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Preenchendo com vida a floresta vazia PDF Imprimir E-mail
Fernando Fernandez   
02 Set 2009, 10:05
Poucas limitações humanas são tão incontornáveis quanto a impossibilidade de voltar ao passado. A seta do tempo aponta em uma só direção. Por mais que o desejemos, não podemos trazer de volta os Beatles, ou a vida mais tranquila de uns anos atrás, ou os mamutes. Ou será que podemos? Os Beatles e a vida mais tranquila eu não sei, mas pelo menos no caso dos mamutes há quem tenha esperanças.

Já se falou, por exemplo, em reconstruir mamutes a partir de pequenos fragmentos de DNA extraídos de exemplares mortos há poucos milhares de anos, que continuam sendo encontrados na Sibéria. Seria maravilhoso, sem dúvida, mas infelizmente vários pesquisadores, entre eles o geneticista da UFRJ Antonio Solé-Cava, já mostraram que isso não é possível. Os fragmentos de DNA remanescentes são pequenos demais, fragmentados demais, para que possamos ter esperança real de trazer um mamute de volta. A proposta era hibridizar os genes de mamute com genes de elefante atual, mas o resultado seria, na verdade, um elefante comum com uma ínfima proporção de genes de mamute, de efeito talvez imperceptível no fenótipo (aparência) do bicho. Confesso uma certa tristeza ao dizer isso, mas essa maneira de trazer de volta o passado pertence apenas ao domínio da ficção científica, no melhor estilo de Jurassic Park.

A idéia do reasselvajamento do pleistoceno

Há, porém, outras idéias. Em 2005, num artigo na prestigiada revista científica Nature, Josh Donlan e colaboradores lançaram uma proposta a qual, num certo sentido, é muitíssimo mais grandiosa do que “simplesmente” ressuscitar os mamutes. Trata-se do “pleistocene rewilding”, ou reasselvajamento do pleistoceno (por simplicidade, e porque a tradução em português ainda não é consagrada, vou me referir a isso simplesmente como “rewilding”). A idéia consiste em nada menos que reconstruir a fauna de grandes vertebrados que a América do Norte tinha até o final do período pleistoceno, há uns dez mil anos. Essa fauna incluía mamutes, camelídeos, cavalos selvagens, leões, guepardos e várias outras espécies. Para reconstruí-la, Donlan e seus colegas propuseram a maciça introdução na América do Norte de uma fauna inteira, composta por parentes próximos das espécies extintas, os quais sobreviveram em outros lugares do planeta. Isso incluiria elefantes (para substituir os mamutes), leões para subsitutir a subspécie norte-americana extinta Panthera leo atrox, mais camelos, cavalos selvagens e guepardos, entre outros, vindos da África e da Ásia. Esses animais seriam introduzidos nas grandes planícies centrais dos Estados Unidos, onde há vastas áreas de vegetação aberta que poderiam fornecer pastos para os grandes herbívoros. Esta é uma região onde populações humanas esão declinando nas últimas décadas.

Não, você não leu errado, nem está sonhando. A idéia é esta: trazer de volta um ecossistema inteiro perdido. Perto disso, reconstruir mamutes vivos é café pequeno. O rewilding já está muito perto de acontecer. Já existe até o Rewilding Institute, criado para isso. E antes que eu me esqueça, o mesmo já foi proposto, para o Pantanal brasileiro, por Mauro Galetti, ecólogo e professor da UNESP de Rio Claro.

Entendendo o sonho de Paul Martin

Acho que posso entender bem a motivação dos advogados do rewilding. O primeiro deles, e um dos co-autores de Donlan, foi Paul Martin. Foi o mesmo Martin  quem propôs, em 1967, que a última grande onda de extinção, que começou há uns 46 mil anos na Austrália e foi até uns meros quinhentos anos atrás na Nova Zelândia, foi causada pelo homem. Nesse período, o planeta perdeu uma espetacular coleção de grandes animais, incluindo os mamutes, mastodontes e várias outras espécies de elefantes, as preguiças gigantes na América do Sul, rinocerontes lanudos na Europa, a ave elefante de meia tonelada em Madagascar, “hipopótamos”, “tamanduás” e “leões” marsupiais na Austrália e os moas de três metros de altura na Nova Zelândia, entre muitas outras maravilhas. Atualmente, a grande maioria dos pesquisadores dessa área concorda que caça excessiva pelo homem foi a principal causa, senão a única causa, dessa maciça onda de extinção.

