Os reis do gado e suas vacas insoladas PDF Imprimir E-mail
17/05/2009, 13:00
  “Quando se colocam questões ambientais e sociais acima de seu direito de propriedade, o usual é que o pecuarista “feche o tempo” e solte logo que ali é ele quem manda, ali ninguém dá palpite, sempre foi e assim será.... A civilização da pata do boi é a civilização do ferro de marcar, do medo, do açoite, da escravidão, da violência velada”.

João Meirelles Filho em “O Livro de Ouro da Amazônia”

Em seu livro Tábula Rasa (todo sociólogo ou antropólogo deveria ler) o neurocientista Steven Pinker discute como sociedades baseadas na pecuária desenvolvem culturas de violência que persistem mesmo depois que seus descendentes se tornam urbanos. Este seria um tema interessante para pesquisa em um país onde reis do gado e vaqueiros são proeminentes nas raízes nacionais.

Desde que os senhores feudais da Casa da Torre de Garcia D’Ávila iniciaram o processo de destruição da Caatinga aos frigoríficos e fazendeiros que hoje destroem a Amazônia, a pecuária fez mais do que marcar a cultura nacional a ferro, ela tem causado desastres indeléveis na nossa natureza.

É curioso que hoje se faça tanto barulho sobre o Código Florestal quando é o setor agropecuário que tem o que justificar.

Estamos vendo a legislação ambiental e unidades de conservação já existentes ou projetadas sendo sabotadas sob os auspícios de Lula e Dilma, irremediavelmente presos ao passado e linha de frente do desenvolvimentismo a qualquer curso dos generais dos anos 1970. Enquanto isso o mundo está mudando. Sabemos o que as mudanças climáticas em curso nos reservam, mas nossos iluminados líderes tocam o país como se não fosse com eles.

Secas como as que vemos agora no Pantanal, oeste de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e as enchentes no norte e nordeste, são amostra do que se tornará mais comum. Conforme o pêndulo climático oscila cada vez mais, o que hoje inunda amanhã sofrerá secas, e vice-versa. Eventos extremos serão cada vez mais comuns, mas também é evidente que tragédias seriam menores se encostas e várzeas não tivessem sido “produtivamente” ocupadas por pastos ou lavouras.

É mais que prudente, exceto para os ruralistas em geral, os deputados catarinenses em particular, os gênios que conduzem nossa política energética e o Sapo Barbudo (que agora confessou sua antipatia pelas pererecas) que devemos embarcar em um esforço intensivo para mitigar os estragos das mudanças climáticas, tanto cortando emissões como retirando carbono da atmosfera.

Uma política energética que seja minimamente inteligente e desmatamento zero são fundamentais para isso. Assim como plantar muitas árvores, por exemplo para a recuperação de áreas de preservação permanente (APPs) que foram ocupadas. O fato destas tenderem a ser sinônimo de áreas de risco (várzeas, margens de rios e encostas) mostra a previdência de quem bolou nosso Código Florestal.

Enquanto ruralistas batem na tecla de que "o código ficou obsoleto, dissociável da realidade rural brasileira", a verdade é que a realidade da agropecuária brasileira é que está dissociada da realidade do planeta.

Este é o setor que capitaneia o atraso do país, mantendo vivas instituições como o trabalho escravo, a grilagem de terras e o espírito dos robber barons do capitalismo selvagem do século XIX. É o mesmo setor cuja representação no Congresso pode ser acusada de tudo, menos de compromissada com o futuro e torna verdadeira a máxima de Maquiavel de que mesmo as leis mais bem ordenadas são impotentes diante dos costumes.

Antes de questionar o Código Florestal, deveríamos questionar especialmente o desempenho e responsabilidade da pecuária, que ocupa 250 milhões de ha do país e abriga tanto o de mais moderno como o de mais arcaico no setor. Em particular a pecuária feita na Amazônia, Caatinga e partes do Cerrado, com sua patética produtividade de, quando muito, uma vaca/hectare/ano.

