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Maravilhas subaquáticas na ilha de Bonaire, no Caribe. Clique e confira slideshow. (Fotos: Pedro da Cunha e Menezes)

Maravilhas subaquáticas na ilha de Bonaire, no Caribe. Clique e confira slideshow. (Fotos: Pedro da Cunha e Menezes)

Nos últimos anos, sobretudo após as Conferências Ambientais que o Rio de Janeiro sediou em 1992, conhecidas pelo nome genérico de Eco92, tem-se falado muito em desenvolvimento sustentável. Trata-se de teoria complexa e muito debatida que defende que o progresso econômico e a preservação ambiental não são incompatíveis. Nesse sentido, o extrativismo e o ecoturismo são algumas das atividades que poderiam impulsionar o avanço da economia sem grandes impactos à natureza. Em muitos lugares, contudo, como O Eco já mostrou, a palavra “sustentável” tem sido utilizada como uma licença para a degradação ambiental. Como fazer, então, para assegurar que a melhoria da qualidade de vida e dos indicadores econômicos de um país avancem de forma compatível com a conservação da natureza?

Cada caso tem sua própria sentença. Não existe receita de bolo que ensine alguma fórmula mágica. Há, entretanto, alguns modelos de boas práticas com lições que podem ser emuladas. Um belo exemplo está localizado no “ABC caribenho”. Diferentemente de seu homólogo paulista, as ilhas de Aruba, Bonaire e Curaçao, não se caracterizam por altos prédios, atividade fabril vibrante e uma vida altamente urbanizada. Colonizadas pela Holanda, as atuais províncias autônomas do Reino dos Países Baixos vivem do turismo e do refino de petróleo. Uma delas em especial, Bonaire, depende mais da indústria de viagens do que da produção de combustíveis. Seu grande desafio ao longo dos últimos trinta anos tem sido cuidar do patrimônio natural que sustenta esse turismo.

Bonaire foi descoberta pelos espanhóis antes do Brasil, em 1499, mas sua aridez e solos pouco favoráveis à agricultura renderam-lhe o apelido, dividido com Aruba e Curaçao, de “Islas Inútiles”. Pouco se plantava e a terra sequer sustentava o gado. Para minorar a dureza da vida, colonizadores ibéricos introduziram cabras para ordenhar o leite e jegues para fazer o trabalho pesado. Mas não houve labuta que pudesse desenvolver o ilhote e os espanhóis nunca lhe deram muita bola.

A história do ABC caribenho começou a mudar no Brasil. Em 1580, após dois anos de complicações na sucessão dinástica que se desenhou após o sumiço do jovem rei português Dom Sebastião, em Alcácer-Quíbir, no Marrocos, Dom Filipe de Espanha foi declarado novo monarca de Portugal e consolidou uma União Ibérica sob sua coroa. Com isso, o Brasil passou a ser parte do novo e alargado império espanhol. Por conseguinte, entrou em guerra com a Holanda, que a esta altura se batia contra Madrid.

Em nome desse conflito bélico, no ano de 1624 os batavos invadiram Salvador (BA). Em 1630, tomaram Recife (PE). Poucos anos depois, já haviam consolidado sua ocupação de substancial parcela do Nordeste, onde passaram a controlar a produção de açúcar. Em 1634, com o intuito de ter um posto avançado no Caribe que pudesse incomodar as fortificações espanholas de Cartagena e Maracaibo e que permitisse fustigar as frotas que partiam dessa parte do mundo para Sevilha e Barcelona, os flamengos tomaram Curaçao. Dois anos depois desembarcaram em Bonaire. Estabeleceu-se, então, uma rota comercial entre o ABC antilhano e o Nordeste brasileiro. Entre outras mercadorias, o Brasil exportou escravos, que, ao desembarcarem nas novas colônias, foram empregados na produção de sal.

Em 1640, a União Ibérica se dissolveu. Cerca de quinze anos mais tarde, o Brasil voltou a ser 100% português. Uma vez terminada a Restauração contra a Espanha, as tropas lusitanas puderam concentrar-se na expulsão dos flamengos de Pernambuco e arredores, o que foi conseguido após a vitória na batalha dos Guararapes. Parte dos colonos holandeses expulsos associaram-se a Jan van Riebeeck e integraram a expedição que fundou a Colônia do Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. Outro lote mudou-se com armas, bagagens e escravos para o ABC. Esses últimos levaram consigo algumas tradições brasileiras e a língua portuguesa.