Não é meu objetivo aqui descrever as extinções do pleistoceno-holoceno. Para isso, recomendaria o livro do próprio Martin, “Twilight of the Mammoths”. Mas quero argumentar que a percepção de que essas extinções foram causadas pelo homem é sem dúvida uma das motivações fundamentais da idéia de rewilding. Acho que posso entender a dor do Paul Martin ao perceber que esses bichos maravilhosos que ele estudou e certamente ama tinham sido extintos por nós - porque anos depois senti essa mesma violenta dor ao aprender isso nos trabalhos dele. Que sensação de frustração, de perda, de como tudo poderia ter sido tão diferente! Será que é difícil entender que alguém sinta, numa hora assim, uma imensa vontade de trazer o passado de volta?

Rewilding pode funcionar?

A bem da justiça, é preciso dizer que o planejamento do rewilding está sendo feito de forma cuidadosa, e baseando-se, dentro do possível, em princípios científicos. As espécies a serem introduzidas são aquelas, entre as viventes, que seriam substitutas tão próximas quanto possível da ecologia das espécies extintas do pleistoceno da América do Norte. A idéia é de que as introduções comecem por experimentos em pequena escala, cuidadosamente monitorados, em áreas cercadas onde as populações de cada espécie devem estar, pelo menos em princípio, sob controle.

No entanto, pode-se argumentar que os problemas com o rewilding são muito maiores e mais fundamentais que isso. Recentemente, meu colega Luiz Gustavo Oliveira-Santos e eu enviamos uma carta para a revista Conservation Biology, criticando a idéia por não levar em conta adequadamente o aspecto da história evolutiva das espécies envolvidas. A ecologia é, em sua própria essência, uma ciência histórica. Um ecossistema não é um mero conjunto de espécies jogadas juntas num mesmo meio físico. As espécies de cada ecossistema estão ligadas por uma série de interações ecológicas que evoluíram durante milhões de anos, entre predadores e presas, entre herbívoros e plantas, entre parasitas e seus hospedeiros, entre sementes e seus dispersores, e por aí vai.

Donlan, Martin e companhia alegam justamente que o rewilding poderia restaurar os processos ecológicos que foram perdidos nos ecossistemas da América do Norte com as extinções de dez mil anos atrás. Mas o reasselvajamento do pleistoceno no fundo nada mais é que uma proposta de introdução de espécies exóticas, numa escala gigantesca. Um elefante atual tem uma ecologia bem diferente de um mamute, e os leões, guepardos e camelos atuais são diferentes dos que extingiram na América do Norte há dez mil anos. Por mais cuidadoso que seja, rewilding envolve um conjunto de espécies que não têm uma história de coevolução umas com as outras. A trágica crônica das espécies introduzidas - uma das maiores causas de extinções ao longo da história - nos mostra que é bem provável que as interações não funcionem como desejado. Pior ainda, mostra também que é ainda mais provável que interações não previstas e não desejadas apareçam, com consequências potencialmente desastrosas.

Por exemplo, Donlan e companhia alegaram que a introdução do guepardo, o animal terrestre mais rápido do mundo, poderia reconstruir uma relação predador-presa envolvendo a antilocapra (Antilocapra americana), um mamífero norte-americano rapidíssimo. Mas é preciso combinar bem com os guepardos! O guepardo atual (Acinonyx jubatus) é de uma espécie diferente do guepardo norte-americano do pleistoceno (Acinonyx trumani), e o seu ambiente do pleistoceno também não existe mais. E se os guepardos atuais, na situação ecológica atual da América, preferirem outras presas mais fáceis que as antilocapras?

Trazer o pleistoceno de volta? Ninguém gostaria mais disso do que eu, que cresci lendo fascinado sobre mamutes e tantos outros bichos espetaculares do passado. Mas, para mim, colocar uma coleção de mamíferos africanos e asiáticos na América do século XXI não é exatamente trazer o pleistoceno de volta. Além disso, pode trazer problemas de conservação ainda maiores, sob forma de desbalanços ecológicos, doenças e pragas. Os riscos são imensos.