Deveríamos cobrar a responsabilidade de um setor que, segundo o Cepea/USP, produziu 115 milhões de ha de pastagens degradadas e já ocupa 15% da Amazônia Legal (para dar uma idéia, Terras Indígenas ocupam c. 20%). Deveríamos cobrar por que no Centro-Oeste, região onde a atividade domina e fornece boa parte dos agropolíticos, 80% das pastagens mostrem algum sinal de degradação.

Boa parte desta desgraceira é atrelada a uma política imbecil bancada com dinheiro do contribuinte e recursos do Basa, FNO, Banco do Brasil e BNDES. A indefectível plaquinha do Basa adorna todas as porteiras em áreas de desastre ambiental, do sul do Maranhão e Bico o Papagaio a Rondônia.

A maior parte dos frigoríficos amazônicos é completamente irresponsável e não está nem aí para a procedência do gado que abate. Apesar de seu histórico, frigoríficos receberam R$ 6 bilhões, ou verba equivalente a todo o resto dos investimentos diretos na área industrial do banco, desde o setor automotivo até as usinas de etanol. Outros 3,7 bilhões devem ser destinados pelo mesmo BNDES para socorrer frigoríficos em dificuldades devido à crise financeira

As prioridades para com o futuro do presidente que acha que “ler é chato” ficam evidentes quando esta generosidade ocorre ao mesmo tempo que corta o já minúsculo orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia e energias renováveis são esquecidas pelos pacotes de bondades fiscais.

O mínimo que deveria ser exigido, já que é o dinheiro público que faz os frigoríficos funcionarem, é que estes deixem de alimentar o desmatamento, passem a alimentar responsabilidade, comprando apenas de fornecedores que, no mínimo, cumpram a lei. O ministro Carlos Minc está no caminho certo, falta ver se terá a benção de seus chefes.

A pecuária brasileira tem um legado desastroso. Não precisaria ser assim. Enquanto há pecuaristas e frigoríficos que, para o bem maior, merecem antes a falência terapêutica que socorro de bancos oficiais, há a banda boa daqueles que têm mostrado que criar gado pode ser conciliado com conservação.

Na Espanha, a Extremadura recebe menos de 500 mm de chuva por ano, menos que muitas áreas em nossa Caatinga. Há séculos ali se utiliza uma das formas mais ecologicamente corretas de produção agropecuária no continente: as dehesas.

Estas, e seus similares portugueses, os montados, são pastagens arborizadas com carvalhos (encinas e alcornoques, estes famosos por produzir a valorizada cortiça) manejadas em rotação. No primeiro ano a área entre as árvores (sempre mantidas) é cultivada com grãos. Após a colheita cresce o pasto nativo que, ao longo dos anos dá lugar a arbustos que depois são usados como adubo para iniciar novo ciclo.

A paisagem das dehesas e montados é de rara beleza. Velhos carvalhos pontilham o terreno ondulado coberto de flores silvestres onde carneiros e antigas raças de gado pastam junto a simpáticos porcos negros que procuram comida ao ar livre e chafurdam em pequenos brejos.

Cervos, javalis, lebres, coelhos e perdizes vivendo com o gado são manejados como espécies cinegéticas e áreas enormes são mantidas como cotos de caza. Fonte de produtos que fazem a alegria de quem gosta de uma boa mesa, como quesos extremeños, jamones de bellota, terneras extremeñas e lomos de ciervo, e da cortiça utilizada em rolhas de vinho, as dehesas mantém os habitats e dão uso econômico a áreas que de outra forma poderiam ter sido destruídas pela agricultura intensiva.

Os carvalhos que dominam as dehesas produzem enormes quantidades de frutos (bellotas), que engordam os porcos ibéricos que são a matéria-prima de fantásticos jamones e são procuradas por vários animais selvagens, incluindo milhares de grous e pombos que para ali migram vindos de outras partes da Europa. Não à toa, as dehesas sustentam uma crescente indústria de ecoturismo baseado na observação de aves e conservacionistas dão todo o apoio aos produtores agrícolas que mantém estes sistemas.

