Daniel Toffoli
Nesta quarta feira, 26 de outubro, será lançada a campanha do muriqui a mascote das Olimpíadas de 2016, em cerimônia no
Parque Lage, no bairro do Jardim Botânico. Para entender como se chegou a este dia, vamos voltar quase dois anos.
Comecemos por Carlos Drummond que, na década de 1980, desesperançado dizia em verso: “Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados dia seguinte. O ranúnculo da esperança não brota no dia seguinte. A vida harmoniosa não se restaura no dia seguinte”. E mais adiante decretava “Muriqui, muriqui, tu estavas aqui bem antes do europeu, bem antes do progresso. Teu alegre saltar entre ramos e ventos vai ficando tão longe. Onde estás, muriqui? És apenas uma lembrança de um tempo que eu não vi.” Onde ele está, Drummond, nós temos pista.
Muriqui em tupi-guarani significa gente que bamboleia, que vai e vem. Ficou conhecido como o “povo manso” da floresta. É o maior primata não humano do continente americano e o maior mamífero endêmico do Brasil, podendo atingir até 1,5m de altura, com uma cauda de um metro.
Em 2009, durante as comemorações dos 30 anos do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), uma constelação de estudiosos de primatas debateram estratégias de conservação. Entre eles, estavam Leandro Jerusalinsky, chefe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB/ICMBio), Denise Rambaldi, da Associação Mico Leão Dourado e atual vice-presidente do INEA, Alcides Pissinatti, atual diretor do CPRJ, Paula Breves, EcoAtlântica, e
Adelmar Coimbra Filho, decano do CPRJ.
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O Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ) foi um dos responsáveis diretos por melhorar o status de conservação do mico-leão-dourado. É a única espécie de primata (e mamífero) no mundo que mudou de categoria de ameaça da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Em 1980 era classificado como criticamente ameaçado e, hoje, passou para ameaçado de extinção. Nesses 30 anos, o número de indivíduos saltou de 200 para 1.500.
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"..na escala evolutiva, o muriqui é o chimpanzé das Américas. Vive exclusivamente na Mata Atlântica."
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Durante a comemoração do aniversário do CPRJ, uma questão foi levantada: por que no estado do Rio de Janeiro nunca houve um projeto governamental de conservação in situ do muriqui? São Paulo e Minas Gerais, estados que também abrigam a espécie, já tiveram ou têm programas oficiais bem-sucedidos de conservação. No estado do Rio de Janeiro, há carência até de dados atualizados sobre a espécie. As razões? Falta de dinheiro, infraestrutura e gente.
Lançado em 2011 ano pelo ICMBio, o
Plano de Ação Nacional de Conservação dos Muriquis é composto por 10 metas e 54 ações de curto, médio e longo prazo. A primeira meta – quantificar a população remanescente de muriquis até 2015 – ainda não teve sua implementação confirmada no estado do Rio de Janeiro. Trata-se de um gargalo, pois desta meta dependem quase todas as outras. O próprio status de conservação depende de dados confiáveis. O desafio é alterar esse quadro.
A casa do Muriqui
Alcides Pissinatti diz que, na escala evolutiva, o muriqui é o chimpanzé das Américas. Vive exclusivamente na Mata Atlântica. São duas espécies, o muriqui-do-norte (
Brachyteles hypoxanthus) que ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia, e o muriqui-do-sul (
Brachyteles arachnoides) que ocorre nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e parte do Paraná. Suas populações estão ameaçadas principalmente pela destruição e fragmentação do habitat, como também pela caça.
De hábito pacífico, raro entre primatas, não costuma competir diretamente por alimentos e fêmeas. Uma de suas características mais marcantes é o fato de gostarem de abraçar uns aos outros. Costumam se abraçar em grupo, pendurados pelas caudas, num grande abraço coletivo.
No estado do Rio de Janeiro ficaram acuados nas regiões serranas, últimos remanescentes da Mata Atlântica de difícil acesso. O muriqui é um dispersor natural de sementes. Sua conservação é estratégica, pois é considerado uma espécie guarda-chuva, isto é, sua preservação ajuda também à sobrevivência de outras espécies da fauna e da flora e, por tabela, de toda a Mata Atlântica.
Mascote das Olimpíadas de 2016
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Partindo da premissa de que era preciso buscar parcerias para fomentar um projeto que visasse atingir a meta 1 do Plano do muriqui, a veterinária Paula Breves sugeriu aumentar sua visibilidade ao público. A ideia gerou um debate entre as entidades e os especialistas já citados, incluindo esse autor. Daí para lançar a ideia do muriqui a mascote das Olimpíadas de 2016 foi um pulo.

A fraternidade entre os bandos de muriqui e os seus abraços simboliza a hospitalidade carioca, e reforça a identificação com o ideal olímpico. Paula Breves sugeriu que fosse feito um vídeo para a campanha e que procurássemos angariar o apoio de grandes personalidades.
De início, contamos com o apoio de atores que se identificavam com o projeto. Passada pouco mais de um ano do encontro dos 30 anos do CPRJ, a ideia inicial ganhou corpo. O INEA e a Secretaria do Ambiente abraçaram fortemente a causa. Aderiu também Dulce Maia, uma incessante apoiadora de projetos de justiça social e ambiental, e ela trouxe o apoio de mais artistas. Por fim, surgiu a EBX, que já tinha um projeto de Corredor Ecológico do Muriqui. A empresa decidiu apoiar integralmente a campanha, financiando o vídeo e o site.
Durante a realização das filmagens, volta e meia uma pergunta nos assolava. Será que o objetivo final da campanha é simplesmente escolher esse charmoso habitante das serras fluminenses para mascote das Olimpíadas? Também, mas a tarefa mais nobre é divulgar os seus problemas e angariar ajuda para a sua conservação.
A partir de amanhã uma rede de apoio será criada para o povo manso da floresta, tal qual o abraço coletivo desses caras tranquilos, que bamboleiam, que vão e vem. Primatas, como a gente. Muriqui, muriqui, tu continuarás sempre por aqui, diria Drummond amanhã, num tom mais otimista.
Assista ao vídeo da campanha
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Daniel Toffoli é geógrafo e trabalha como analista ambiental do Parque Nacional da Tijuca / ICMBio. De outubro de 2009 até junho de 2011, foi gerente da diretoria de biodiversidade e áreas protegidas do INEA. |