A capital dos baobás

Celso Calheiros*
segunda-feira, 31 maio 2010 20:24
O Baobá da Praça da República, o mais amado da cidade (foto: Celso Calheiros)
O Baobá da Praça da República, o mais amado da cidade (foto: Celso Calheiros)

O Recife não é muito arborizado, mas ninguém consegue apontar, com precisão, quantos baobás existem na cidade. E o motivo não está no triste destino desta árvore ameaçada de extinção, pelo contrário. Os baobás encontraram no Recife uma atenção especial, foram sendo informalmente adotados, plantados, suas mudas cultivadas e alguns dos defensores dessas grandes árvores, de tronco largo e casca sensível não titubeiam em dizer: Recife é a cidade dos baobás.

O primeiro a identificar essa relação dos moradores da cidade com os baobás foi o antropólogo jamaicano John Rashford, professor da North Carolina University, em passagem pelo Brasil justamente para estudar a árvore – natural do continente africano, mas presente em vários países americanos. Ao visitar o Recife, ficou encantado com quantidade de baobás que a cidade possuía e, mais ainda, com o grande número de pessoas que se dedicavam a plantar, cuidar das árvores e preparar novas mudas para outros interessados.

No Recife já foi produzido documentário sobre as pessoas contando histórias a respeito dos seus baobás preferidos, existem 11 árvores tombadas pela prefeitura, mais de 20 mudas foram plantadas no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a escola Instituto Capibaribe plantou um na praça próxima e instituiu o dia do baobá aos alunos, há roteiro dos principais exemplares na cidade e, quem quiser uma muda para plantar, consegue sem esforço e a custo zero.

O baobá mais conhecido do Recife está na Praça da República, que fica entre o Teatro de Santa Isabel e os palácios do Governo e da Justiça. O baobá da Praça da República está na crônica política por ter testemunhado diferentes posses e deposições, faz parte da boemia teatral, abriga namorados vespertinos e vândalos de diferentes horas – seu frondoso tronco está repleto de iniciais, corações, nomes e proclamações.

O baobá da Praça da República também pode ser visto em caixas de sapatos ou álbuns que guardam as fotografias de recifenses em diferentes épocas. O funcionário da UFPE Fernando Batista, fã de baobás e contato do professor John Rashford durante suas passagens pelo Recife, conta que são comuns fotos familiares ao pé do baobá. “Encontra-se com facilidade a foto amarelada do filho criança, do mesmo filho mais velho e, depois, a foto mais recente do filho com o neto ao colo, todas ao pé do baobá”.

O grande fá dos baobás

Gilberto com os frutos de baobá
Gilberto com os frutos de baobá
Flor de baobá na Faculdade de Direito (fotos Celso Calheiros)
Flor de baobá na Faculdade de Direito (fotos Celso Calheiros)

A árvore não faz anéis no seu tronco irregular, logo não é possível apontar a idade que os baobás alcançam. Sabe-se que são resistentes aos anos, vivem mais de cem anos sem dúvida, mas nenhum estudioso assume o que alguns entusiastas gostam de afirmar: que elas vivem mais de 2 mil anos. Um destes admiradores é o motorista Gilberto Vasconcelos, que mantém o site Bioma Urbano (http://www.wix.com/biomaurbano/baobas). Ele criou e atualiza o mapa dos baobás em Pernambuco e possui uma sementeira improvisada em sua casa. Lá cultiva centenas de mudas da árvore. Sua ambição é verdejante: plantar cem mil mudas. Seu projeto é estadual: “Gostaria de plantar uma árvore em cada município pernambucano”.

Gilberto é uma pessoa simples que se interessou pelos baobás quase que por acaso. Sua relação com a natureza começou com sua infância de menino pobre, no município de São José do Laje, Alagoas, quando ainda menino se tornou cortador de cana-de-açúcar. “A vida era dura, mas eu morava entre duas reservas de Mata Atlântica e adorava brincar por lá”. Jovem, Gilberto foi para Belém do Pará e depois foi morar no Recife. “Fiquei impressionado com a falta de árvores”. Aos 40 anos, cansado de uma angústia que não o largava, rezou. “Pedi uma saída e daí veio esta vontade de plantar baobás”. Gilberto já plantou mais de 3 mil árvores, a maioria baobás. Sente-se livre da tristeza.

A peça infantil A árvore de Júlia, encenada em 2008 e 2009 no Recife, é outro exemplo ilustrativo. O texto trata da proteção de um baobá por uma menina que se recusa a deixar a árvore ceder espaço para a construção de uma fábrica. A produção da peça cuidou de distribuir mudas de baobás em diferentes apresentações e de plantar uma muda nos jardins da Faculdade de Direito do Recife – onde trabalha Fernando Batista, que além de cicerone do professor John Rashford foi um dos consultores para assuntos de baobás junto ao pessoal da Árvore de Júlia.

