Aconteceu um milagre

Andreia Fanzeres e Manoel Francisco Brito
sexta-feira, 15 julho 2005 20:10

O desmatamento na Amazônia no mês de junho minguou para praticamente 5% do que foi registrado no mesmo período do ano passado. A partir dos dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Ibama, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) constataram uma queda radical no volume da derrubada. Em junho de 2004, a floresta perdeu 10.017 km2. Em junho de 2005 desmatou-se apenas 531 km2. Isso mesmo, 531 km2. Acredite se puder, porque muita gente, inclusive no Ministério do Meio Ambiente, custou a acreditar no que mostravam as fotografias tiradas por satélite da região . Parecia ser bom demais para ser verdade.

Tasso Azevedo, diretor de Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) soube do número no final da noite de quinta-feira ao receber um telefonema de O Eco. “Não pode ser”, reagiu. “Estão queimando em Mato Grosso. Seria uma queda muito violenta”. Diante da insistência da reportagem, prometeu checar o assunto na sexta-feira de manhã e ligar de volta. Cumpriu a promessa. “O Capobianco (João Paulo Capobianco, diretor de Biodiversidade do MMA) também não está acreditando. Mas os números parecem estar corretos. Vamos auditar as imagens. Estamos mobilizados nisso aqui no ministério”, disse, garantindo que até o fim do dia daria uma posição. Por volta das 17h30 da sexta-feira, dia 15 de julho, em nova conversa com a reportagem de O Eco, confessou que estava prestes a acreditar em milagres.

Pediu mais uma hora. Levou duas para retornar. Às 19h30, Azevedo ligou de volta. “O milagre aconteceu”, disse, sem conseguir esconder uma certa euforia. “Os números estão corretos e indicam uma redução gigantesca”, disse. Mas logo ele assumiu um tom de cautela. “Isso é muito legal, mas vamos ter que sustentar a repressão agora em julho e agosto”. É bom mesmo, porque senão o número volta a subir e a taxa de junho não terá sido mais do que um feliz espasmo. Mas além da manutenção da capacidade de reprimir do governo, existem outras razões para não sair batendo palmas para a taxa de desmatamento na Amazônia registrada em junho pelo Deter. Seu sistema, até bem pouco tempo, só conseguia enxergar desmatamentos acima de 20 hectares. Recentemente, graças a um processo de refinamento desenvolvido pelo Imazon, suas imagens passaram a detectar derrubadas a partir de 10 hectares.

Ainda assim, a nitidez delas é menor, por exemplo, do que a das fotografias enviadas pelo satélite Landsat para o Inpe e que são usadas para compilar a taxa oficial de desmatamento na região que o governo federal divulga todos os anos. O Landsat consegue captar desmatamentos acima de 6,25 hectares. Gilberto Câmara, do Inpe, acha que os dados do Deter são insuficientes para compor uma taxa definitiva. Mas são suficientes para indicar uma tendência. E essa é outra razão que o governo tem para ser cauteloso em relação aos números de junho. Uma análise feita pelo Imazon das imagens geradas pelo Deter entre agosto do ano passado e maio de 2005 projetava para este ano taxa de desmatamento semelhante à que foi obtida no ano passado, em torno de 26 mil km2.

A mudança de rumo é tão radical, que em certa medida até assusta. Azevedo acha que o endurecimento da fiscalização em Mato Grosso, onde vinha acontecendo 70% do desmatamento na Amazônia, ajuda a explicar o tombo na derrubada de árvores. Menciona ainda uma ação conjunta dos governos federal e estadual no Sul do Amazonas, outra área onde vinham acontecendo grandes desmatamentos. “Sessenta fiscais estão na região correndo atrás dos desmatadores desde o fim de maio”, contou.

Paulo Barreto, do Imazon, também estava querendo acreditar em milagres no fim da tarde de sexta-feira, mas aguardava a palavra final do MMA sobre o assunto. Enquanto isso, desfiava algumas explicações para um tombo tão grande na taxa de desmatamento de junho. “O desmatamento até maio deste ano já estava sendo menor do que no ano passado”, disse, indicando alguns motivos para a queda, como o gado e o baixo preço da soja desde setembro de 2004. Isso reduziu o incentivo econômico para o desmate. “Mas deve-se também levar em conta algumas medidas tomadas pelo governo que constrangeram a derrubada”, afirmou.