As dehesas espanholas, mimetizando bosques nativos, se tornaram um dos principais refúgios para a fauna da Península Ibérica.  Muitas aves nativas, que incluem uma diversidade notável de rapinantes e muitos migrantes vindos do norte da Europa, além de mamíferos que compartilham o habitat com o gado. Conservacionistas e proprietários rurais também formaram parcerias que tem ajudado a recuperar espécies ameaçadas, como a águia imperial ibérica.

Os espanhóis podem ter pastagens ecologicamente corretas há muito tempo, mas alguns de nossos pecuaristas também estão chegando lá.

Os Pampas (ou Campos Sulinos) estão entre os biomas brasileiros mais desprotegidos, como míseros 2,32% da área total de campo natural existente no Rio Grande do Sul estando no interior de Unidades de Conservação, e apenas 0,15% naquelas de proteção integral.

Campos naturais são o habitat de excelência para a criação de gado, ainda mais no Brasil, onde a extinção da megafauna pré-histórica deixou nichos ecológicos vagos que hoje podem ser preenchidos por bois, cavalos e carneiros domésticos. 

Conservação de pastagens nativas, certificação de origem, manejo responsável sem pastoreio excessivo e exclusão do gado de áreas ecologicamente sensíveis, como brejos, são a receita que concilia o uso econômico com a conservação da biodiversidade do Pampa que está sendo promovida por pecuaristas da Apropampa, pesquisadores e organizações não-governamentais da Alianza del Pastizal, representada no Brasil pela Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil. Esta talvez a melhor esperança de conservação do Pampa, ameaçado de ser coberto por pinus para alimentar papeleiras.

O Pantanal, com seu mosaico de campos naturais, áreas úmidas, cerrados e florestas, também é uma região onde gado e cavalos podem ocupar nichos vagos no ecossistema natural. Ali, uma pecuária mais consciente e menos destrutiva também está surgindo, alimentada pelo crescimento de um mercado consumidor que se preocupa em não comprar bifes que financiam um mundo pior. De forma significativa, pecuaristas estão se engajando em achar formas de convivência com predadores, tradicionalmente perseguidos por matarem o gado, e até ganhar dinheiro com isso.

O uso de pastagens sombreadas, como as dehesas e aquelas que raros pecuaristas têm implantado em São Paulo, Paraná, Triângulo Mineiro e Alagoas, é um tema recorrente na pecuária ecologicamente correta. Estas são algo muito distante do padrão usual no Brasil, onde em geral se passa o correntão, planta-se braquiária e deixa-se o gado cozinhar ao sol em constante stress devido ao calor.

O que qualquer zootecnista sabe diminuir a produtividade e ser, em última análise, algo muito idiota de se fazer. Afinal, vários estudos tem mostrado que vacas felizes produzem mais e melhor e é difícil ser feliz quando, dia após dia, se tosta sob um sol de 40 graus. Temos produtores que olham o futuro e se tornaram adeptos desta visão, mas o grosso prefere seguir pré-cozendo seu gado no pasto.

A pecuária extensiva em pastagens sombreadas, ou se preferirem, sistemas silvopastoris, apresenta uma série de vantagens que deveriam torná-las procedimento-padrão e estimular a criação e refinamento de modelos. No Cerrado, dever ser possível utilizar sistemas que mesclem forrageiras nativas, com espécies arbóreas nativas que dêem sombra e/ou possam ser exploradas economicamente (como o pequi e fruteiras nativas), beneficiando o bolso e a biota.

A discussão do Código Florestal deveria incluir como questão central o estímulo à agricultura e a pecuária manejadas de forma ambientalmente adequada. Os cafezais pendurados em encostas da ex-Mata Atlântica de Minas Gerais e Espírito Santo teriam os conservacionistas como defensores se fossem manejados como os da Colômbia, Costa Rica ou Kenya, onde cafeeiros mais felizes produzem os melhores cafés o mundo sob a sombra de árvores, formando um habitat tão importante para a fauna que existe um selo específico de qualidade.

Melhor do que as pastagens degradadas, com um boi aqui e outro acolá, que dominam lugares como o leste do Pará e o Maranhão ex-amazônico, melhor seria ter plantações de palma entremeados por APPs recuperadas fornecendo habitat para a biota nativa. Melhor ainda se estas plantações tivessem grupos de árvores nativas espalhadas na sua matriz ou fossem entremeadas com policultivos perenes.

