Bodoquena: eu quero o parque legal PDF Imprimir E-mail
Reuber Brandão   
05/03/2009, 08:00
No adesivo dos carros lia-se: eu quero o Parque Legal. Uma ousadia quando se tratava do estado do Mato Grosso do Sul, há 10 anos atrás. Estado absolutamente pecuário e madeireiro, sem história de conservação. Este adesivo tirou o sono de muita gente e marcou definitivamente a história da conservação desse estado, que, até 2000, não tinha nenhuma Unidade de Conservação de Proteção Integral.

Falar de conservação no estado era tabu, nem por brincadeira se tocava no assunto. E ali ninguém brincava em serviço. Quem ousasse falar ou defender a natureza podia estar certo que levaria chumbo. Ali, a negociação era outra: política e financeira. Manda quem pode e obedece quem precisa. O assunto era ainda mais sério quando se falava no Planalto da Bodoquena, uma região de terra roxa estruturada, formada pela decomposição de rochas carbonáticas, abundantes em toda a Serra da Bodoquena. Lugar de solos valiosos para a agricultura, mas que abrigava alguns dos mais relevantes remanescentes naturais do estado, na época ainda carentes de proteção contra o olho gordo do agronegócio, que já havia crescido para aquela região.

Na verdade, não faltavam justificativas para defender uma proposta de conservação na região. É impressionante a importância biológica da Serra da Bodoquena. Apresenta florestas semideciduais e deciduais, onde são encontradas tanto espécies de Floresta Atlântica como de Cerrado e do Pantanal. Isso se deve, dentre outros fatores, à sua localização estratégica, no meio do caminho do Cerrado e do Pantanal, mas também influenciada pelas matas da Bacia do Rio Paraguai, que pertencem ao bioma Mata Atlântica. O Parque Nacional da Serra da Bodoquena protege atualmente uma área de 76.481 hectares, onde foram encontradas mais de 35 espécies de mamíferos terrestres, 14 de morcegos, 39 de anfíbios, 26 répteis, 41 peixes e 353 aves. Mas apesar de sua relevância biológica e paisagística, este parque só pôde nascer devido à espetacular mobilização pela sua criação.

Antes da assinatura do decreto presidencial criando o Parque Nacional da Serra da Bodoquena, já existia uma proposta de criação com mais de dez anos. A ultima proposta oficial já havia sido apresentada ao Ministério do Meio Ambiente há alguns anos, com 90.000 hectares. Mas aprovar a criação deste parque nacional foi uma tarefa árdua e complicada. A minuta de decreto foi encaminhada para a assinatura presidencial umas cinco vezes, no mínimo, como ato em comemoração a todas as datas “ambientais” possíveis, como Dia da Árvore, Dia do Meio Ambiente, Dia do Catador de Latinha, mas nada do parque sair do papel. A papelada ia até a Casa Civil e, na “hora H”, nada havia a ser assinado. Mas o que havia de diferente era um movimento forte para criação desta unidade. Numa escala menor, mas similar à de John Muir para a criação de Yosemite, nos Estados Unidos.

Havia uma forte força política contra a criação da Serra da Bodoquena, mas algumas pessoas do Mato Grosso do Sul se organizaram, batalharam e se fortaleceram para apoiar a proposta. As discussões eram fortes e o confronto era muito desgastante. Nesta história, tem muita gente envolvida, mas três nomes foram muito importantes: Márcia Brambilla; Silvia Torrecilha; e Gláucia Seixas. Um trio de meninas super poderosas da Fundação Neotrópica do Brasil, que enfrentou de frente a barra pesada.

Do lado do Ibama (antes da mutilação do órgão em dois), o incansável Sergio Brant foi e voltou do Mato Grosso do Sul incontáveis vezes, juntando dados para propor a melhor delimitação da unidade, estudando bases cartográficas, bacias hidrográficas, realizando reuniões, colhendo informações, até a data da assinatura do decreto de criação. Foram muitos anos de trabalho duro, muitas vezes menosprezado pelos burocratas de gravata.