Não houve, entretanto, chicote ou trabalho suarento que desenvolvesse as ilhas. Durante anos, Bonaire seguiu produzindo somente o sal, especiaria indispensável para preservar a carne durante o inverno europeu. A vida pouco mudou durante os séculos XVIII, XIX e primeira metade do XX. Durante a Segunda Guerra Mundial, contudo, a ilha foi usada como campo de concentração para prisioneiros alemães e nazistas holandeses. Ao final do conflito, as estruturas de madeira utilizadas para albergar os detidos foram convertidas em hotéis. Assim começou uma pequena história de sucesso que perdura até nossos dias.

Quando, na década de 1960, o petróleo venezuelano começou a ser refinado em Aruba e Curaçao, Bonaire ficou como prima pobre. Embora também tenha lhe cabido um pequeno quinhão nessa indústria, a ilha se especializou como centro de lazer para os trabalhadores das refinarias. Não demorou a perceber que tinha pouco a oferecer além da natureza. Nesse sentido, os tomadores de decisão de Bonaire, que havia ganho autonomia nos assuntos internos em 1954, resolveram valorizar o que sua terra tinha de melhor.

Em 1972, depois de anos de planejamento, o governo insular decretou a criação do Parque Nacional de Washington Slagbaai. Com 5.643 hectares, é o maior e mais antigo de todo o ABC e ocupa quase um quinto dos 288 quilômetros quadrados (Km2) de Bonaire, que tem 39 quilômetros de comprimento por 11 de largura, no ponto mais amplo. O problema é que, depois que Jacques Costeau popularizou o mergulho, ninguém queria mais visitar a terra árida e inóspita de Bonaire. Pelo contrário, a turistada vinha mesmo era para ver os corais e peixes coloridos que nadavam ao redor da pequena ilha.

O bom senso prevaleceu. Na ponta do lápis, verificou-se que as divisas aportadas com as diárias de hotel, aluguéis de automóveis, compras de pacotes de mergulho e gastos com alimentação superavam em muito os eventuais ganhos com a pesca. Assim, em 1979, foi criado o Parque Nacional Marinho de Bonaire. Seus 2.700 hectares protegem toda a costa da ilha, desde a marca da maré alta até uma distância de 300 metros do litoral e uma profundidade de 60 metros. Dentro do parque, encontram-se a Ilha de Klein Bonaire e a enseada de Lac, ambas sítios importantes para aves migratórias, protegidos ao abrigo da Convenção Ramsar.

Não é para menos: há aves às revoadas. Desde o papagaio lara* (Amazona barbadensis) até o pelicano, há mais de 190 espécies de pássaros em Bonaire, das quais 21 são endêmicas. A mais famosa de todas é sem dúvida nenhuma o flamingo caribenho (Phoenicopterus ruber), que pode ser facilmente observado nas lagoas salobras do Parque Nacional de Washington Slagbaai, onde encontram-se outros dois sítios Ramsar. Aliás, se é verdade que a ilha sobressai (ou seria subsai?) no seu lado submerso, os turistas que apenas mergulham e deixam de visitar a área protegida acima da terra perdem muito.

Slagbaai tem uma vegetação retorcida e espinhosa à maneira da nossa Caatinga, mas o verde de sua natureza, em contraste com o azul do mar e das inúmeras lagoas e manguezais que abriga, proporciona panoramas de tirar o fôlego. De um ponto de vista do manejo, o parque está bem cuidado. Animais introduzidos pelo colonizador como a cabra e o jegue, antes considerados naturalizados, já não são aceitos e serão submetidos a controle e eventual erradicação. Outras espécies exóticas também preocupam. Entre elas, a que mais incomoda é o gato doméstico, que pode ser encontrado em estado feral às dúzias no parque e é especialmente danoso à sobrevivência de espécies endêmicas e migratórias de pássaros. Nesse sentido, o Plano de Manejo, publicado em 2007, prevê sua captura e, se necessário, eliminação física.