Ao invés do INCRA, campeão nacional da irresponsabilidade governamental continuar sua política estúpida de assentamentos em florestas, melhor seria ter propriedades familiares dedicadas à permacultura em áreas degradadas longe de florestas mas próximas de centros consumidores.

É claro que nenhum destes sistemas pode se comparar em biodiversidade a uma floresta ou cerrado nativos, da mesma forma que as cabrucas baianas, mesmo sendo o melhor sistema para cultivo de cacau, não conseguem sozinhas manter todas as espécies. Manter áreas de habitats naturais, como unidades de conservação e APPs, é fundamental.

Mas também é fundamental promover uma agropecuária que vise não só produção, mas também crie áreas onde parte da nossa biodiversidade consiga existir, constitua matrizes mais permeáveis para as que não podem e mantenham serviços ambientais como absorção de carbono e a atração de chuvas (os fazendeiros catarinenses e gaúchos que hoje passam sede deveriam ler).

Ao invés de nos perder em porcentagens, deveríamos aproveitar a discussão do Código Florestal para forçar o setor agropecuário a se tornar de problema em solução. É salutar que a vasta maioria da opinião pública prefira o fim do desmatamento ao aumento da produção.

Incomodado, o ministro da agricultura Reinhold Stephanes distorceu a história dizendo que "se a sociedade achar que devemos parar de produzir para recompor todo os biomas do passado, então ela vai ter que pagar por isso".

Não se trata disso, mas sim de fazer respeitar as leis e o bom senso e recuperar o que nunca deveria ter sido destruído. O que é um preço menor do que o que já pagamos por termos reis do gado, senhores de engenho e barões da soja, hoje ironicamente apoiados por quem ia mudar tudo que aí está, que há 500 anos tratam o país como sua fazenda.

Sugestão de leitura:

Ecoagricultura: alimentação do mundo e biodiversidade, de Jeffrey McNeely e Sarah Scherr

Comentários
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pedro 17/05/2009 18:32:29

Ao ler este artigo,e como portugues nao posso deixar de mencionar algo:
simplesmente que os ecossistemas europeus sao diferentes dos tropicais,pelo que
desconfio da vailibilidade do referido sistema florestal no brasil,ao que no
entanto presumo que na floresta atlantica ( locais de araucaria) tal fosse
possivel...
Os espaços mencionados onde predomia os quercus aqui na peninsula
iberica,sao ecossistemas antigos,remontam ao seculo xviii e albercam uma grande
percentagem de fauna e flora silvestre,e devo referir que portugal surge em 1
lugar no que toca a esse ecositema e nao espanha,no entanto ainda que
protegidos,nota se uma continua perda destes espaços,quer por interesses
politicos pouco nobres,quer por muitas destas arvores estarem a ser agredidas
por muitas factores,nomeadamente alteraçoes climaticas,etc
Entre as
mencionadas arvores,dentro da familia quercus variam conforme o clima do país (
ex: azinheira no sul,carvalhos portugueses no centro e a norte os
alvarinhos),mas só 2 especies sao protegidas: a azinehira e o sobreiro...as
restantes nem chegam a 3% do territorio e sao abatidas sem qualquer
respeito,seja uma arvore secular ou uma juvenil...por sua vez muitos destes
espaços sao atravessados por bosques ribeirinhos ( ulmeiros,arvore quase
extinta do país ,choupos ,freixos) e carecem tb de proteçao,sujeitos a
vandalismo.
Conclusao,ainda que os europeus tomem medidas de conservaçao muito
boas,lembrem se que ha muitas falhas,verificadas na passagem do formal para o
material e que os ecossitemas europeus nada terao haver com os vossos.Nao
devemos copiar modelos na integra,simplesmente olha los como
referencia.
Abraço e tudo do melhor
pedro 17/05/2009 18:39:37