Apesar de todo trabalho, de toda mobilização, de toda expectativa, o parque nunca era criado. A pressão contrária era muito grande e, aparentemente, não havia o que fizesse a área sair. Na verdade, os documentos para apreciação e assinatura presidencial desapareciam misteriosamente. Coisas do Brasil.

Quando o decreto de criação foi finalmente assinado, o Parque Nacional não saiu com os limites propostos pelos estudos do Sérgio Brant. Embora o Ibama fosse o responsável pela execução e condução dos estudos, alguns “iluminados” do Ministério do Meio Ambiente se reuniram com a equipe da Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul e fizeram ajustes na proposta, atendendo demandas obscuras. Nunca foi esclarecida a retirada de quase 15.000 hectares da proposta original. Nunca foi esclarecida a retirada das nascentes de diversos rios. Não foi esclarecida a retirada do banhado do Rio Perdido. Não há respostas para estes retalhes, mas assim nascia a primeira unidade federal de proteção integral naquele estado, à base de muita luta, esforço e persistência.

Vale lembrar, também, que o 2º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação foi realizado em Campo Grande, justamente para pressionar o governo federal pela criação dessa unidade. Esta idéia surgiu em um momento de desapontamento total, quando parecia que o parque não sairia caso o assunto não fosse exposto na vitrine, colocado para todo público conservacionista brasileiro. Era necessário mostrar que o governo não tinha coragem de criar esta unidade. Se isso realmente levou à resolução do impasse e a criação da área, sabe-se lá, mas que o Ministério do Meio Ambiente se sentiu pressionado, realmente se sentiu. E com medo de passar vergonha diante do público do Congresso, teve que correr e criar o parque em setembro de 2000 e, depois, em outubro, apresentar algum produto para ser comemorado durante o congresso. E aquele adesivo, produzido à custa do “pede daqui e empresta de lá”, marcou este movimento. Hoje é difícil encontrar alguém que se lembre deste movimento, das campanhas, das faixas, das camisetas e dos adesivos.

Pouco se fala atualmente desta que foi uma das maiores manifestações populares pela criação de uma unidade de conservação que já existiu num estado. Quando ninguém falava em consulta publica, toda discussão conduzida naquele momento foi pública, colocando frente à frente conservacionistas e opositores. De lá pra cá, se passaram pouco mais de oito anos, mas atualmente não vemos tanta mobilização a favor de uma área protegida.

Se a proposta de criação do Parque Nacional da Serra da Bodoquena fosse apresentada hoje, seria a unidade criada? Se a resposta for afirmativa, seria criado um parque nacional ou a proposta seria ferida de morte em sua concepção, através de uma distorção fatal na categoria proposta? Nestes tempos de social antes de ambiental, onde interesses locais suplantam interesses nacionais, talvez a proposta seria apresentada como uma Reserva Extrativista, Área de Proteção Ambiental ou até mesmo uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, para atender a qualquer interesse que não o da conservação. Talvez fosse até “reconhecida” uma nova categoria de população tradicional para receber a área. Mas, a maior probabilidade, seria o engavetamento definitivo da proposta e o parque não sairia, porque a bancada ruralista não deixaria passar. Afinal de contas, mais vale manter a maioria no Congresso que criar uma unidade de conservação para a coletividade e para as futuras gerações.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais não é criada uma unidade de conservação de proteção integral no Pantanal do Nabileque. Esta região, localizada ao sul da planície pantaneira, é de grande relevância biológica. Além disso, devido às suas morrarias, possui um papel especial no controle das cheias e vazantes de todo o Pantanal, bem no trecho mais movimentado da hidrovia do Rio Paraguai. Será que não seria a hora de ter uma nova campanha, pelo Nabileque legal? Mas será que existem hoje pessoas com a coragem e a garra da turma que lutou pela Serra da Bodoquena? Será que perdemos esta partida por W.O.?

A criação do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, mesmo com as mudanças de última hora, retocadas de forma apressada em cima da impecável proposta original, foi uma vitória para todos que trabalham com conservação. Conquistas como esta nos inspiram e dizem que, apesar de tudo, de todo esforço, de todo empenho, de toda dificuldade, vale a pena. O principal aprendizado com esta história é que ela mostra que ainda se pode fazer muito mais, que existem mais vitórias a serem conquistadas e que temos condições para que elas aconteçam.

Se não fosse por isso, Bonito não teria hoje o Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Certamente seria menos Bonito.

Saiba mais:

Um jeito na Bodoquena
Poderosas
De pernas pro ar
Geoparque
Comentários
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Fazendeiros aliados ao INCRA
Fábio Olmos 05/03/2009 06:43:29

Após o parque ser criado, apesar das pressões dos fazendeiros e da covardia
dos "iluminados" do MMA (a desgraça deste país são os cargos de
confiança) a pressão vem dos assentamentos que o INCRA criminosamente cria no
seu entorno. Ruralistas e MSTistas são farinha do mesmo saco quando se trata de
conservação.
Não entendi...
Antônio Barros 05/03/2009 15:15:22

Caro Reuber, dizer que "talvez a proposta seria apresentada como uma Resex,
APA ou até mesmo uma RDS, para atender a qualquer interesse que não o da
conservação"... é menosprezar o esforço de ensinar o ser humano a
reviver a natureza. Conservação não se faz só com a criação de UC de
proteção integral. Criá-las e administrar seus conflitos é muito fácil. O
desafio é justamente viabilizar a preservação sem conflitos... você acha que
isso não possa ser factível? Tudo depende de uma boa gestão, e uma capacidade
de envolvimento, articulação cujas possibilidades de iniciativa são abortadas
com comentários como este... Por que não vamos à Nabileque fazer essa demanda
surgir intrínseca? Ou não... vamos pelo caminho mais fácil... "baixa"
um decreto em cima da área... A propósito, consulta pública, em 2000, já era
assunto antigo sim... discutido há mais de uma década até sua consolidação
no Snuc.
Saudações.
A tal camiseta...
Tietta Pivatto 05/03/2009 16:17:52

Olá Reuber
Eu fui uma das desavisadas que foi ameaçada dentro do Banco por uma
proprietária enfurecida apenas por estar usando uma camiseta favorável ao
Parque. Após dez anos morando em Bonito e acompanhando o processo
pós-criação, inclusive fazendo parte da equipe que inventariou a fauna do
Parque, vejo que a relação com a UC é melhor, embora a frustração por ainda
não estar definitivamente instalado e recebendo visitantes seja compartilhada
por vários moradores. Os do contra quase não se ouve mais, mas no fundo ainda
guardam o desejo da reversão do processo.
O parque pode ser um aliado do
segmento turístico da região, atraindo turistas em busca dele mas que também
irão utilizar a estrutura de Bonito e dos outros municípios, incluindo
derivados da produção agropecuária.
Eu continuo torcendo para que a
burocracia se desembarace para poder visitá-lo não como técnica, mas como
turista. E também nunca entendi de onde surgiu a delimitação estrategicamente
recortada...
A idéia foi boa mas.......
Roberval Martins 05/03/2009 17:31:36