Uma alternativa: a refaunação

De um modo ou de outro, a discussão sobre o rewilding pode ter um papel útilissimo: o de jogar o foco da conservação sobre a possibilidade de reconstruirmos, sim, comunidades animais perdidas, e processos ecológicos perdidos.
Gustavo e eu propomos uma alternativa mais modesta, mas igualmente motivadora, ao rewilding: a refaunação. A idéia da refaunação é restaurar o máximo possível da área de distribuição geográfica de espécies atuais, reintroduzindo-as em lugares onde tenham sido localmente extintas.

Explico. Em 1992, Kent Redford chocou o mundo da conservação ao falar das florestas vazias, ou seja, florestas sem bichos dentro. Em vastas áreas de florestas tropicais, muitas espécies de grandes animais já foram exterminadas pela caça (comercial ou de subsistência). Você pode ver uma bela floresta numa imagem de satélite, e imaginar que ali deve haver muitos bichos, mas essa é uma expectativa cada vez mais ingênua. Sem os bichos, também não há os processos ecológicos que dependem deles. Pilhas de sementes apodrecem no solo, porque seus dispersores - mamíferos e aves de médio e grande porte - já foram exterminados localmente. Sem a dispersão das sementes, a própria floresta não tem futuro, pois não há mais reprodução das grandes árvores.

O mundo está cheio de florestas vazias, especialmente nas regiões tropicais ricas em biodiversidade, nas quais interações ecológicas estão esperando para serem restauradas pelas mesmas espécies para as quais estas interações um dia evoluíram. Refaunação, em contraste com rewilding, teria o objetivo de repor extinções locais e recentes, ao invés de globais e antigas, e utilizaria espécies nativas ao invés de exóticas. Uma maciça refaunação iria produzir imensos benefícios para a biodiversidade, sem incorrer no risco de produzir interações indesejadas.

Nós propomos então uma agenda alternativa para a conservação do século XXI: encher as florestas vazias, por refaunação com espécies nativas. Ou, como diz Bruno Cid, do meu laboratório, “repovoar o mundo com rodentias” . “Rodentias” se refere aos roedores como cutias, pacas e pacaranas, excelentes dispersores de sementes. Além deles, claro, queixadas, catetos, onças, antas, mutuns, jacutingas e outras espécies são candidatas naturais para a refaunação.

Não estou subestimando as dificuldades envolvidas na reintrodução de espécies nativas. É um processo extremamente trabalhoso e difícil. Em primeiro lugar, é preciso que a causa que extinguiu localmente a espécie tenha parado de atuar. Mesmo se assim é, ainda é preciso se assegurar que os animais estão de fato sendo reintroduzidos em sua própria área de distribuição (a procedência de apreensões frequentemente é incerta). Depois, é preciso se assegurar de que os bichos tenham um mínimo de variabilidade genética, estejam saudáveis, sejam acostumados aos poucos ao novo ambiente, e sejam monitorados pós-soltura para se garantir que estejam sobrevivendo bem.

Dito isso, mesmo com todos esses problemas, cada vez mais reintroduções bem feitas de espécies nativas estão acontecendo por aí. E uma vez que a floresta deixe de estar vazia, não só seus processos ecológicos voltam a funcionar, como também ficam mais fortes os argumentos para protegê-la das fortes pressões, óbvias ou disfarçadas, que as florestas cada vez mais vem sofrendo.

Uma agenda positiva

A meta da refaunação me entusiasma muito. Afinal, se há uma coisa triste na luta da conservação, é essa nossa sensação de que estamos sempre travando uma batalha de retirada. Sempre lutando desesperadamente apenas para impedir que percamos mais alguma coisa. Está mais do que na hora de a conservação adotar uma postura mais agressiva, no bom sentido. A refaunação é uma perspectiva maravilhosa, um objetivo de vida maravilhoso, justamente porque oferece uma agenda positiva - fazer o mundo melhor, não apenas impedir que ele se torne pior. Acho que breve vai chegar o dia em que eu vou ver, numa floresta, uma espécie de cuja reintrodução eu mesmo participei. Não sei se vai ser tão emocionante quanto seria ver um mamute, vivinho, na minha frente. Porém, ao contrário do mamute, é um sonho possível, que vale a pena sonhar.
Comentários
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Meus parabéns pela lembrança !
João Carlos de Souza Carvalho 02/09/2009 14:55:34

