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Mata Atlântica precisa de meta ambiciosa

Estudo do WWF aponta avanços e deficiências nas metas assumidas em relação ao bioma e sugere proteção de 17% dos remanescentes.

Karina Miotto ·
7 de fevereiro de 2011 · 10 anos atrás



São Paulo – O WWF-Brasil, em parceria com outras instituições como The Nature Conservancy (TNC), Ministério do Meio Ambiente e Universidade Federal de Minas Gerais, lançou na última sexta um diagnóstico sobre o cumprimento de metas de conservação da biodiversidade na Mata Atlântica com base nas diretrizes da Convenção das Nações Unidas sobre a Conservação da Diversidade Biológica (CDB). De 2006 a 2010, das 51 metas nacionais, o país cumpriu satisfatoriamente apenas duas: produção de conhecimento e criação de áreas protegidas.

Conhecendo a Mata Atlântica

Na Mata Atlântica vivem 112 milhões de brasileiros e circula 60% do PIB do país. Apesar de todas as pressões que vem sofrendo ao longo dos anos, resiste viva com 7,91% de vegetação, conforme levantamentos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Fundação SOS Mata Atlântica, o equivalente a 102 mil quilômetros quadrados concentrados nas regiões serranas do sul e do sudeste. De acordo com o WWF-Brasil, se forem contabilizados fragmentos com menos de cem hectares, os remanescentes da floresta podem chegar a 27%.

O bioma é considerado área prioritária para conservação. É um hotspot, ou seja, região com rica biodiversidade, ameaçada e com grande endemismo. Dos 34 hotspots do planeta, a Mata Atlântica é um dos cinco mais ameaçados. A extinção de espécies no bioma pode significar que nunca mais elas poderão ser vistas em nenhum outro lugar do mundo. Protegê-la é, portanto, essencial.

De acordo com o relatório, as informações têm sido melhor organizadas e documentadas. Cita o exemplo da publicação “Plantas da Mata Atlântica” (Stehmann et al., 2009), que traz uma listagem completa com 15.782 espécies e reitera que o bioma é, até agora, o mais conhecido do país. “Foram mais de mil espécies de plantas descobertas nos últimos dez anos”, afirma Clayton Lino, presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera na Mata Atlântica. À constatação do avanço da produção de conhecimento o documento adverte que, “como contraponto, tem-se uma produção insuficiente na tarefa de descrever, sistematizar e disponibilizar informações precisas sobre as espécies do bioma”.

Outro ponto destacado no estudo é o componente relativo à educação, sensibilização e divulgação. A avaliação é positiva em relação à atuação de mais de 300 ONGs no bioma, com cerca de 200 mil afiliados, o sucesso de campanhas como a que fez do mico leão dourado um “sinônimo de luta ambiental” e a importância das redes sociais para mobilização e transmissão de conhecimentos. Entre os avanços menos satisfatórios, estão o monitoramento e redução de impactos, acesso a recursos genéticos e repartição de benefícios, uso sustentável da biodiversidade e fortalecimento jurídico e institucional.

No que se refere a áreas protegidas, o Brasil cumpriu 89,20% da meta de ter 10% do território do bioma composto por unidades de conservação, mas há de se manter os pés no chão ao comemorar: apesar do feito, de 2008 a 2010 a Mata Atlântica perdeu quase 21 mil hectares e, vale lembrar, 51% das áreas protegidas federais são ineficientes na gestão. “Precisamos de mais recursos humanos, financeiros e capacitação”, complementa Clayton.

Metas ambiciosas

Para aumentar a conservação vai ser necessário investir em reservas particulares (fotos: WWF-Brasil)
Para aumentar a conservação vai ser necessário investir em reservas particulares (fotos: WWF-Brasil)

Conforme as decisões tomadas durante a COP-10 (http://www.oeco.com.br/2010-ano-biodiversidade/24518-sorrisos-em-nagoya) que aconteceu no ano passado, no Japão, o Brasil deverá proteger 17% da Mata Atlântica até 2020. “Hoje não temos remanescentes em quantidade e qualidade para alcançar esta meta. Se o Código Florestal tivesse sido respeitado, teríamos um quadro muito melhor – só de reserva legal seria 20%”, afirma Clayton. O aumento da proteção, de acordo com ele, deverá ser gradual, ano a ano.

Esta é uma meta um tanto ambiciosa e, para chegar lá, o governo deverá apoiar e incentivar a criação de RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural). “Estima-se que 80% dos remanescentes da Mata Atlântica estejam com proprietários privados. Logo, eles são fundamentais para se resguardar o que resta de floresta”, afirma Luciana Simões, coordenadora do Programa Mata Atlântica do WWF-Brasil.

Outro fator apontado como essencial por especialistas para o cumprimento desta meta nos próximos nove anos é a mobilização da sociedade. Além disso, o poder público e o privado deverão se unir para proteger o que sobrou e, entre outras coisas e de acordo com Cláudio Maretti, superintendente de Conservação do WWF, recuperar áreas degradadas – pelo menos 17 milhões de hectares têm potencial para isso. Clayton cita Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Bahia como Estados que possuem regiões ideais para restauração e criação de novas áreas protegidas.

O cumprimento desta meta dependerá também das modificações no novo Código Florestal – alterá-lo como pedem os ruralistas certamente fará o Brasil fracassar no que se refere à proteção de 17% da Mata Atlântica – e isso, todos sabem, não caminha rumo à outra promessa do país perante a comunidade internacional: diminuir suas emissões de gases de efeito estufa.

Fotografia
A serenidade da Mata Atlântica

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Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica



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