Marcos Sá Corrêa
Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

Um mundo cada vez mais distante

Marcos Sá Corrêa
quinta-feira, 2 julho 2009 19:01

No dia em que o Brasil estreou sua nova política de premiação do roubo de terras públicas na Amazônia, começou na Suécia a rodada 2009 do foro de Tällberg. E, ao juntar na mesma data coisas tão contraditórias, o acaso dilatou ao infinito o fuso horário entre os dois países.

Não eram mais cinco horas de diferença, como dizia o relógio. Mas cerca de 6 mil anos, o tempo que em a paisagem européia começou a mudar a ferro e fogo, pelas mãos de agricultores neolíticos, usando mais ou menos a mesma tecnologia que hoje na Amazônia se chama desenvolvimento econômico.

O Brasil nunca pareceu tão distante como ali do mundo que os políticos terão pela frente. A conferência de Tällberg fez, na semana passada, o ensaio de Copenhagem, onde se discutirá dentro de cinco meses o ajuste da economia mundial às mudanças climáticas. Quer promover em novembro um Protocolo de Quioto elevado ao cubo.

Juntou mais de 500 pessoas, vindas de pelo menos setenta países. Pôs cientistas, músicos, líderes indígenas, chefes de empresas e políticos para ferver num caldeirão de dados avassaladores. Tudo o que se descobriu ultimamente em pesquisas de ponta é pior do que os pessimistas previam há poucos anos sobre o futuro do planeta.

As emissões de carbono, por exemplo, já passaram do índice que se considerava suicida. Seu efeito só não se manifestou ainda em toda a sua eloqüência porque a atmosfera terrestre também está poluída por aerossóis, que rebatem os raios solares. Ou seja, estamos protegidos por um manto de sujeira.

Mas ninguém precisa de números ou palavras para vislumbrar a desordem climática, num auditório em que Rose Mary Museminali, ministra das Relações Exteriores de Ruanda, enxuga várias vezes o suor da testa durante o discurso, apanhada de supresa pelo calor deste verão sueco. E onde, sem o menor esforço retórico, Emmanuel Mori, presidente da Micronésia, um arquipélago paradisíaco nas águas azuis do Pacífico, onde pouco mais de 150 mil habitantes se espalham por uma área equivalente à dos Estados Unidos, explica que sua federação de atóis será tragada pela elevação do oceano, sem ter contribuído em nada para destruir o planeta.

Era um programa pesado, feito para deixar explícito que a crise climática é muito mais grave que a financeira, inclusive em termos econômicos. E até agora não recebeu nem as sobras dos trilhões de dólares despejados desde outubro passado no sistema internacional de crédito. Isso, dito num foro criado em 1981 por homens de negócios, soa mais convincente.

Em Tällberg se fala a sério, sob uma lona de circo, sobre assuntos que em muito palácio ficam entregues ao gogó de comediantes. É fácil entender porque ouvindo a médica Gro Harlem Brundtland se apresentar como “dona de casa”. Ela quase perdeu a reunião, porque não tem mais secretário, desde que encerrou a vida pública, depois de chefiar o governo da Noruega, orquestrar o relatório da ONU que em 2007 botou a conservação da natureza na pauta política e praticamente inventou para o mundo o cargo de ministro do meio ambiente.

Depois de ouvi-la, nada como voltar ao hotel, entre lebres e cervos, por trilhas que percorrem campos floridos, contornam o lago de Silkin, cuja água é a mesma que se bebe nas mesas de reunião, e mergulham nas florestas que atualmente cobrem 60% do território sueco, crescendo 100 milhões de metros cúbicos por ano. É o cenário perfeito para se perguntar por que eles lá se preocupam tanto com esses problemas. E nós aqui, não.

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