Análises

Camundongos assassinos, albatrozes e a seleção natural

Albatrozes enfrentam um novo inimigo dentro do seu habitat: camundongos mutantes. Cortesia de antigos marinheiros e da seleção natural.

Fabio Olmos ·
10 de setembro de 2012 · 9 anos atrás
Um albatroz-de-tristão (Diomedea dabbenena) se junta a outras aves marinhas seguindo um espinheleiro 200 milhas fora da costa de Santa Catarina.

Albatrozes são aves marinhas magníficas que surfam na crista das tempestades e são mestres na arte de voar sem esforço, aproveitando os ventos das altas latitudes. Nunca esquece quem já os viu brincando no vento, enquanto a tripulação do barco reza para o mar se acalmar.

Demoram tempo semelhante ao nosso para atingir a maturidade sexual e também vivem por décadas. Há aves que ainda nidificavam depois dos 60 anos. Esta longevidade – e uma alta probabilidade de sobrevivência – está associada a investir na qualidade e não na quantidade da prole.

Os Albatrozes formam casais estáveis ao longo da vida, com eventuais puladas de cerca.  Eles não tem pressa e produzem um único filhote por temporada reprodutiva (que no caso das espécies maiores dura dois anos). É comum que as aves que reproduzem em uma temporada tirem férias e pulem a temporada seguinte.


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Essa estratégia, e o fato de nidificarem em ilhas sem predadores, tornaram os albatrozes muito bem-sucedidos. Existiam espécies com população de milhões e colônias com centenas de milhares de indivíduos.

Isso é, até os humanos chegarem. Colônias foram exterminadas por povos “tradicionais” caçando para subsistência e, depois, em escala industrial para coleta de ovos e penas (sabe o recheio de edredons ?).  Gatos, ratos, cães e porcos introduzidos por marinheiros e colonos se juntaram à carnificina.

O advento da pesca industrial com o uso de espinhéis visando atuns, peixes-de-bico, tubarões, merluzas-negras e outros predadores de topo não foi apenas um desastre para essas espécies (algumas populações de tubarões e atuns declinaram em mais de 90%),  mas também para várias aves marinhas capturadas nos mesmos anzóis.

O resultado é que todas as 22 espécies de albatrozes foram afetadas: 3 estão criticamente em perigo de extinção, 5 em perigo, 9 são vulneráveis e 5 “quase ameaçadas”. Toda a família Diomedeidae, uma linhagem que já voava sobre os mares no tempo dos dinossauros, pode sofrer uma extinção em massa pelas nossas mãos.

Nossos associados, os ratos, também têm participação. O camundongo Mus musculus é provavelmente originário do norte da Índia. Ele colonizou o leste do Mediterrâneo ao redor de 8.000 AC, conforme as primeiras vilas agrícolas permanentes se estabeleciam. Esse comensal humano é uma sombra que acompanhou a agricultura, o comércio e as navegações que tornaram o mundo um lugar globalizado.

Camundongos em navios colonizaram muitas ilhas oceânicas (incluindo Trindade e Noronha, no Brasil). E na ilha de Gough, a meio caminho entre o Uruguai e a África do Sul, onde a vasta maioria dos albatrozes-de-tristão nidifica, os roedores sofreram uma transformação.

Em Gough, filhotes de albatrozes e outras aves marinhas são uma fonte de alimento abundante e conveniente, enquanto invernos rigorosos reduzem a produtividade de plantas e invertebrados. Nesse habitat, os camundongos maiores e mais agressivos (e possivelmente mais inteligentes), capazes de atacar e comer aquelas aves dóceis, levaram vantagem sobre os que continuaram com a dieta ancestral de sementes e insetos. E se reproduziram mais, transmitindo essas características a seus descendentes.

A boa e velha seleção natural, atuando em um habitat rigoroso sobre uma espécie com tempo de geração curto, rapidamente tornou os camundongos de Gough em algo diferente de seus ancestrais (que podem ter chegado lá apenas no início do século XIX). Eles são maiores e agressivos. Têm 34 gramas, o dobro de outras populações em ilhas e quase 10 gramas a mais do que um camundongo doméstico.

Esses super roedores escalam um filhote de albatroz pesando quase 10 kg e literalmente o comem vivo, cavando um buraco em suas costas e entrando em seu corpo (veja o vídeo). O resultado é que as populações de albatrozes e outras aves estão sendo dizimadas por estes predadores.

No Brasil, há uma atitude de se ficar olhando animais introduzidos destruindo espécies insulares, enquanto se faz pesquisa que nunca viram atitudes práticas. Ao contrário, outros países têm desenvolvido projetos de erradicação (Rat Island: Predators in Paradise and the World’s Greatest Wildlife Rescue, de William Stolzenburg, é um bom sumário do assunto).

O governo britânico decidiu corrigir o mal feito dos antigos navegadores e erradicar os camundongos mutantes de Gough em uma operação de guerra com helicópteros e muito rodenticida. Albatrozes, buntings e outros endêmicos agradecem.

 

Autor deste blog, Fabio Olmos é biólogo e doutor em zoologia. Tem um pendor pela ornitologia e gosto pela relação entre ecologia, economia e antropologia.
 

  • Fabio Olmos

    Biólogo, doutor em zoologia, observador de aves e viajante com gosto pela relação entre ecologia, história, economia e antropologia.

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