Análises

A semana em que Rousseau matou o urso

Proibição do comércio internacional de espécies ameaçadas como o urso polar trava no discurso do direito das “populações tradicionais”.

José Truda Palazzo, Jr. ·
8 de março de 2013 · 9 anos atrás
Na Cites, o urso polar perdeu para a política de “gestão tradicional de recursos naturais”. Crédito: Wikimedia Commons.

A pior coisa que pode acontecer com a gestão ambiental pública é cair vítima dos fanatismos ideológicos como predeterminantes das políticas de atuação. Isso infelizmente vem acontecendo de forma cada vez mais frequente, relegando o conhecimento técnico-científico, que deveria embasar as ações de gestão, a um plano inferior.

Talvez a pior e mais daninha faceta dessa ideologização seja a opção cada vez mais explícita dos governantes pelo mito do Bom Selvagem de Rousseau, traduzido no linguajar contemporâneo como “gestão tradicional dos recursos naturais”. Na prática, significa uma licença ampla para que “comunidades tradicionais”, definidas conforme a conveniência política, possam delinquir impunemente contra o patrimônio natural comum.

Os reflexos dessa demagogia já alcançamas políticas internacionais, como ficou tristemente lavrado aqui na CITES com a rejeição da proposta dos Estados Unidos de se proibir o comércio internacional de produtos de urso polar, uma espécie criticamente ameaçada pelas mudanças climáticas, mas sobre a qual o tráfico de peles e troféus exerce uma pressão adicional tremenda.

Não foi adotada sequer a proposta mais moderada da União Européia, de que os países exportadores estabelecessem cotas pré-determinadas para a exportação de produtos de ursos polares. Os principais oponentes das propostas, Canadá e Dinamarca, trouxeram para a reunião seus “esquimós”, que fizeram ar de pobrezinhos injustiçados e alegaram sua “cultura tradicional” para continuar atuando como fornecedores do tráfico internacional de peles para mansões de ricaços excêntricos e de troféus para caçadores bem branquinhos e abastados.

Subsidiados pelo governo canadense, os pobres povos tradicionais montaram aqui em Bangkok um enorme e bem abastecido stand de propaganda, onde até pen drives como seus arrazoados eram distribuídos gratuitamente.

Balela de “esquimós”

“”A carne das baleias abatidas “tradicionalmente”, está provado, acaba em supermercados na Dinamarca”

Não por coincidência, pelo lado da Dinamarca, representou os “pobres povos tradicionais da Groenlândia”, a mesma senhora sinistra que vai à Comissão Internacional da Baleia defender a matança “tradicional” de centenas de baleias do Atlântico Norte, inclusive as jubartes que se reproduzem na República Dominicana e são essenciais ao turismo de observação naquele país.

A carne das baleias abatidas “tradicionalmente”, está provado, acaba em supermercados na Dinamarca, mas a farsa continua sendo tolerada, assim como aceito aqui o argumento canhestro do “comércio internacional tradicional” dos últimos ursos polares pelos esquimós de araque.

Essa politicagem toda não é nova na CITES, e a grande culpa disso deve-se atribuir também ao lobby feito pelas BINGOs (Big International NGOs) para vender o peixe do “manejo tradicional” do comércio internacional de fauna como panacéia de conservação. Fizeram isso, como mencionei no texto anterior neste Blog, com os elefantes africanos nos anos 90, e agora a CITES está encurralada por um aumento bestial no contrabando e comércio de marfim, que ninguém parece saber como conter. Houvesse pulso em reuniões anteriores para impedir que exceções legais fossem abertas e o tráfico de marfim teria acabado, e os elefantes estariam em muito melhor situação.

O stand canadense com a campanha contra a proibição de comércio internacional de produtos de ursos polares. Foto: José Truda.

Avanços apesar do fogo amigo

“A IUCN e seus satélites WWF e TRAFFIC, uma rede de monitoramento do tráfico de fauna e flora, volta e meia surgem por aqui com posições favoráveis ao tráfico, entendíveis somente como uma tentativa de criar dificuldades para vender facilidades”.

A boa surpresa por enquanto ficou por conta da aprovação unânime da proibição do comércio do manati africano, espécie criticamente em perigo. O curioso, entretanto, foi que apesar do apoio integral dos países africanos a proposta, a IUCN (União Mundial para a Conservação) circulou uma posição contrária a proteção da espécie, apesar de cientistas especialistas em sirênios ligados aos grupos técnicos da própria entidade reconhecerem o seu estado crítico.

A IUCN e seus satélites WWF e TRAFFIC, uma rede de monitoramento do tráfico de fauna e flora, volta e meia surgem por aqui com posições favoráveis ao tráfico, entendíveis somente como uma tentativa de criar dificuldades para vender facilidades. No caso, fazendo lobby contra a proteção dos manatis alegando a “falta de dados” suficientes, talvez para depois aparecerem lépidos e faceiros oferecendo seu “apoio técnico” aos países africanos, para desenvolver estudos mais aprofundados.

No ambientalismo como na vida, nem tudo é o que parece.

Um par de eventos paralelos realizados esta semana buscou ampliar o apoio dos países às propostas de restrição do comércio de tubarões e raias-manta, com a presença de pesquisadores respeitados de vários países e, pela primeira vez, uma presença forte de mergulhadores interessados no uso não-letal dessas espécies. Este é um argumento raramente ouvido nesta Convenção, que mais promove do que restringe o tráfico de espécies selvagens.

O Brasil segue tendo atuação diplomática discreta demais na defesa das propostas, ainda que tenha se escutado que o Ministério do Meio Ambiente vai tentar vitaminar as conversas bilaterais com os países contrários, preenchendo o gritante vazio de atuação do Itamaraty a partir de Brasília. Esperamos que funcione, porque no final será o empenho da ainda claudicante diplomacia de países como o nosso que determinará a sorte dos animais marinhos ora ameaçados pelo crescente tráfico internacional.

 

  • José Truda Palazzo, Jr.

    José Truda é jardineiro, escritor, consultor em meio ambiente especializado em conservação marinha e tratados internacionais, e indignado.

Leia também

Notícias
13 de outubro de 2021

Desmatamento na Amazônia em setembro chega perto de 1000 km², aponta INPE

Sistema de alertas Deter indica que este é o segundo pior setembro da série histórica. Números ficam atrás apenas de 2019, quando os alertas indicaram perda de 1.454 km²

Notícias
13 de outubro de 2021

Área de pasto cresceu 200% na Amazônia nos últimos 36 anos

Atualmente, pastagens ocupam 154 milhões de hectares em todo país, área equivalente a quase todo estado do Amazonas, mostra levantamento do Mapbiomas

Colunas
13 de outubro de 2021

10 livros para mergulhar em conservação, parte 3: o canto do dodô

Dando sequência na série sobre grandes livros da conservação, apresento a obra-prima do jornalista David Quammen, um livro de um não-cientista que qualquer cientista teria orgulho de ter escrito

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta