Pedro da Cunha e Menezes
Ex-chefe do Parque Nacional da Tijuca, diplomata de carreira e conselheiro de ((o))eco.

Há males que vêm para bem

Pedro Cunha e Menezes
quarta-feira, 24 fevereiro 2010 14:51

Ser filho de família grande não é fácil. O dinheiro fica curto. A gente enfrenta fila no banheiro, divide quarto, herda roupas e sapatos, briga pelo controle remoto da TV e faz rodízio na janela do carro. Para quem, como eu, não é o mais velho e não pode recorrer à força, nem o caçula que goza dos mimos da mãe, a vida é ainda mais dura. Felizmente, no meu caso, quando as coisas apertavam, podia sempre me refugiar com a vovó Fany.

Na casa dela era tratado com as regalias e privilégios de filho único. Para mim sempre havia uma barra de chocolate suíço, um quarto individual e o direito a escutar as histórias do Soldado Eusébio, que minha vó inventava antes de dormir, com a imaginação interminável de quem cresceu em um continente marcado por dois conflitos globais.

O velho Guimarães, meu avô, não chegava a ser tão carinhoso quanto sua esposa, mas também me proporcionava algumas alegrias. Sempre que tinha ciência de que eu pernoitaria lá, voltava do trabalho com um desenho que eu colava em um álbum. Na época, influenciado por uma televisão limitada a três canais que só passavam filmes da Segunda Guerra Mundial, eu era apaixonado por assuntos militares.

Vovô correspondia, mas à sua maneira. De sua exímia pena, saíam cenas de batalhas, tropas perfiladas, tanques de guerra e aviões de combate. Não eram, contudo, os fuzileiros navais americanos nem as tropas do Afrika Korps de Rommel pelas quais eu ansiava. Vinham esquetes do exército da Morávia sob fogo pesado, das tropas do “j”, cujos soldados chamavam-se Jesse, Jussié, José, João, Jamelão e por aí afora, de uma patrulha suíça com os embornais pejados de toblerones.

Eu não gostava. Fazia beiço, e para colar aquele desenho no álbum pedia algo mais sério, como a Polícia Montada do Canadá ou os Pracinhas na Itália. Um dia, meu avô chegou da repartição com o que qualificou de “cena realista”. Era um destacamento do Exército Bosniano. Fui às lágrimas. Lembro-me até hoje da severidade helvética da bronca que minha vó aplicou ao marido: “de hoje em diante só traga ao menino desenhos de exércitos que existam!”.

E não é que meu avô faleceu sem testemunhar sua clarividência. Em 1989 o Muro de Berlim caiu; em 1991 a Iugoslávia começou a ruir. No centro do conflito civil que retalhou o país em sete novas nações estava a Bósnia. Ali, naquele caldeirão onde vivem muçulmanos, croatas e sérvios foram travadas algumas das batalhas mais sanguinolentas que o mundo testemunhou desde que a Alemanha se rendeu aos aliados em 1945. Durante cerca de quatro anos, o exército bosniano se bateu contra forças sérvias e croatas, até lograr a paz e a independência completa do país.

Quem visita a Bósnia hoje, contudo, não se sente inseguro. A estradas são razoáveis, a sinalização é boa e o povo é amistoso. A arquitetura milenar é pontificada por mesquitas e minaretes, mas trata-se de um islamismo “light”, onde raramente se vêm mulheres com a cabeça coberta por lenços ou panos. Pelo contrário, durante o verão, as margens dos límpidos rios bosnianos ficam cheias de moças vestidas com escassos biquinis que descortinam corpos esculturais marcados por tatuagens que provocariam a ira do mais moderado aiatolá iraniano.

A guerra, é certo, deixou suas marcas. A ponte de Mostar, considerada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, foi derrubada a tiros de canhão e, para continuar a atrair turistas, teve que ser reconstruída pelos mesmos métodos usados na Idade Média. Residências e prédios comerciais de Mostar e Bihac ainda exibem as cicatrizes em forma de inúmeros buracos provocados pela troca de canhonaços e, no interior, sobretudo na fronteira com a Croácia, fazendas abandonadas, campos sem cultivo e casas em ruínas constituem um triste legado das batalhas.

No meio ambiente, o conflito também deixou suas feridas abertas. Carcaças de carros de combate e outras peças de lixo bélico ainda poluem a paisagem. A Bósnia é muito montanhosa. Apenas 8% do seu território encontra-se abaixo dos 150 metros de altitude. Dirigir no país significa ziguezaguear por estradas que cortam e vencem montanha verdejante atrás de montanha verdejante. Metade do país está coberto por florestas, muito embora quase nada esteja oficialmente protegido.

Os dois Parques Nacionais bosnianos cobrem juntos apenas 207 km2, o que é insignificante quando comparados aos 51.129 km2 de extensão da Bósnia. Um terceiro parque foi declarado em 2008 para proteger uma das principais bacias hidrográficas do país, mas a unidade de conservação ainda não saiu do papel e hoje serve apenas para ajudar na publicidade das agências de rafting de Bihac que anunciam passeios pelo Parque Nacional do Rio Una.

Não é tudo. Ainda há outro despojo de guerra. Croatas, bósnios e sérvios foram pródigos em espalhar minas pelos campos e florestas. Segundo estimativas da UNICEF há no terreno cerca de um milhão desses explosivos. A natureza do relevo e a falta de mapas confiáveis mostrando a localização dos explosivos levaram o especialista australiano James Trevelyan a estimar que o custo para desminar a Bósnia seria mais alto que preço para desminar todo o resto do mundo.

Por isso, foi estabelecida uma lista de prioridades para os trabalhos de desminagem do país. Pela ordem: 1) locais onde pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas e fazendas, tornando-se refugiados; 2) entorno de infraestrura essencial, tal como estradas, pontes, linhas de alta tensão, reservatórios de água entre outros; 3) locais de importância econômica como fábricas, centros de extração mineral e pedreiras; 4) áreas agriculturáveis e, por último, 5) florestas.

Estar no fim da fila significou, na prática, que a quase totalidade das matas não comerciais da Bósnia continuam minadas. Visitá-las é um risco, uma pisada em falso e tudo pode ir para os ares. O ecoturismo ficou extremamente restringido, causando prejuízo a atividades tradicionais da antiga Iugoslávia.

O lado bom da história é que as minas deram, na prática, o estatuto de áreas protegidas e de zonas intangíves às florestas bosnianas. Ali não vão turistas, mas tampouco vão caçadores, coletores, madereiros ou agricultores. Consequentemente as populações de espécies ameaçadas já têm dado mostras de estar crescendo. Recentemente, avistamentos de ursos e lobos têm aumentado muito nas franjas florestais. Ao que tudo indica, andar em terreno minado é menos perigoso do que conviver com a espécie humana.

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