Ja agora,deixei me mencionar que vivo num desses locais e conheço de perto os
seus problemas.E que de forma individual tenho vindo a reproduzir muitos desses
quercus e a tentar salvaguardar seus habitats.Tenho muitas fotografias desses
espaços e agora na primavera sao locais lindos por toda a variedade de flores
silvestres,cobrindo o solo de rosa azul amarelo e toda uma paleta de cores.tenho
fotos e poderei mostra las a quem quiser.agora sim,um abraço
Heitor de Castro 17/05/2009 19:00:40

Muito bom o artigo. Não apenas critica o modelo pecuarista tradicional, mas
aponta diversas propostas que podem ser implementadas em diversos ambientes
distintos.

Como sugestão de pesquisa e um futuro artigo, menciono os campos de
altitude do oeste de SC, que vem sendo "invadidos" por pinus muito
recentemente. Entretanto, a criação de gado bovino lá, se não me engano, é
secular e contribuiu de certa forma para a manutenção daquele ecossistema.
CONSTRUTIVO
Tadeu Santos 17/05/2009 19:41:05

As informações contidas neste brilhante artigo deveriam ser ''urgentemente''
lidas no Congresso Nacional, na Casa Civil e no Gabinete da Presidência da
República Federativa do Brasil.

OBS. Deveriam também chegar ao Ministério
da Agricultura, EMBRAPA e a CNA, não esquecendo é obvio de baixar na Casa da
Agronômica, em Florianópolis/SC.

PARABÉNS FÁBIO OLMOS
Nunca foi verde
Alaor 18/05/2009 05:09:37

José Dirceu falou e disse quando assumiu que o pt nunca teve tradição
ambiental, pode parecer verde por fora, mas é melancia, vermelho por dentro.
gostei muto do artigo, mas perdeu tempo crticando o governo e podria ter
explicado mais sobre pecuaria alternativa. a turma da esquerda que se diz
democratica adora esse tom critico-partidario, assim pode transformar os
argumentos contrários em politicos e ignorar...mas valeu
ESTRATÉGIAS PARA DEVASTAR A MATA ATLÂNTICA
Germano Woehl Junior 18/05/2009 06:02:25

Fabio,
Eu tenho pavor deste tipo de paisagem. Na região norte de SC e sul do
Paraná é exatamente desta forma que eles criam gado, ou melhor, que eles
destroem as áreas preservadas.

É a estratégia mais usada para enganar a
fiscalização. Eles enfiam o gado na mata virgem e aos poucos vão roçando o
sub-bosque para o gado ir penetrando e destruindo o ecossistema. No final, a
paisagem resultante fica bem parecida com a mostrada na foto.

Em várias
denúncias de destruição como esta eu não consegui fazer com que os
devastadores fossem multados. Há argumentos de que este seria a forma de usar a
Mata Atlântica de forma sustentável.

Posso lhe garantir que nestas
paisagens com algumas imbuias, erva-mate e araucárias no meio da pastagem a
biodiversidade não é muito maior do que a encontrada na Praça da República
no centro da capital paulista ou nos jardins e quintais das residências.

As
espécies de anfíbios da serapilheira são os primeiros a dançarem, logo em
seguida vem os mamíferos e as aves. Só ficam aquelas espécies triviais de
serem encontradas em áreas urbanas ou as eventuais que saem das áreas
preservadas nas proximidades.

Tanto minha família como os vizinhos, em
Itaiópolis (SC) e Papanduva (SC), onde morava minha avó materna, criavam gado
em áreas neste tipo de paisagem. Ao longo de décadas eu pude testemunhar que
aqueles pés de erva-mate (aqueles verdadeiros bonzais, resultado das
extrativismo) e imbuias foram decaindo sem haver reposição.

