Download PDF

Onça atropelada já ao lado da BR-469, que corta Parque Nacional do Iguaçu. Estimativa é de que existam cerca de dez indivíduos na unidade. (Foto: Acervo/Parque Nacional do Iguaçu)

Onça atropelada já ao lado da BR-469, que corta Parque Nacional do Iguaçu. Estimativa é de que existam cerca de dez indivíduos na unidade. (Foto: Acervo/Parque Nacional do Iguaçu)

Na madrugada do último sábado (28), uma das últimas onças-pintadas (Pantera onca) do Parque Nacional do Iguaçu (PR) foi atropelada e morta por um veículo ainda não identificado. O acidente ocorreu no quilômetro 26 da BR-469, que dá acesso às cataratas, dentro dos limites da unidade. O motorista fugiu sem comunicar o acidente aos funcionários. O fato, uma tragédia em termos ambientais, ganha contornos ainda mais contrastantes com os princípios da conservação quando a opinião de ambientalistas é levada em conta. Para eles, o acidente só ocorreu porque, até agora, a unidade não implementou seu plano de manejo, concluído em 2001. O atropelamento determinou o fechamento do parque, aberto na manhã de hoje (2), após um acordo entre chefia da unidade, Instituto Chico Mendes e operadoras de turismo.

Em 1995, quando o pesquisador Peter Crawshaw terminou sua tese de doutorado pela Universidade da Flórida (Estados Unidos), já alertava para a iminente extinção da onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu, devido, sobretudo, à caça. Na época da publicação do trabalho, a população estimada do animal era de 150 indivíduos, vivendo entre os parques nacionais do Iguaçu (Brasil) e Iguazú (Argentina). Hoje, este número caiu para menos de 10 indivíduos.

O animal atropelado na madrugada do sábado foi levado para a Faculdade de Biologia de Foz do Iguaçu, onde está congelado, aguardando conclusão dos laudos da Polícia Federal para sua taxidermia.

Falta de proteção

A onça-pintada é tida como espécie bandeira do parque do Iguaçu e algumas medidas para sua conservação vem sendo tomadas, como aumento da fiscalização e estudos para criação de um projeto patrocinado pelo Hotel Cataratas, que fica dentro dos limites da unidade, para pesquisa e conservação da espécie. Por enquanto, o projeto do hotel, que vai durar dez anos e será implementado em troca da concessão no Iguaçu, ainda não foi implementado. Apesar de tais esforços, ações simples foram negligenciadas.

Segundo o plano de manejo da unidade, os veículos que circulam na Rodovia das Cataratas (dentro do parque) devem rodar a uma velocidade máxima de 40 Km/h. A entrada também só é permitida, segundo o documento, para veículos cadastrados, como os da concessionária Cataratas S.A., responsável pelo translado dos turistas dentro do parque, funcionários da unidade, polícia ambiental e veículos identificados do Hotel das Cataratas. Os veículos também devem ser equipados com tacógrafo, equipamento que registra a velocidade de trânsito.

O problema é que a íntegra do documento não vem sendo cumprida. Placas instaladas dentro do parque indicam velocidades de 50 e 60 Km/h e não há qualquer tipo de sistema redutor, como lombadas ou radares. Importante ressaltar que a rodovia é asfaltada, o que permite ainda maior velocidade. Soma-se a isso o fato de que empresas de turismo trafegam sem autorização dentro da unidade, sendo responsáveis por cerca de 70% do tráfego.

Segundo Ângela Kuczach, bióloga da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação, além de não estarem capacitadas para rodar em estradas-parque, as empresas de turismo têm feito visitas cada vez mais rápidas, para que o tempo do turista seja gasto no comércio da cidade. “Muitos guias de turismo da cidade são comissionados por lojas locais, que repassam cerca de 30% do valor dos produtos vendidos nas suas lojas paras eles”, diz.