A Refaunação já está sendo aplicada no Brasil no Parque Estadual do Vale do
Rio Doce pelo Azeredo com Mutuns do Sudeste e Macucos e está funcionando. O
problema lá são alguns "poachers" renitentes .Não confundir com
"Hunters", o que orgulhosamente sou e que seriamos os maiores apoiadores
e fiscais da Refaunação.
Parabéns Fernando
Paulo Bezerra 02/09/2009 15:54:48

Veja a Instrução Normativa do IBAMA nº 179 que trata desse assunto
especificamente e boa sorte, sugiro começar por um projeto de lei, pois tem
muita coisa para consertar.
Lembrar da contribuição dos criadores...
José Bernardino 02/09/2009 18:39:11

Caros(as),

A COBRAP (Confederação Brasileira de Criadores de Pássaros
Nativos) tem projetos de reintrodução de espécies, como o bicudo por ex., e
que até hoje não se realizou devido proibições por parte do IBAMA. E isso
seria muito mais barato do que qualquer tipo de projeto científico, pois pode
ocorrer em um menor espaço de tempo, com custo menor, custo esse bancado pelos
criadores.
São criadores comerciais e amadores de passeriformes dando sua
contribuição.
Apesar de alguns acharem que a criação em ambiente controlado
deveria ser extinta.
Fábio 03/09/2009 04:09:58

A reintrodução de queixadas em locais onde foram localmente extintos por
caçadores, como no Parque Nacional do Iguaçu, seria tanto simples como
desejável. Com um pé no Pleistoceno, seria também interessante um
projeto-piloto sobre a (re)introdução de cavalos e jegues ferais em áreas de
Cerrado. Várias espécies nativas de equídeos muito similares às atuais foram
extintas na América do Sul no final do Pleistoceno e o sucesso de populações
livres como os cavalos lavradeiros e os vários crioulos mostra que há um nicho
vago que pode ser preenchido. Os benefícios? O restabelecimento de sistemas de
dispersão de sementes, o consumo de biomassa que alimenta incêndios durante as
secas, a criação de um mosaico de habitats sob diferentes intensidades de
pastejo (fundamental para várias aves) e onças mais felizes.
Só lembrando....
Fábio 03/09/2009 04:17:20

Por sinal, projetos de refaunação são tão rotineiros em áreas protegidas de
países com tradição de manejo em áreas protegidas, como África do Sul (veja
http://wta.org.za/), Nepal, Austrália e Nova Zelândia, quanto aparar a grama
do jardim, alguns envolvendo dezenas de espécies e milhares de animais. Aqui
ficamos promovendo reuniões técnicas para fingir que algo foi feito ao invés
de por a mão na massa.
Isso...
José Bernardino 03/09/2009 11:34:28

Concordo com o Fábio, acontecem muitas reuniões e de fruto real nada é feito.
Esta na hora de todos os seguimentos darem as mãos e a contribuição de cada
um. Como disse anteriormente, os criadores de passeriformes através de
entidades como a COBRAP estão dispostos a isso e custeando a reintrodução,
basta obtermos a autorização por parte dos orgãos competentes...

Abraços
a todos,
JB
Refaunação de nossos rios...porque não?
Thomaz Lipparelli 03/09/2009 12:20:00

Parabéns Fernando. Também tenho refletido muito sobre a refaunação de nossos
rios, ameaçados pela pesca predatória. No Pantanal as espécies comerciais
estão sendo dizimadas e não podemos ficar esperando a recuperação natural.
Você nos motivou a estudar mais sobre o assunto. Estamos atentos. Grande
abraço.
Quem trará de volta os fungos do pleistoceno?
Igor Pfeifer Coelho 03/09/2009 19:46:09