Entre elas, Barreto aponta para a criação de Unidades de Conservação em 2004 e 2005, a limitação administrativa provisória (LAP) decretada sobre o uso de 8,3 milhões de hectares no oeste do Pará (ao longo da Cuiabá-Santarém) em fevereiro de 2005 e um acirramento da fiscalização (incluindo presença das Forças Armadas) em algumas regiões após a morte da freira Dorothy Stang no começo do ano. Além disso, baixou na Amazônia, em fins de maio, o Curupira. Junho é o período em que o desmatamento é muito maior do que nos outros meses, à exceção de julho e agosto, que historicamente apresentam índices mais elevados.

Mas em 2005 o mês transcorreu sob as vistas do espírito guardião das florestas, que batizou a operação do Ministério Público e Polícia Federal que desbaratou a quadrilha que comandava órgãos federais e estaduais de meio ambiente e ajudou a parar as motosserras em Mato Grosso, campeão do desmatamento na região. Por obra do Curupira, ficaram suspensas, por exatos 30 dias, as emissões das Autorizações de Transporte de Produtos Florestais (ATPFs), que eram adulteradas por uma quadrilha composta por empresários, despachantes, madeireiros e gente do próprio Ibama, inclusive o gerente executivo do estado, Hugo Werle. Foram 147 prisões e uma limpeza generalizada que deixou desfalcado o próprio Ibama/MT. O recado da operação que uniu Ministério Público, Ibama e Polícia Federal deixou os estados amazônicos em choque.

Mas não foi só isso. Junho viu os funcionários do Ibama paralisarem parcialmente suas atividades em uma greve que acompanhou outros servidores federais espalhados pelo país. E os impactos dessa paralisação em Rondônia, Mato Grosso e Pará foram os mais visíveis do satélite. Desde que começou, em meados de junho, ficaram atrasadas as entregas de autorizações para manejo florestal em diversas regiões da Amazônia. Resultado: relativamente poucas motosserras trabalharam no mês que passou.

E o Imazon acredita que outros grandes vilões da floresta também tenham tropeçado nesse período. A queda no preço da soja, que já vinha acontecendo ao longo do primeiro semestre devido a uma safra acima da expectativa nos Estados Unidos, puxou para baixo os custos da cesta básica brasileira e também as exportações. O sojicultor ficou sem estímulo para ampliar seus campos de exploração. Segundo o Imazon, o gado também parece ter ajudado. Mas pelo motivo inverso. O alto custo dos bovinos prejudicou a expansão da pecuária em junho. Para o mês de julho, no entanto, ao menos Blairo Maggi resolveu interceder. Nessa semana, sancionou uma lei que reduz de 12 para 3% da alíquota do ICMS sobre o gado em pé (aquele que já engordou e espera o abate) com o objetivo de dinamizar a comercialização dos bovinos.

Juntando tudo isso, não tem como não ficar boquiaberto diante dos dados do Deter. Na realidade, o número que o Inpe achou olhando para os dados gerados pelo Deter em junho foi até menor. O desmatamento ficou em torno dos 471 km2. O Imazon submeteu as mesmas imagens a um processo de refinamento, que permitiu enxergar desmatamentos a partir dos 10 hectares, fez a correção e chegou aos 531km2.

Os 10.017 km2 de desmatamento detectados só em junho do ano passado são pouco menos do que foi desflorestado no período de 11 meses, entre agosto de 2004 e junho de 2005. De acordo com as estimativas do Imazon, 10.648 km2 de florestas tombaram nesse período. E, quando olham para frente, os pesquisadores vêem dois cenários tão distintos quanto imprevisíveis. Julho pode terminar com taxas altas de desmatamento se os fazendeiros passaram junho apenas esperando a poeira baixar. Caso isso aconteça, uma projeção do instituto mostra que o desmatamento no mês seria de 4.695 quilômetros quadrados. Assim, o desflorestamento no período agosto 2004-julho 2005 totalizaria 15.343 quilômetros quadrados, ou 57% do registrado no período anterior. Mas eles têm uma outra milagrosa hipótese. Se os fazendeiros continuarem chocados e cortarem 5% do que fizeram em julho do ano passado, ou 271 quilômetros quadrados, a taxa anual ficaria beirando os 11 mil quilômetros quadrados.

Seria uma impressionante redução provocada por uma série de acontecimentos simultâneos, além da providencial operação concentrada em apenas um mês do ano. Barreto, do Imazon, torce para que a tendência se confirme em julho e agosto, meses de pico no corte da floresta Amazônica. “Basta que o governo mantenha a pressão”, disse.

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