Nas cidades com mais de 100 mil habitantes, praticamente uma em cada três pessoas (32%) gasta mais de 1 hora por dia no deslocamento da residência para o trabalho ou para escola. Nas cidades menos populosas, a média cai para praticamente uma em cada quatro pessoas (24%). As estimativas fazem parte de uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) ao Ibope, intitulada Retratos da Sociedade Brasileira: Locomoção Urbana (disponível na íntegra em PDF aqui). O estudo foi divulgado na semana passada.

A pesquisa apresenta resultados semelhantes aos dois estudos publicados este ano pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que podem ser acessados a partir de dois textos publicados no Outras Vias: “Ônibus, caminhadas e bikes, a opção da maioria” e “Percepções distorcidas e a realidade no trânsito”. Além da quantidade absurda de tempo perdida no trânsito nas metrópoles, que representa queima exagerada de recursos naturais renováveis ou não, e emissões desnecessárias de poluentes, o dado que mais chama atenção é, de novo, como se formam os congestionamentos que prejudicam a sociedade como um todo. Os carros, que entopem ruas e avenidas, provocam engarrafamentos intermináveis e causam grave impacto ambiental, não são, ao contrário do que se costuma pensar, a opção da maioria. As cidades não travam porque todo mundo tem carro. São minoria os que optam (ou podem) por utilizar veículos individuais privados.

Aliás, vale aproveitar os dados da CNI-Ibope para analisar quem são os responsáveis pela degradação ambiental das cidades, os principais emissores de poluição no ar que todos respiram. Dos que mantêm carros nas cidades brasileiras, 51% tem ensino superior e 27% ensino médio completo. É gente que teve chance de estudar e aprender sobre a importância de se respeitar a natureza. Além de mais educados, são também os mais ricos os que se deslocam prioritariamente em automóveis privados nas cidades brasileiras. Nada menos do que 81% dos proprietários de carros tem renda superior a 10 salários mínimos.
Estudos como estes podem ajudar a questionar os investimentos públicos feitos na área de transporte urbano. Apesar de serem opção de uma minoria, de provocarem graves impactos ambientais (não só na qualidade do ar, mas também provocando barulho e degradação de áreas de convivência e moradia), os carros seguem recebendo atenção especial dos planejadores urbanos brasileiros em todos os níveis administrativos. Técnicos mais preocupados em garantir a fluidez nas ruas do que em diminuir o número absurdo de mortes no trânsito, aliados a políticos conscientes do efeito eleitoral de grandes obras, insistem na ampliação de avenidas, na construção de túneis e viadutos. O transporte individual recebe a maior fatia de recursos e investimentos em transporte coletivo seguem em segundo plano.
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