Tenho outra visão do que seja conservação da natureza. Para uma conservação
em nível de ecossistemas (não espécies, embora ações nesse nível possam se
justificar boas estratégias para níveis hierárquicos superiores) e de
processos evolutivos (tomem eles os rumos que forem tomar, não os que nós
possibilitarmos ou desejarmos) concentrar esforços para preservar táxons que
nos são mais úteis, ou que gostamos mais, não me parece boa estratégia. Por
que não manejar o homem, suas ações e relações com o ambiente? Investir em
áreas protegidas efetivas e educação. Processo longo sim, utopia não. De
imediato só se salvam zoológicos. Refaunar me parece um “ecozoológico” e
não uma boa estratégia de conservação em nível de ecossistema. Mais me
parece uma ação em nível de guilda, “guilda dos prediletos funcionais”
(geralmente grandes vertebrados dispersores de sementes ou predadores topo).
Ainda, a informação atual sobre estrutura e funcionamento de ecossistemas lhes
parece suficiente para dar suporte a um manejo de tal nível, especialmente nos
trópicos? E o conhecimento acerca de genética de populações, unidades
evolutivas, unidades ecológicas?
Adoraria ter vivido no pleistoceno, mas
também adoro minha época e desejo que as próximas épocas venham do jeito que
vierem, não como determinarmos pela nossa relação planejada com o “resto”
do mundo (seja pelo “bem”, “protegendo” determinados táxons ou pelo
“mal”, extinguindo outros).
Acompanhar o dia-a-dia de um CETAS é uma boa
escola para ver que se não manejarmos nós mesmos ficaremos apenas secando gelo
por muito tempo.
bacana!
Priscila Cavalcanti 04/09/2009 16:27:20

Gostei muito. A idéia do rewilding parecia mesmo uma coisa de Jurassic Park,
com vistas a filme de terror. A refaunação, por outro lado, parece um projeto
menos ambicioso, mas calcado na realidade e em segurança. Já que nossas
desfalcadas florestas não podem mais sofrer consequências dos erros impensados
dos humanos.
acreditar!!
Vanessa Ariati 04/09/2009 18:10:21

Gostei! "fazer o mundo melhor, não apenas impedir que ele se torne
pior", é possível! Vejo comentários de conservacionistas pessimistas e
fico triste. Valem os sonhos, as boas idéias e atitudes que se sucedem.
Biloxi Blues 05/09/2009 14:21:08

Ehehehee!!

A COBRAP como sempre tentando pegar uma caroninha. Acabei de
visitar o site da organização e não achei nenhum vislumbre do tal projeto
proposto de "reintrodução de espécies". É a velha tentativa de dar
um verniz "científico" ao criador amadorista. Nada a ver....
Que a idéia pegue...
Peter Crawshaw Jr. 06/09/2009 10:00:08

Parabéns, Fernando (e Gustavo) por colocarem a refaunação na pauta, de forma
tão brilhante (aliás, como de costume). Ainda temos que unir forças na
iniciativa, convencer os céticos, e trazer recursos. Não é simples, mas
certamente valerá a pena...
Abraços
Pra que mudar se dá pra "conCertar"?
Andreas Kindel 06/09/2009 11:26:07

Apesar de toda admiração que tenho pela obra do Fernandez tenho que discordar
radicalmente da sua proposta.
Focar nas conseqüências só fortalece as
causas! A tragédia da biodiversidade, do passado e do presente, exige que nos
perguntemos “porque” isso está acontecendo. Só que de nada adianta se não
estamos dispostos a ouvir a resposta. Criar passarinho em gaiola (ou mutum, ou
mamute, ou jegue, ou leão ou o que mais desejarmos) e depois libertá-los é
relativamente fácil, duro é mudar atitudes.
Jurassic park, rewilding,
refaunação, migração assistida e outros assemelhados, mesmo que distintos na
escala de regressão ou antecipação, compartilham a mesma presunção: a de
que entendemos a natureza, sabemos como funciona e mais, sabemos como deve ser.