Além da muda plantada pelos produtores e elenco, a Faculdade de Direito tem outro exemplar, adulto, em seu jardim. Ele faz parte do catálogo de onze árvores tombadas pela Prefeitura do Recife. Desse grupo, o que tem o maior tronco, é o que está na margem do Rio Capibaribe – que corta o Recife e caracteriza a cidade por suas pontes.

O sobrevivente

Às margens do rio Capibaribe, um forte baobá que resistiu a diversas enchentes (foto: Celso Calheiros)
Às margens do rio Capibaribe, um forte baobá que resistiu a diversas enchentes. Foto: Celso Calheiros

O baobá do Capibaribe é um sobrevivente, conta Fernando Batista. Ele recorda que na grande cheia do rio, em 1975, a cidade foi inundada e houve pânico. Ao lado do baobá, algumas mangueiras foram arrastadas. O baobá tudo viu e não se mexeu. No governo seguinte, o rio foi alargado como parte das obras para se evitar novas enchentes. Quem perdeu terra foi justamente a margem do baobá. Mas ele continua onde sempre esteve. No entanto, longe dos olhos dos admiradores, por estar quase que escondido entre a lama do rio e o mato alto que cresce em volta.

Mesmo entre os que não se intitulam admiradores dos baobás, a espécie está lá, com sua marcante presença. Empresário de projetos inovadores, Frederico Cardoso Aires é um admirador da natureza, cultiva mudas de espécies consideradas em extinção por paixão e por se preparar para investir em reflorestamento. Na sua casa, encontram-se mudas de visgueiros, ubaias, abius entre tantas outras. Baobás, inclusive. Fred tem mais de mil sementes que prepara para transformar em mudas. O grande vaso com centenas de sementes prestes a se tornarem mudas está na sala da sua casa.

O cenógrafo e artista plástico Maurício Castro Filho também ressalva nenhuma admiração particular por baobás, mas sim pela natureza em geral. Mesmo assim, estuda onde plantar duas mudas em seu sítio, que já teve introduzida barriguda, urucum, cedro, jatobá. Maurício também faz parte daqueles que, quando criança, foram fotografados no baobá da Praça da República. Agora, espera suas mudas crescerem para fotografar o filho.

O cientista chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), Silvio Meira, é recifense por adoção e, no Recife, conheceu essas árvores frondosas e centenárias. “Eles levam muito tempo para crescer e vivem muito – como as coisas que quero construir no trabalho”. O líder do principal instituto de tecnologia da informação da cidade plantou três baobás na praça em frente ao Cesar. “Para mim, os baobás representam a história, o passado dos africanos que vieram construir este país, o presente, da reverência que temos, no Recife, por eles, e o futuro, pois sempre me pareceu que eles iriam estar aí, por todo o sempre…”, profetiza Silvio Meira.

 

*Celso Calheiros é repórter em Recife

 

 

 

36 comentários em “A capital dos baobás”

  1. Olá, sou morador de Brasilia porém, nascido em Pesqueira PE, também morei em Sanharó e nunca vi um desses por aqui. Gostaria de saber; se eu tiver onde plantar como consigo uma semente ou até mesmo uma muda desse árvore?. Sou formado em História e por ter nascido na Terra Indígena XUCURÚ em Pesqueira, me preocupo com o Meio Ambiente. Descobri esta árvore através de um livro que meu filho trouxe da Fundação Bradesco em Ceilandia DF.

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  2. Estou muito feliz
    por ter encontrado pessoas apaixonada
    pelo encantador BAOBÁS
    plantei um as margens do Baldo do Rio
    na cidade de Goiana – PE
    e convoco meus novos amigos
    a plantarmos mais mudas
    aqui na secular Goiana.
    um grande abraço e aguardo
    contato
    Atenciosamente,
    Basílio Augusto.

    FONES: 081. 88788458, 99706172 E 93249044.

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  3. Bom dia
    Sou apaixonado por Baobás, recentemente recebi uma muda de presente. Pretendo plantá-lo em um condomínio onde tenho uma casa em Gravatá. Gostaria de obter orientações de como manejar o Baobá, acredito que é mais indicado plantar ao solo quando a muda já tiver crescido.
    Este condomínio tem 5 hectares de área comum com bastante espaço. Gostaria de obter mais mudas, ou sementes para plantar em todo o condomínio

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  4. Boa tarde!
    Comprei umas sementes que dizem ser de Baobá, mas algumas imagens que eu vi no Google, as sementes tem o formato diferente das que eu recebi, creio que fui enganada, , onde posso estar comprando as sementes de Baobá , tenho o interesse de plantar nas praças locais aqui em meu Bairro, moro no Butantã próximo a USP na Capital de São Paulo..
    muito obrigado! Dilma

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  5. Sou um baiano apaixonado por esta árvore. Quando pequeno fiz um trabalho escolar na semana de consciência negra, pesquisei por árvores nativas da árvore e fiquei impressionado ao descobrir os baobás, suas formações e mitos. Gostaria muito de ter como cultivar.

