Economia e redução de riquezas naturais PDF Imprimir E-mail
09/01/2009, 07:00
Finalmente se questiona o crescimento econômico e a inviabilidade de se prosseguir tratando o planeta como fonte inesgotável de recursos a serem explorados indefinidamente. Os parâmetros para o crescimento precisam mudar. Se não por princípios éticos, pela indisponibilidade de se prover recursos naturais capazes de suprir demandas que são incentivadas a proliferarem-se para garantir crescimentos contínuos. Alguns iluminados começam a perceber que existe ligação direta entre o equilíbrio ecológico, o econômico e a qualidade de vida humana.  Outros, medíocres, ainda insistem em incentivar consumos e compras como parte das soluções.

Não há grandes novidades na crise atual. O que se evitou durante as últimas décadas foi encarar a verdade e tomar as devidas providências. Como muitos disseram, a crise econômica nada mais é do que a constatação da insustentabilidade do modelo adotado pelo mundo moderno, que acabou afetando todos os cantos do planeta.

Como diz Ricardo Guimarães, da consultoria Thymus Branding, trata-se de uma crise épica, ou seja, atravessamos uma mudança de era. No mundo empresarial, ele defende que, para se adequar às demandas atuais, um gerente não deve mais esperar que um bom funcionário se assemelhe a um relógio, com funções mecânicas. Ao contrario, deve se incentivar criatividade e o aflorar de talentos individuais, como ocorre nos sistemas vivos e biológicos.

Enquanto teimarmos em enxergar apenas uma parcela do todo, fragmentando o pensamento, as chances de harmonia e equilíbrio reduzem-se significativamente. A interligação dos campos do saber e do agir passa a ser fundamental dentro dessa visão. Por isso, seu lema é “interdependência ou morte” e jamais “dependência ou morte”, como historicamente tem sido o orgulho brasileiro. As conseqüências do isolamento e das especificidades agora são mais claras do que nunca, pois poderão levar à decadência e à extinção, inclusive da nossa espécie.

Nesse sentido, o mundo natural deveria ser nossa fonte de inspiração. Biólogos que estudam espécies na natureza já compreenderam há tempos que a fragmentação de habitat reduz drasticamente as chances destas vingarem com saúde e integridade em longo prazo. Populações isoladas acabam apresentando problemas de consangüinidade, reduzindo as chances de se adaptarem a mudanças. É, portanto, a diversidade genética que assegura as espécies sua existência ao longo do tempo em seu meio natural, que por sua vez colaboram com a qualidade e dependem de um ambiente equilibrado, heterogêneo e complexo. A diversidade garante a adaptabilidade às mudanças no ambiente e aumenta a chance dessas espécies se ajustarem às mudanças que ocorrerem, se essas forem dentro de um mínimo de normalidade.

Mas, as mudanças têm sido drásticas e aceleradas. Não é de hoje que se sabe que o planeta não agüenta ser tão explorado. William Rees, um dos precursores do conceito das “pegadas ecológicas”, ou seja, do impacto que nossa forma de vida causa ao planeta, recentemente expôs suas idéias no fórum Eco-Health, realizado em Mérida (México), de 30 de novembro a 5 de dezembro de 2008. No início de nossa existência agimos como as demais espécies, expandindo ao máximo o território ocupado. O que era adequado há milhares de anos atrás, não corresponde mais à realidade. Mas, esse hábito permaneceu mesmo depois dos indícios apontarem a não sustentabilidade do modelo. Deveríamos estar encolhendo nossas pegadas e não mais as ampliando. Diferentemente das demais, a espécie humana é a única que explora os recursos até sua extinção. Continua acumulando bens mesmo que a matriz não seja capaz de suprir as demandas que crescem exponencialmente.

Rees exemplifica este comportamento com o bacalhau no Canadá, que apesar de todas as informações disponíveis, que se acumularam por mais de 40 anos, colapsou por excesso de pesca em 1992. Os estoques não são mais capazes de repor a população em níveis sustentáveis.