Recomendo a todos que depositam alguma esperança neste tipo de estratégia que
leiam a obra de Gary Larson intitulada “Tem um cabelo na minha terra: uma
história de minhocas”. Embora vendido nas seções de literatura infantil
das grandes redes de livrarias, o livro tem importantes mensagens pra todos
nós, sobretudo biólogos e afins. No mínimo nos ajuda a reconhecer que existem
mais do que mamíferos e aves nas florestas e outros ambientes (na literatura
científica, inclusive, há fartura de evidências de que os “inferiores”
sofrem consequências tão nefastas quanto os “superiores”). Mas uma
leitura cuidadosa encontrará outras mensagens tão ou mais relevantes para o
debate de propostas como a refaunação.
Só com Paredón pros Burocratas...
JTruda 08/09/2009 06:55:27

Excelente, como sempre, Fernando. Quem já conviveu com resgate e reintrodução
de fauna só pode concordar. O problema, pra variar, não é técnico, e sim
conseguir passar por cima dos burocras de sempre que acham tudo "muito
difícil"... bah. O Brasil seguirá na rabeira da conservação, e quando
até as Filipinas estiverem revertendo a degradação de sua biodiversidade,
aqui ainda estaremos "normatizando" e fazendo conferências para
discutir o que fazer enquanto nossa fauna se esvai em sangue pelo país afora.
Biloxi Blues 09/09/2009 18:58:36

Oh Trudinha,
Voce está muito nervoso!!!Aqui quem fala é um desses burocratas
que tem que aturar idéias estapurdias de malucos que querem trazer lhamas e
guanacos para unidades de conservação em campo rupestre por que acham lindo a
fauna andina. Realmente só com paredón para aguentar estes delírios de
malucos-beleza que se dizem conservacionistas. Parabéns Fernando pelo artigo.
Túnel do tempo... bacana... mas, e o presente?
cibele indrusiak 11/09/2009 10:46:39

O texto do Fernando causa mais ou menos a mesma sensação que causa a
libertação de pássaros cativos na maioria das pessoas: dá um tremendo
bem-estar, uma sensação de que se está reparando uma injustiça, traz a
idéia de que podemos recuperar, restaurar, reverter o estrago. E que portanto,
nenhum dano à natureza é tão sério e irreversível, pois nada é impossível
à ciência e à tecnologia. Não parece, mas essa mensagem, de que sempre há
volta, mesmo com a ressalva de que é caro e trabalhoso, é tão nociva quanto
entusiasmante.... Pode agir impulsionando boas ações, mas tem servido para
desculpar ou diminuir a gravidade de outras tantas. Creio ser ainda tempo de se
evitar muita desgraça, de mudar tendências e rumos; isso, por si só, já tem
se mostrado bastante trabalhoso e oneroso, quase impossível. Não desconheço a
importância de programas de reintrodução e reforços populacionais,
entretanto creio que a maioria das “florestas vazias” ainda sofre dos mesmos
males que dizimaram suas faunas no passado, tornando a “refaunação”
processos muito caros que tentam encher baldes furados. Não acredito que as
florestas refaunadas possam fazer cessar ou diminuir as pressões sobre as
mesmas, pelo simples fato de que “às pressões” pouco importa o que tem
sobre a terra e sim, a terra. Temos uma crise de hábitat mais séria a ser
combatida do que a crise da floresta vazia. Que bom se não tivéssemos que
priorizar e escolher... Abração, Fernando!
Restauração Genética
Pedro Nahoum 10/11/2009 06:45:18

Já estava familiarizado como o brilhantismo da retórica e das idéias do
mestre Fernando desde as aulas de Ecologia Animal na UFRJ, mas achei esse artigo
de grande importância ao trazer a tona a questão do que fazer com áreas já
protegidas, mas empobrecidas pelo impacto das décadas anteriores... Como
botânico e aluno da pós em Gestão da Biodiversidade da ENBOT do JBRJ,
acredito ser recomendável um único caminho: o da Restauração Genética das
populações, deixando a Seleção Natural agir a posteriori. Ainda que os casos
de extinção local devam ser considerados individualmente (caso diretamente
aplicável à Mastofauna), é possível traçar uma política pública de
incentivo, com o acompanhamento da comunidade acadêmica, do aumento ex situ das
populações de animais e plantas, baseado em indivíduos remanescentes de cada
local, se possível envolvendo a sociedade local (o que é infinitamente mais
fácil nos vegetais, admito). Essa idéia de recriação da Megafauna
Pleistocênica me parece, ainda mais que uma proposta midiática, um
desperdício de recursos que devem, ao meu ver, serem aplicados no que está ao
nosso alcance na escala de tempo ecológica. Parabéns ao Fernando, grande
abraço a todos.
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Última atualização ( 06 Out 2009, 14:25 )