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  6. Sou um baiano apaixonado por esta árvore. Quando pequeno fiz um trabalho escolar na semana de consciência negra, pesquisei por árvores nativas da África e fiquei impressionado ao descobrir os baobás, suas formações e mitos. Só recentemente descobri que é a árvore do livro O Pequeno Príncipe, . Gostaria muito de ter como cultivar.

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  7. Olá Jany. Eu e mais 2 pessoas estamos muito interessados em conseguir sementes de Baobá.
    Você poderia me enviar um email (limavictorgomes@hotmail.com) para que possamos acertar tudo?
    Desde já agradeço.
    Victor Gomes.

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  8. Meu bisavô pelo lado materno era de origem italiana. Quando migrou para o Brasil no século XIX ele desembarcou no Porto do Recife vindo a fixar residência no sertão da Paraíba. Aqui plantou o pé de baobá que veio a morrer há poucos anos atrás em consequência de um incêndio na mata (tenho foto) onde ele cresceu.
    Sobre o pé de baobá estava sem entender como ele sendo italiano onde haveria conseguido a semente de baobá. Agora imagino que sei, que foi em Recife onde existem vários pés de baobás conforme está informando esta página.
    Diante do exposto desejo plantar aqui no sertão da Paraíba pelo menos um pé de baobá. E em retribuição poderei mandar para vocês sementes de espécies nativas desta região a exemplo do ipê, cumaru, dentre outras que costumo apresentar na minha página do Facebook.
    Então finalizo desejando receber duas ou três sementes de baobá.
    Moro na cidade de Sousa PB

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  9. Bom dia Jany.
    deram-me um baobá de flores brancas lindíssimo, ainda não o transplantei por estar com flores e a tentar perceber qual a melhor área para o colocar. Estou a procura de informações de como manter um baobá. Agora está no interior de um apartamento mas numa zona ensolarada e ventilada, mas verifico que as folhas estão a ficar amareladas. Como evitar isso? Existe algum livro ou informação que possa obter só exclusivamente desta espécie? A quem recorrer?
    Gostaria igualmente de possuir outras espécies de baobás, se houver alguma possibilidade de enviar uma semente com outra flor, agradeço.
    Fico a aguardar que me diga algo.
    Obrigada

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  10. Boa noite,
    Também sou muito fã de plantas e gostaria de saber onde em São Paulo tem Baobá plantado ou quem tem sementes que poderia ceder. Agradeço antecipadamente.

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  11. Tenho quatro Baobás, tem mais ou menos oito anos, estão lindos e dão cada um no máximo duas flores de dois em dois anos.Nunca tentei fazer mudas. Plantei sementes que ganhei brotaram todas. gostaria de saber se é necessário algum cuidado e qual para dar frutos, ´pq as flores caem co m mais ou menos 4 dias depois de abertas. estão com em torno de seis metros de altura e um metro de diametro em baixo.
    .

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  12. Olá. Gostaria de adquirir mudas ou sementes de Baobás. E informações de como cultivá-las. Sou bióloga e professora, e como todos que aqui, comentaram me interessei em de manter mais uma dessa espécie de arvore aqui na minha região. Seria possível enviar-me um email (suelielisia@hotmail.com) para que possamos acertar tudo?
    Desde já agradeço a atenção.

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  13. Olá. Sou estudante de arquitetura e estou começando meu TCC, sobre o tema Adequação do Parque Jardim do Baobá, e o elemento mais importante é o baobá Patrimônio Cultura, gostaria de saber informações sobre o Baobá e seu tombamento?

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  14. Ola. Meu nome é Tomé de Souza, sou de Natal/RN, e admirador desta exuberante arvore, tem um baobá no caminho de um sitio que tenho, desde então comecei a pegar sementes e fazer mudas já consegui mais de 100 mudas, e plantei já algumas mudas no meu terreno e o restante das mudas estou doando, e continuo fazendo mais mudas que irei doar, e tenho sementes se alguém tiver interesse meu email é tomesousan@gmail.com, pode entra em contato que mando as sementes

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  15. ola amigo,comprei um sitio em minas gerais,so pra reflorestamento,ja recuperei nascentes,e plantei mais de duas mil arvores.gostaria de sementes de baobas.pode me ajudar.pago pelos custos.aa por favor.

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  16. Bom dia, sou de Piracicaba-SP, procura sementes ou mudas já um bom tempo, chego a comprar pela internet as sempre enviam sementes de outras plantas.

    Por gentileza como faço para conseguir sementes ou mudas com vocês?

    (felipe_gema@hotmail.com)

    Obrigado

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  17. Excelente o comentario sobre o baobá;Parabéns a todos que adotaram esta planta centenária q que estão lutando pela sua preservação;Penso que poderemos fazer ainda muito mais e snossas autoridades federais,estaduais e municipais bem que poderiam se espelhar no trabalho dos voluntários e fazer algo mais;

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