Outras atividades previstas no plano são o recenseamento das populações de pássaros e de peixes, o inventário da vegetação e o acompanhamento da salinidade e qualidade das águas, além, é claro, de maior controle e monitoramento dos 20 mil turistas que todos os anos pagam US$ 10 (cada um) para caminhar em suas trilhas e mergulhar ao longo de seus corais.

Embaixo d´água, o padrão de proteção não é menos rígido. O parque marinho ajuda a conservar 469 espécies de peixes, quatro espécies de tartarugas além de 28 crustáceos endêmicos (que só existem lá) ao ABC. Diferentemente de outros locais do mundo onde o aquecimento global tem causado o branqueamento (morte) de corais e o turismo tem contribuído para remoção e quebra de corais, o estado geral do ecossistema aquático de Bonaire é bom. Um estudo recente da Universidade de Amsterdam (Holanda) encontrou pouca incidência de espécies exóticas em suas águas e verificou que tinham pouca influência negativa sobre a qualidade do ecossistema protegido pelo parque. Ainda assim, atividades como a pesca ilegal e o lançamento de detritos provenientes de terra causam ansiedade às autoridades ambientais.

Para quem mergulha em Bonaire, essas preocupações parecem até exagero. Os 38 mil visitantes anuais do parque marinho desembolsam US$ 25 por temporada para ter uma visão quase idílica do mundo submarino. Na ilha, é possível mergulhar a partir de uma embarcação ou diretamente da praia. Os barcos nunca lançam âncoras, o que evita que as mais de 60 espécies de corais sejam danificadas. Há ao largo da ilha cerca de cem bóias, quantidade mais que suficiente para permitir a amarração de todos os botes e lanchas com turistas a bordo. Quem prefere o mergulho independente só precisa alugar um carro e dirigir ao redor de Bonaire. No caminho, vai encontrar 63 pedras amarelas, onde estão sinalizados o nome dos diferentes locais de mergulho, cujo início está assinalado no mar em frente por uma bóia. Aí é só estacionar, retirar o equipamento e tchibum!

Antes de iniciar sua temporada de mergulhos, cada turista é obrigado a assistir em seu hotel ou agência de mergulho um vídeo educacional explicando as fragilidades ambientais e as normas de conduta do parque. Cada instrutor age também como fiscal, pois a conduta irresponsável de um mergulhador resulta em punição do transgressor como também da agência com a qual está mergulhando e é bom ter cuidado, pois lanchas da STINAPA, órgão que gere as áreas protegidas de Bonaire, patrulham as águas do parque com frequência.

Na verdade, em breve toda a população bonaierense se converterá em fiscal da qualidade da natureza que lhes assegura o pão nosso de cada dia. Todos os anos, 1.500 escolares (a população total de Bonaire não chega a 15 mil habitantes) participam em atividades de educação ambiental. O programa inclui visitas explicadas aos parques terrestre e marinho e mergulhos guiados. Outros alvos do projeto educativo são operadores de mergulho e outros empresários locais, funcionários governamentais e profissionais de imprensa.

Todo esse trabalho está embasado em uma série de pesquisas e atividades de monitoramento feitas em conjunto com universidades e ongs tais como WWF, que apontam para as necessidades e prioridades de manejo, o que ajuda a garantir a saúde ambiental e, consequentemente, financeira, de Bonaire.

O resultado até aqui tem sido satisfatório. Em 2009, Bonaire foi eleita pelos leitores da Suba Diving Magazine como o melhor destino de mergulho do Caribe/Atlântico. Nesse sentido, liderou a votação nas categorias Vida marinha, Macro fauna, Mergulhos a partir da terra, Meio ambiente marinho, Melhor local para fotografia subaquática, Melhor local para snorkel, Melhor local para iniciantes e Melhor relação custo-benefício.

Em Bonaire, o mesmo meio ambiente que provê agradece a equação financeiro-comercial que lhe devolve em saúde ambiental e preservação. Os garçons, instrutores de mergulho, camareiras, funcionários do setor de aluguel de automóveis, proprietários de restaurantes, hoteleiros e demais empregados do setor de serviços assinam embaixo.
    
* seu nome é uma corruptela de louro, na língua local do Papiamento, que os escravos levados do Brasil esculpiram, sobretudo a partir do Português.