Nestas áreas
de pastagem eu nunca vi um inhambu, uma rã-mijadeira (Eleutherodactylus sp.),
ou sapo-boi (Proceratophrys boiei).
Sem confusões
Fabio Olmos 18/05/2009 06:19:26

Germano, longe de mim sugerir que florestas sejam transformadas em pastagens
arborizadas. O que sugiro é que pastagens convencionais já implantadas, do
tipo com uma árvore aqui e outra lá longe (quando existem) sejam convertidas
em pastagens arborizadas entremeadas de APPs com vegetação nativa
Montados de Portugal
Fabio Olmos 18/05/2009 06:26:39

Caro Pedro, obrigado pelos comentários. Enfatizei as dehesas espanholas, e nõ
os montados portugueses, apenas porquê minha experiência com as primeiras é
maior. Amigos portugueses sempre lamentam as pressões sobre os habitats
(semi)naturais do país e certamente o sistema poderia ser aprimorado com a
proteção de bosques ribeirinhos, talvez por legislação como as que ainda
temos para nossas Áreas de Preservação Permanente. Há diferenças evidentes
entre ecossistemas na Europa e América, mas o conceito de que pastagens
arborizadas(ou sistemas silvopastoris)são melhores que pastagens convencionais
continua válido
Obrigado Fabio
Souza 18/05/2009 08:01:36

Os formadores de opinião neste país produzem debates tão vazios e inócuos,
que quando surge um texto igual a esse seu, logo torna-se uma ilha de
excelência. Parabéns pela sua visão abrangente sobre assuntos tão complexos
e pela sua coragem de expressá-la. Muitas pessoas reconhecem o valor da
mudança de mentalidade e a necessidade do fim do aproveitamento do espólio
nacional por poucos privilegiados. Quanto aos sapos barbudos e príncipes das
trevas, não passam de políticos apegados ao trono que vendem até a alma pelos
votos e pela perpetuação do poder político. Só a conscientização da
sociedade e o fim do consumismo colocará um freio nos seus desmandos. ().
A Caa Tinga foi só o começo
João Meirelles Filho 18/05/2009 16:44:43

É isto mesmo, Fábio, primeiro foi a Caa tinga, depois a Mata Atlântica,
depois o Cerrado e agora a Amazônia, é a pata do boi dizendo o futuro
Fábio
Vânia Stolze 19/05/2009 06:21:44

Obrigada pelo presente que nos caiu como água, em face da seca editorial que
temos vivido.
Parabéns!
conservação da Biodiversidade não existe no Brasil
Anônimo 19/05/2009 15:06:19

"A maior parte dos frigoríficos amazônicos é completamente irresponsável
e não está nem aí para a procedência do gado que abate. Apesar de seu
histórico, frigoríficos receberam R$ 6 bilhões"

Caros amigos, a
realidade desse país é mesmo uma lástima!

Enquanto o BNDES entrega esses
bilhões para frigoríficos que compram carne de procedência duvidosa, nós do
CHIBio estamos até hoje esperando o primeiro repasse de recurso para
implementar nossos projetos.

Ninguem entendeu mal, nós servidores dessa
autarquia fantasma mal criada não recebemos 1 centavo no ano de
2009.

Deveríamos trabalhar (tentar trabalhar, na verdade) usando nariz de
palhaço.
nao deu
lara 19/05/2009 16:42:07

nao entendi
Anônimo 19/05/2009 16:42:41

Anônimo 19/05/2009 15:06:19
"A maior parte dos frigoríficos amazônicos é
completamente irresponsável
e não está nem aí para a procedência do gado
que abate. Apesar de seu
histórico, frigoríficos receberam R$ 6
bilhões"

Caros amigos, a
realidade desse país é mesmo uma
lástima!

Enquanto o BNDES entrega esses
bilhões para frigoríficos que
compram carne de procedência duvidosa, nós do
CHIBio estamos até hoje
esperando o primeiro repasse de recurso para
implementar nossos
projetos.

Ninguem entendeu mal, nós servidores dessa
autarquia fantasma mal
criada não recebemos 1 centavo no ano de
2009.