Ficou claro que a saúde humana retrata a qualidade do planeta. Mais de um quarto das doenças que ocorrem pode ser minimizado ou evitado com melhorias ambientais. Mesmo assim, o comum é tratar das conseqüências e não das causas. Não se pensa em prevenir e sim em remediar.

Segundo Rees, alguns mitos precisam ser demolidos, pois suas conseqüências são devastadoras. O primeiro é o de que a tecnologia salvará a todos. A rapidez com que a tecnologia hoje devasta é maior do que sua capacidade de recompor, até porque a percepção humana é lenta e não prioriza investimentos compensatórios. O segundo é o de que o crescimento populacional não causa impacto. Até o século XIX, a população mundial era quase estável. Mas, os inventos que utilizam energias fósseis nos permitiram expandir e crescer desordenadamente, levando ao domínio da produção e do consumo.

Em apenas oito gerações a população do mundo explodiu. Como parte do processo, surgiu um terceiro mito, que precisa ser transformado: a necessidade de crescimento econômico com base no consumo desmedido, que é a essência do próprio modelo neoliberal capitalista.

Os cálculos de Rees enfocam principalmente os países ricos. O Japão e a Holanda, por exemplo, consomem mais de 7% do que são capazes de produzir. Isto significa que algum local no planeta está sendo impactado para que estes países mantenham seu nível de conforto. A população humana já demanda 1,8 hectares por pessoa para manter seu padrão de vida atual. Todavia, os Estados Unidos excedem qualquer parâmetro de sustentabilidade, ao consumirem o equivalente a nove hectares por habitante. A estimativa de Rees é de que já são necessários quatro planetas para manter os atuais níveis de consumo. O que indica piora se compararmos aos seus primeiros estudos, há um pouco mais de uma década, cujos cálculos eram de três planetas e meio.

A noção de “não-crescimento”, portanto, deveria ser disseminada com a maior rapidez possível, se almejamos sustentabilidade planetária. Trata-se se uma revisão do Limite do Crescimento, proposto pelo Clube de Roma na década de 1970, acrescido por um movimento maciço por uma redução no consumo, o que significa uma revolução na forma de pensar o futuro. Assim como o bacalhau, só se acorda para a realidade quando as catástrofes ocorrem. Os mais velhos diziam que as mudanças são inevitáveis, mas quando não ocorrem por amor acabam ocorrendo pela dor. Parece faltar amor pelo planeta e a dor tem sido grande para muitos, visto as catástrofes que vêm demonstrando o que os câmbios climáticos são capazes de causar.  E tudo indica que estão apenas começando.

Neste sentido, ainda no Eco-Health, Carlos Nobre (Inpe) reforçou a noção de que já existem provas suficientes da insustentabilidade de nosso modelo de vida no planeta. Enfatizou a necessidade de adotarmos comportamentos que nos levem a uma evolução ética, ou a Terra se tornará inabitável. Já se sabe disso, mas, como sempre, tenta-se evitar enfrentar a realidade, o que exigiria investimentos efetivos em mudanças paradigmáticas e não apenas em medidas mitigatórias dos impactos de nossa forma de vida atual.
Comentários
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Sustentabilidade
Walfrido Tomas 11/01/2009 06:41:03

Prezada Suzana
Seu texto é oportuno e bastante claro no que se refere à
necessidade de uma mudança de "cultura do desenvolvimento". Acho que
ainda estamos longe da percepção, nos meios políticos e empresariais, de que
estamos no limite (se já não o ultrapassamos) deste modelo no qual o consumo
é o combustível a mover a economia, a política, e a cultura. O estado de
sonambulismo da população é tal que a grande, imensa e esmagadora maioria nem
percebe o real significado do estamos falando. É a dura realidade.
As pessoas,
na verdade, são completamente seduzidos por mídias diversas o dia inteiro
apregoando coisas a serem consumidas. Nada mais. Da televisão às revistas, dos
filmes à internet, o grosso das informações recebidas e processadas pelas
pessoas de todas as idades é: "consuma!".
Ninguém é levado a pensar
sobre as questões fundamentais que sustentam a vida. Mesmo que o fossem, o
nível de desinformação sobre estas questões limitam muito o entendimento da
nossa dependência do meio natural, da limitação dos recursos naturais, da
capacidade de suporte do planeta, da ética com as gerações futuras, etc. As
pessoas, de um modo geral, não são informadas o suficiente para que possam
perceber isso e adotar atitudes coletivas capazes de mudar contextos.