Quando o turista entra no parque pelo caminho normal, a partir do centro de visitantes e com translado do ônibus do parque, ele passa cerca de quatro horas na unidade. Pelas agências de turismo, esse tempo pode cair para uma hora apenas. “Quanto mais rápido o turista passa pelo parque, mais tempo ele tem para ficar nas lojas e mais turistas as agências conseguem levar para a unidade”, diz Ângela.

E o atropelamento da onça trouxe à tona mais um erro na administração do tráfego de veículos no parque. Segundo Apolônio Rodrigues, vice-diretor da unidade e diretor em exercício no dia do acidente, apenas a entrada dos carros é anotada e não a saída. Isso criou uma lacuna nas informações sobre os carros que trafegaram na unidade na noite do acidente e, por isso, até agora não se conhece o culpado pelo crime. “Esse é um furo que vamos ter que resolver”, diz.

O resultado da não-obediência ao plano de manejo está estampado nas listas de animais mortos na rodovia. Apesar de ser o mais emblemático, o atropelamento da onça-pintada não foi isolado.  Dados oficiais indicam que cerca de 20 animais morrem atropelados todos os meses, como gambás, cotias e veados. No entanto, Ângela Kuczach garante que este número é bem maior, já que muitos animais pequenos não são computados.

Culpa de quem?

A demora na implementação do plano de manejo do parque, segundo Apolônio Rodrigues, deve-se justamente à pressão que o setor turístico exerce na região, que evita a todo custo medidas como a restrição ao trânsito dentro da unidade, por exemplo. A pressão é tanta que, há dois anos, o chefe da unidade, Jorge Pegoraro, chegou a ser intimidado por empresários e um deputado federal para que não barrasse a entrada de empresas turísticas na unidade.

Ontem (1º), novamente o setor turístico conseguiu sua vitória. Após reunião entre Prefeitura de Foz do Iguaçu, ICMBio, Iguassu Convention & Visitors Burau e Conselho Municipal de Turismo, os empresários locais conseguiram que o transito na unidade fosse reaberto, após quatro dias de veto à entrada de agências da cidade e táxis. Pelo acordo firmado entre as partes, as agências terão 30 dias para apresentar uma proposta alternativa de atuação. Até lá, apenas o trânsito diurno está permitido.

Segundo Apolônio Rodrigues, se o setor vier com uma proposta muito permissiva após este prazo, ela será vetada. “Mantemos a posição de fechar de vez o trânsito na unidade. Não vamos discutir mais nada [com empresários]”, garante.

A julgar pelos ânimos do setor turístico de Iguaçu, se daqui um mês a unidade quiser cumprir com sua palavra, terá de ter pulso firme para agüentar o tranco. No início da tarde de hoje, um grupo que se denominou “ambientalista” realizou manifestação pacífica em frente à entrada da unidade. Eles colocaram a representação de um grid de largada na cancela e desenharam uma enorme onça no chão, cortada por uma faixa de pneu.

O que eles querem, segundo Márcio Bortoli, da Associação de Desenvolvimento de Esportes Radicais e Ecologia (Adere), não-governamental que encabeçou a manifestação, é apenas a “conscientização” das pessoas que transitam no parque. Bortoli afirmou ser contrário ao fechamento do parque para agências turísticas e disse que o movimento não apóia tal determinação. “Não adianta brigar contra turistas, o que queremos é apenas conscientizá-los”, disse. Márcio Bortoli também é um dos proprietários do Hotel Bella Itália, no centro de  Foz do Iguaçu.

O Parque Nacional do Iguaçu foi o segundo criado no Brasil, em 1939. Era proposto por Santos Dumont desde 1916. Hoje é o parque nacional mais visitado do Brasil, recebendo cerca de um milhão de visitantes ao ano. Também foi declarado Patrimônio Mundial Natural da Humanidade pela Unesco em 1986. Infelizmente, parece incapaz de proteger seus habitantes mais ilustres.

Saiba mais:
Enfim, em paz com o parque do Iguaçu
70 anos do Parque Nacional do Iguaçu
Estrada fechada
A desocupação do Parque Nacional do Iguaçu