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Na esteira dos recentes ataques (físicos, inclusive) que sofri em Santa Catarina com a finalidade expressa de calar minha grande e sempre aberta boca de ambientalista inconformado, houve quem achasse n´O ECO que ela estava era fechada demais; de onde um convite para voltar a escrever regularmente nesse espaço tão privilegiado. Para comemorar, pensei numa breve trilogia sobre o mais importante legado do reinado do PT e seus penduricalhos no governo federal: a desconstrução ambiental de nosso país, que levará mais de uma geração para ser revertida, se for.

E que melhor lugar para começar a dissecar o legado desastroso dessa gente do que onde ele se origina, ou seja, na sociedade civil mesmo?

Sim, porque a conivência com o que Lulla Roussef (esse eficiente híbrido de ignorância apelativa e calculismo eleitoreiro) e acólitos vêm fazendo para destroçar o patrimônio natural brasileiro - e as estruturas do Estado que deveriam protegê-lo - não é apenas produto dos votos de analfabetos famintos ávidos da Bolsa-Esmola; é também fruto da criminosa conivência da maioria do dito “movimento” ambientalista, que ora se cala indecentemente ante os abusos e absurdos, ora aplaude trivialidades sem conseqüência como ‘grandes feitos’ da política ambiental, ou ainda faz-se cúmplice de intermináveis conferências, reuniões e convescotes oficialescos cuja única função é dar verniz de consulta a políticas equivocadas já pré-cozidas nos palácios brasilienses.

Não é difícil de entender a gênese desse mutismo cúmplice de muitas ONGs com o atual estado de coisas. Começando pelo Rio Grande do Sul, o Partido dos Trabalhadores aprendeu desde cedo que o movimento ambientalista era um aliado conveniente para sua retórica oposicionista, e alianças momentâneas contra projetos ambientalmente impactantes e iniciativas desenvolvimentistas insustentáveis, dos regimes militares a Fernando Henrique Cardoso, encontraram em parlamentares do PT amplo apoio e ressonância. Ao mesmo tempo, lideranças ambientalistas comprometeram-se irremediavelmente com a visão maniqueísta de que partido dito de “esquerda” é mais ecológico que de “direita”, e passaram a militar no PT em paralelo à atuação nas suas ONGs de origem. Presto! Estava criada uma relação incestuosa que perdura até nossos dias.

No Rio Grande do Sul, a histórica e heróica AGAPAN foi tomada de assalto por militantes do PT já em 1984, resultando na eleição de mais de um vereador. A entidade jamais recuperaria sua credibilidade com a sociedade gaúcha depois desse atrelamento, apesar de seguir viva graças a uns poucos abnegados. Do complexo de militância petista que orbitava no entorno da AGAPAN brotariam os primeiros burocratas de governo que gerariam um novo front de cooptação: o amiguismo. No governo estadual de Olívio Dutra, militantes ambientalistas foram postos em cargos diversos dos órgãos ambientais. Por mais interessados e capazes que fossem, porém, esses militantes-feitos-burocratas enfrentariam a mesma síndrome de impotência que hoje assola seus pares federais no governo de Lulla Roussef: ao contrário do que se imaginava, os governos petistas não elevaram os órgãos ambientais do Estado a patamares de profissionalismo, recursos materiais e poder político capazes de assegurar um papel relevante em direção a uma sociedade mais sustentável; antes, aproveitaram a pinçagem de militantes para cargos de governo com a dupla função de debilitar a militância nas ONGs (agora privadas de lideranças expressivas) e impor uma ‘lei do silêncio’ branca através do amiguismo, ou seja, os militantes que sobraram aqui fora se constrangem de meter a boca no governo em que seus amigos e ex-companheiros estão inseridos. Os que seguem criticando, são mal falados nos corredores palacianos e apontados como “intransigentes” pelos “amigos” de outrora. O amiguismo é muito agravado por um aleijão cultural da maioria dos burocratas brasileiros, que é o de achar-se donos do governo e não empregados do povo; assim, passam a escolher a quem responder, preferindo, claro, os “mansinhos” que os freqüentam sem criticar em público.

No governo federal de Lulla Roussef, a desmobilização causada pelo amiguismo e pela absorção de lideranças pela burocracia foi acrescida de um agravante: a criação magistral da miragem de comprometimento ambiental proporcionada por Marina Silva enquanto Ministra. Mais soldada do Partido do que militante ambientalista, ela inflou a simpatia dos ditos “movimentos sociais” e de ambientalistas deslumbrados pelo Ministério do Meio Ambiente através das Conferências Nacionais de Meio Ambiente, um jogo de espelhos no qual se finge que a sociedade participa da formulação das políticas ambientais federais, e o governo finge que presta atenção.

Some-se a isso o fato de que a maioria das grandes ONGs profissionais que atuam em Pindorama, apesar de fazerem muita coisa boa na prática pela conservação, ou têm vínculos internacionais cujos Boards não querem briga direta com um governo terceiro-mundista pra não sofrer represálias políticas ou mesmo perder interlocução, ou vivem de expressivos patrocínios estatais, e se vê que resta muito pouco de independência no movimento ambientalista brasileiro, no geral restrita hoje a bolsões naquelas entidades que, sempre, foram as que fizeram a diferença, aquelas compostas por três, cinco, doze pessoas, reunidas no fundo do quintal de alguém, sem estrutura nem patrocinador, brigando pelo que acreditam e se lixando para as quadrilhas políticas dominantes. É fácil reconhecê-los: se o prefeitinho local odeia seus líderes, há 99% de chance de serem independentes e gente boa.

A situação corrente, em que o governo federal faz campanha explícita e pornográfica contra as leis ambientais e a conservação da Natureza e mata à míngua os órgãos ambientais públicos, o que resta do movimento ambientalista se deixa encantar, às vezes, por microscópicas “vitórias” cuja significância é pífia ante o assalto ambiental que sofre o país. É assim que um dos únicos grandes movimentos recentes por conservação, voltado para a proteção do banco dos Abrolhos, acabou atolado na batalha pela efetivação da Reserva Extrativista do Cassurubá, importante porém mínima frente ao que se precisa para assegurar que a biodiversidade ímpar de Abrolhos não vá de vez pelo ralo. Enquanto participantes da campanha subiram ao palanque de Lulla Roussef para aplaudir a criação (no papel) desta Resex, o inestimável Parque Nacional Marinho dos Abrolhos segue abandonado, miserável, à margem dos festejos oficialescos que resultaram em desmobilização quase total dessa luta.

É sobre esse marco de desmobilização que o ataque ecofágico do imperial regime que vivemos vem tendo sucesso. Disso falaremos mais adiante, mas aqui fica para reflexão inicial essa reflexão que ninguém gosta de encarar no movimento. E sabem do que mais? É bom estar de volta a´O ECO.