Fábio Olmos
Foto à curta distância de um jacaré-de-papo-amarelo. Crédito: Fábio Olmos

Adoro texturas e a pele animal é um universo delas. Aqui temos um jacaré-de-papo-amarelo, o Caiman latirostris. Além de ser inspiração para tatuagens (fica aqui a sugestão), a pele dos crocodilomorfos é um exemplo de órgão multi-tarefa, sendo ao mesmo tempo armadura, trocador de calor e âncora biomecânica. Órgão sofisticado em termos de estrutura e fisiologia, é uma das chaves para o sucesso do grupo, cascas-grossa que estão por aqui há cerca de 250 milhões de anos e, desde então, sobreviveram a todas as extinções em massa.

Há 90 milhões de anos, um deserto cobriu o sudeste do Brasil (o deserto da Namíbia é o seu contraparte). Nele havia  crocodilomorfos que cavavam tocas como tatus,  eram predadores terrestres como tigres ou generalistas como gambás. Neste deserto mesozoico os crocodilomorfos eram reis, e não os dinossauros, e havia espécies com nomes excelentes como Mariliasuchus amarali, Baurusuchus pachecoi, Sphagesaurus montealtensis, Adamantinasuchus navae, Armadilloscuhus arrudai, Uberabasuchus terrificus e Morrinhoschus luziae. É uma pena que os Uberabasuchus não existam mais, provavelmente seriam pets bem interessantes.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Muito mais recentemente, quando os primeiros humanos chegaram às ilhas de Nova Caledônia e Vanuatu encontraram os pequenos crocodilos terrestres do gênero Mekosuchus. Estes acabaram na panela e foram extintos pelos Polinésios. O grande Voay, um crocodilo com chifres, desapareceu de Madagascar após a chegada dos humanos, e o mesmo pode ter acontecido com um “gavial” das ilhas Salomão.

Bos parte dos crocodilomorfos atuais estão seriamente ameaçados de extinção e podemos estar vendo o fim de linhagens como os veneráveis gaviais. Por isso fico sempre feliz quando, contra as probabilidades, encontro jacarés-de-papo-amarelo em lugares como o rio Tietê, os manguezais de Cubatão ou as lagoas da Barra da Tijuca. Casca grossa mesmo.


Autor deste blog, Fabio Olmos é biólogo e doutor em zoologia. Tem um pendor pela ornitologia e gosto pela relação entre ecologia, economia e antropologia. Seu último livro, sobre ecossistemas brasileiros e conservação, é Espécies e Ecossistemas.

 

  • Fabio Olmos

    Biólogo, doutor em zoologia, observador de aves e viajante com gosto pela relação entre ecologia, história, economia e antropologia. →

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
6 de novembro de 2026

Abertura do 1° Congresso Pan-Americano de Trilhas marca protagonismo brasileiro no continente

Evento se estende até domingo (8), com representantes de diferentes países que se inspiram no exemplo do Brasil para multiplicar as trilhas das Américas →

Análises
6 de novembro de 2026

Morcegos: animais incompreendidos e vilanizados

Como a informação pode transformar o medo em curiosidade, aproximar as pessoas dos morcegos e transformá-las em aliadas da conservação →

Externo
6 de novembro de 2026

Projetos de mineradora financiada pelo Master afetam 127 áreas protegidas 

Levantamento da Repórter Brasil identificou 88 projetos de minerais críticos da 3D Minerals em áreas sobrepostas ou na zona de impacto de terras indígenas, territórios quilombolas, unidades de conservação e assentamentos; empresa arrematou áreas de exploração em leilão da ANM apenas 45 dias após ser criada →

Mais de ((o))eco

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.