Para quem não sabe e gosta de história as lutas e as batalhas são sempre
lindas e empolgantes e essa pode ter sido a história da criação do parque da
Serra da Bodoquena, porem o que se ve eo que se sabe hoje é que o parque só
existe no papel, e como tudo desse governo, é uma tremendo elefante branco até
o momento, pois o parque continua a ser explorado por fazendeiros que continuam
a retirar madeiras nobres e este mesmo parque continua a sofrer com as
incurssões de sem terras adentro matando e caçando seus animais, é uma
vergonha depois de tanto bla bla bla o governo não tenha pago e terminado por
definitivo as desapropriações, existe muita mentira , inclusive de gente do
própio IBAMA do MS que continua enganado pessoas de boa fé que tiveram suas
propriedades desapropriadas e não receberam um centavo até hoje, dizem la
pelas bandas daquele "departamentuzinho" que os diretores estão
negociando creditos de carbono , é um verdadeiro absurdo isso, o governo
deveria criar vergonha e empenhar mais recursos para essas UCs e deixar de
alimentar o sitema bancário e de automóveis que sempre arrecadaram tufos de
dinheiro. Mas conservação nunca deu dinheiro (impostos) para os bolsos do
alheio , olha aí as usinas do madeira. Voltando ao Parque da Serra Bodoquena
este , esta totalmente abandonado como todos os outros parques deste país
"é uma vergonha" depois de quase uma década ainda tem fazendeiro
dentro do parque tirando madeira nas barbas dos gestores e essses coitados nada
podem fazer porque estão de mãos atadas, o governo ainda não saldou 75% do
então chamado parque nacional da serra da bodoquena.Algumas histórias, as
pessoas envolvidas na criação do parque deveriam levar á pulblico e explicar
o porque que essas areas , acima citadas, foram retiradas do desenho inicial,
explicar que muitos desses proprietários eram amigos dos de****dos e senadores
da vida, esse tipo que perdura até hoje nas casas de lei de brasília - com
amigo meu não se mexe.
Seguimos lutando a favor da conservação , porem com a
ajuda desses governantes estamos fadado a duplicar nossas lutas para salvar um
pouco , para as gerações futuras.
Bodoquena - parque de papel
Marcelo de R Barbosa 06/03/2009 05:19:24

No inverno andamos no leito de rio, é intrigante, as rochas com cara de porco
espinho. No verão, no mesmo local, violenta corredeira.
Por todo lado
árvores pré-históricas, gigantescas, sobre um solo de 15cm, sobre pedra
calcarica.
Na beira do caminho encontramos sumidouros, descemos por um deles,
mais de 70 metros e a corda não deu pra chegar no fundo.
Investigando um
córrego afluente do Rio Perdido, achamos a nascente - um paredão com
desmoranamento - a água fluia em grande velocidade e volume, pela
"parede".
Subimos o rio com trator, através dos vales, pelas estradas
madereiras, atiramos o barquinho Zefir, descemos o Rio Perdido por 30 km, 2
grandes corredeiras, e uma caverna maravilhosa que entramos de barco, como um
estaleiro.
Estas aventuras passaram-se nos anos de 1987 e 1988, na Fazenda
Campo Verde.
Hoje estes locais virarão um parque de papel.
Um local sem dono
- é triste.
Desconhecia este movimento que originou o parque.
Mas e agora? O
que fazer?
O parque de papel deve ter um monte de regras, pode isso, não pode
aquilo ... pra que?
Quero voltar e passar horas, a toa, perambulando pelo Rio
Perdido.

Saudações.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
Reuber Brandão 06/03/2009 08:58:50

Prezado Antônio,

Na verdade, é muito mais fácil criar uma RDS ou uma
RESEX que uma unidade de conservação de proteção integral.É muito mais
difícil comprar a briga de destinar locais de especial interesse para a
conservação para proteção integral, que integral o bloco do
subdesenvolvimento sustentável. Conciliar conservação com pessoas pode ser
feito em qualquer lugar, até mesmo em cidades. É imoral testar modelos e fazer
experiências em lugares de grande relevância biológica. Porque não é feito
o contrário: implementar modelos de extrativismo sustentável nos assentamentos
já existentes? Porque é necessário abocanhar áreas naturais para depois
buscar o utópico sonho da relação harmoniosa do ser humano com a natureza?
Esse sim deveria ser o usual no processo e não o contrário.
Reuber
Parabéns
Angela Pellin 06/03/2009 10:51:15

Parabéns Reuber pelo artigo... agora todos nós estamos torcendo para que
regularização fundiária do Parque e sua implantação sejam o mais breve
possível.
Também gostaria de parabenizar a Márcia Brambilla, Silvia
Torrecilha e Gláucia Seixas... pessoas que eu admiro pela coragem,
determinação e capacidade de lutar por uma causa coletiva e tão importante
como essa.
Proteção Integral é Social também
Ivan Salzo 07/03/2009 21:34:13