Deveríamos trabalhar (tentar
trabalhar, na verdade) usando nariz de
palhaço.
Acertos e erros
Helton Perillo Ferreira Leite 20/05/2009 14:12:50

Caro Fábio,
Belo artigo, carregado de emoção, carregado de acertos.
Você
acerta quando é específico, quando ataca o atual governo que aí está.
Mas
corre o risco de errar quando generaliza.
Também corre risco de errar quando
mistura produtores rurais com grileiros, escravocratas e políticos seguidores
de Maquiavel.
Ao criticar como “patética” a produtividade de “uma
vaca/ha/ano” corre o risco de ser interpretado como defensor das criações
confinadas. Foram estas criações de alta densidade por área que deram origem
ao mal da vaca louca, à gripe aviária e talvez à recente gripe suína. Muito
bicho em pouco espaço é antiecológico, veja o que acontece nas grandes
cidades.
Você acerta na mosca quando especifica os bancos oficiais como grande
responsáveis pela “desgraceira” ambiental, apenas esquece de citar que eles
apenas cumpriam ordens oficiais e os ambientalistas de então (30 ou 40 anos
atrás) nada diziam.
A primeira generalização com alto risco de erro é a
sugestão do modelo espanhol/português, você sabe muito bem que 500 mm de
chuva por ano podem ser suficientes se bem distribuídos, se a temperatura for
amena, se os ventos forem suaves, se o solo for profundo e fértil, se ... e se
... Mas certamente se lembra que muito menos que 500 mm num único mês destruiu
parte de Santa Catarina. A quantidade de chuva não basta para se pensar em
extrapolar modelos europeus para cá. É preciso muito mais conhecimento, muito
mais experimentação, muito mais cautela.
No Brasil há uns 40 anos atrás
surgiu a idéia de corrigir o solo do cerrado, região plana com solos pouco
férteis, com o uso de calcário e fosfato. Deu certo, o capim braquiária e a
soja estão lá. O preço da carne bovina no Brasil, muito menor que na Espanha,
também prova que era e é economicamente viável. Naquela ocasião os
ambientalistas não gritaram. Não sabiam? Como poderiam saber os pecuaristas?
Talvez ao preço da carne européia as vaquinhas brasileiras também possam ter
pastagens sombreadas.
Naquela época, 40 anos atrás, grandes empresas que hoje
se definem como preocupadas com o meio ambiente se aproveitaram das vantagens
fiscais e de crédito. A VW implantou a maior fazenda de pecuária do mundo, a
Vale do Rio Cristalino, com quase 140.000 ha e foi acusada do maior incêndio
florestal que a Nasa já havia detectado. As fazendas da VW e do Bradesco foram
acusadas de uso de trabalho escravo. Tudo acabou em pizza, ninguém foi preso ou
multado. Mas a fama sobrou para o “pecuarista”.
Aí a segunda
generalização perigosa: misturar espertalhões com pecuaristas. Grande parte
da destruição do cerrado nativo ou da Amazônia atual é ação de grandes
empresas que se metem a “pecuaristas”. O pecuarista tradicional, aquele que
está há 40 ou 50 anos no negócio, não conhece teoria ecológica mas está se
sustentando há tempos, caso contrário não seria tradicional. No Brasil do
empreendedorismo atual 70 ou 80 % das novas empresas fecham suas portas antes de
2 ou 3 anos de vida. Isto sim é falta de sustentabilidade.
O tal conforto das
vaquinhas felizes custa caro, a recuperação das tais pastagens degradadas
custa caro, a relação economia e ecologia é estudada apenas recentemente mas
é intuitiva para os empresários que se sustentaram ao longo de décadas de
trabalho.
Resta saber se o consumidor brasileiro quer e pode pagar por isto. É
ele quem manda.
Um abraço
Helton Perillo Ferreira Leite
Eng. Agr. – Lorena
(SP)
as lavouras e a criação de gado antes era floresta
joyce sulke barbosa 21/06/2009 09:03:56

eu quero estudar sobre este trabalho
murilo milhomem 10/02/2010 17:39:18

"se a sociedade achar que devemos parar de produzir para recompor todo os
biomas do passado, então ela vai ter que pagar por isso". Reinhold
Stephanes . Acho que devemos dar um basta na degradação e destruição das
florestas e nos preocupar em associar ao produtor/ruralista a idéia de que
há como produzir muito em pequeno espaço e assim aproveitar as áreas
devastadas improdutivas no qual ficaram no meio do caminho .
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