É
possível que a capacidade de suporte do planeta, para uma boa qualidade de vida
a todos, seja de cerca de 2 bilhões a 3 bilhões de pessoas, mantendo
biodiversdade, água em quantidade e qualidade, segurança alimentar, etc. OU
seja, estamos além, muito além disso, e o crescimento da população humana
continua sem controle. Parece discurso antigo, mas esta é a raíz do problema,
potencializada pelo modelo econômico e de desenvolvimento.

E as barreiras
para contornar estes dois problemas são imensas, intransponíveis quase. Uma
destas barreiras são as atitudes e posturas de grandes as religiões, sempre
contrárias a qualquer controle de natalidade; Outras barreira é baixo nível
educacional da imensa maioria da população. Além disso, existem questões
éticas, culturais e outras mais que são sempre tomadas à mão para justificar
que nenhuma iniciativa seja aplicada nem em escala nacional (com exceções,
claro) nem globais.
O resultado é que o planeta não aguenta. O resultado de
todo este amálgama de contextos é que estamos degradando os sistemas de vida
(no qual estamos incluídos) ao ponto de estarmos assistindo a uma era de
mudanças climáticas, empobrecimento biológico, entre outros. É uma ameaça a
própria espécie humana ou pelo menos de seu modo de vida atual, incluindo tudo
que cerca este modo de vida (cultura, organização da sociedade, valores,
economia, saúde, etc, etc).

Sou cético e concordo que a humanidade só muda
seus rumos ou aprende lições coletivas profundas através de traumas
coletivos. Li isso em algum lugar em textos passados do O Eco.

E pelo jeito,
caminhamos em direção a um destes traumas que ensinam, apesar de que poderá
ser tarde demais para uma guinada salvadora do planeta e da humanidade tal qual
os conhecemos hoje.

A grande questão é: como podemos mudar este estado de
coisas, nos diversos níveis, para evitar um desastre maior? Como mudar atitudes
governamentais (sempre superficiais), empresariais, religiosas (sempre
contrárias), educacionais e coletivas? Haverá tempo, mantida esta lentidão na
tomada de decisões e esta relutância em atacar os pontos-have do
problema?

No Brasil ainda não conseguimos influenciar decisões básicas
como desmatamento da Amazônia, eliminação do Cerrado, construção de
hidroelétricas em lugares inapropriados, entre outros.
Estamos num país onde
ainda se dá ênfase aos canaviais (como se fossem sustentáveis, o que não
são) e ao afrouxamento do Código Florestal, como se o problema do qual estamos
falando nem existisse. Não bastam as mortes em Santa Catarina, em Minas e no
Rio para mostrar a realidade absurda que é uso dos solos no Brasil. Não bastam
realidades como o de uma cidadezinha do norte do Paraná onde até a
reprodução humana está alterada pela poluição por agrotóxicos. É preciso
desastres muito maiores.
Hoje o Código Florestal brasileiro é visto como um
empecilho ao "desenvolvimento", ao ponto de muitas pessoas falarem em
impactos do Código Florestal na economia. No mínimo absurdo, dado o estado de
coisas e os cenários previstos.

Assim, acho que as coisas vão de mal a
pior. E antes que me chamem de pessimista, gostaria de enfatizar que é preciso
ver as coisas como elas são, sem enganos, para que se possa tomar decisões na
escala correta. Não se pode mais ficar atuando de forma superficial, lenta e
retórica.

Enfim, é sempre bom trazer este assunto à discussão e
reflexão. E parabenizo voce pelo texto postado.
ta legal
tania 25/06/2009 12:39:50

ta legal e massa explica tudo que quero
explica tudo
andressa 25/06/2009 12:41:48

explica o necesssario ate de mais deviam resumir mais
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