Os autores abordam aspectos essenciais: a dificuldade de incorporar alternativas
arrojadas ao desenvolvimentismo e a de compreender o papel do Estado. Nenhum
indivíduo é mau por ter defendido os próprios valores sob contexto cultural
como o de antes da criação do Parque da Bodoquena no MS. Por vezes, cabe ao
Estado impor as mudanças desejadas por quem pensa no futuro. Alguém condena
hoje o fim da escravidão legal? Quem condenará a criação do Parque Legal?
Atualmente, estabelecer uma dicotomia entre "social" e
"ambiental" é ser incapaz de enxergar além das cercas e muros que
delimitam os domínios particulares. Não é o que se espera do Estado. As
carnes e outras commodities produzidas no Mato Grosso do Sul são ofertadas a
preços competitivos porque neles não são necessariamente incluídos os custos
ambientais e sociais desejáveis. A Serra da Bodoquena não é exceção: nela
proliferam locais onde o somatório das racionalidades econômicas individuais
é um desastre irracional sobre o meio ambiente e a sociedade. Sem dúvidas, a
preservação da área do Parque Nacional justifica as oportunidades de ganhos
perdidas. Os problemas na implantação dele não devem almejar questionamentos
sobre o significado de sua criação. O Parque protege muito mais do que o
revestimento biológico inserido nos seus limites.
Fotos do desmatamento no Pqe
Fabio Pellegrini 09/03/2009 07:00:08

Tenho fotos do desmatamento em áreas do Parque, mais especificamente em
fazendas e assentamentos, nestes últimos, devastam morrarias para arrendar
terras aos reis do gado, além do turismo descontrolado. As fotos, inclusive,
encaminhei à Polícia Militar Ambiental de MS. Sinceramente, o PNSB só existe
no papel. Disponibilizo as fotos para os interessados.
eu quero as fotos
Ivan Salzo 09/03/2009 11:26:14

Fabio, por favor as encaminhe para isalzo@yahoo.com.br, com a descrição do
acesso.
Bodoquena e Nabileque
Walfrido Tomas 11/03/2009 05:01:12

Prezado Reuber

É sempre bom manter as histórias vivas, e o esforço vale a
pena por conta da conhecida memória curta que parece ser um traço brasileiro
quase evolutivo. Enfim, a história merece mesmo ser documentada e ser usada
como exemplo de mobilização, resistência, êxito e também das falhas ou
metas não atingidas. Por esta iniciativa eu tenho que parabenizar.
Por outro
lado, na última revisão das áreas prioritárias para conservação foram
apontadas áreas a serem anexadas ao Parque da Bodoquena, e estas merecem
cuidado. Nas discussões com os grupos de especialistas e comunidades ficou
claro que a efetividade do Parque depende da anexação destas novas áreas, uma
vez que a serra da Bodoquena está em grande parte desmatada e sua vegetação
original fragmentada. Assim, este detalhe não pode deixar de ser observado, e a
luta para efetivar a proteção destas áreas não pode ser esmorecer.
Quanto
ao Nabileque, acho que é um aspecto que ainda merece alguma análise. No
Pantanal do Mato Grosso do Sul ainda não existe nenhuma unidade de
conservação de proteção integral, o que é um absurdo (Bodoquena está fora
do Pantanal, é bom que se diga). Cerca de 65% do Pantanal estão no MS, e
paisagens muito peculiares estão nesta região. O Nabileque não seria a área
mais importante para uma nova unidade de conservação no Pantanal Sul. Se o
objetivo é conservação de biodiversidade, basta olhar o mapa atualizado das
áreas prioritárias para conservação, de 2007, para ver que as prioridades
estão em outra região, notavelmente na borda oeste do Pantanal e na
transição do Pantanal do Abobral para as áreas mais altas no Pantanal da
Nhecolândia. No Pantanal, gradiente altitudinal significa variação espacial
do padrão de inundação e também variação de vegetação, de flora e de
fauna. Significa diversidade em todos os níveis. Assim, a prioridade deve
recair sobre este tipo de situação.
Isso não significa que no Pantanal do
Nabileqee não existam prioridades. Em sua porção sul, esta área do Pantanal
contém as únicas áreas de Chaco do Brasil, tido de ecossistema nem sequer
reconhecido pelos mapas de "biomas" do IBGE. E este ecossistema está
desaparecendo rapidamente por conta de desmatamento. Existem áreas de Chaco com
florestas de morros, de áreas de semi-árido típico de áreas planas
chaquenhas e também áreas de Chaco úmido. Estas áreas deveriam ser
prioridade máxima, por se tratar de amostra única no Brasil e que estão sendo
rapidamente desaparecendo. Sua diversidade biológica é ainda pouco conhecida,
mas certamente ali existem espécies de distribuição bastante restrita no
Brasil, de plantas a vertebrados.
Há também nesta área um monumento natural
ameaçado, que é o Fecho dos Morros, considerado a "rolha do Pantanal".
São formações de granito que regulam a vazão do rio Paraguai e assim
inlfuenciam na velocidade da drenagem da planície de inundação. Já houve
tentativa de implodir as rochas do leito do rio para permitir a navegação de
embarcações de maior calado com minério de ferro e manganês, o que seria um
crime de proporções épicas. Portanto, proteger este monumento natural de
forma absoluta é mandatório e urgente.
Para encerrar, é preciso verificar
também que as áreas de cerrado e florestas nas enconstas da Serra de Maracaju,
na transição (às vêzes abrupta) para o Pantanal também são prioritárias.
Há espécies endêmicas nesta região, como uma Pirrhura que só ocorre nestas
áreas, desde a região de Coxim até a serra da Bodoquena. Endêmica do estado
do MS e endêmica da Bacia do rio Paraguai. Portanto, existem prioridades já
definidas para o estado, basta agora ações efetivas para a proteção de
amostras significativas do que restou intacto (ou quase)....

Assim, acho que
estas coisas precisam entrar na pauta de decisões por parte do Ministério do
Meio Ambiente, porque não é possível que um estado que pretende estar
entrando no modismo do desenvolvimento sustentável não tenha mais que umas
poucas áreas protegidas oficiais (muitas de tamanho muito reduzido e assim
ineficazes). Neste sentido, a iniciativa privada está muito à frente, graças
às decisões pessoais de verdadeiros visionários e pessoas com ideais nobres,
e também da REPAMS com seu programa de incentivos à criação de RPPNs.

E
é bom que se diga que não se trata de enfrentamento entre conservação e o
setor ruralista. Trata-se de preservar aquilo que pertence a todos e que o que
se busca é um mosaico de formas de uso do solo que seja diversificado e feito
dentro de parâmetros que garantam a conservação de biodiversidade e outros
serviços ambientais. E, neste contexto,proteger amostras de ecossistemas é uma
destas formas de uso.
É uma luta árdua, mas não pode haver retrocesso. Pode
desagradar alguns, mas para o bem de todos, precisa ser
feito.

Abraço

Walfrido
É preciso conhecer para defender uma idéia...
Rafael Zanelato 13/05/2009 15:27:53

Este artigo é típico de ambientalista de escritório. Conhece a região por
fotos, reportagens e Google Earth. A região citada é uma das mais conflituosas
do Estado na qual o embate entre conservação versus latifúndio é só uma
parte. Temos que considerar nesta análise o MST (assentamento Canaã) e a
reserva indígena Kadiweu. O problema no Brasil não está em se criar uma
unidade de conservação e sim como situá-la na realidade existente e dar
manutenção. O parque está para completar 10 anos e ainda não indenizou todos
os proprietários e possui (pasmem ! ) 02 funcionários para tomar conta de
76400 hectares. Num país sério a criação de um parque só ocorre com um
projeto que prevê verba indenizatória e recursos para sua manutenção e
proteção. O que existe hoje, bem citado anteriormente, é uma área para
extração ilegal de madeira e para matança de animais silvestres pelos
sem-terra.
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