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| Tiro no pé |
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| Carolina Mourão | |
| 24/02/2005, 10:28 | |
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O corredor ecológico não pertence aos domínios nem de um parque nem de outro. Assim, o Incra acabou arrematando a área de pura caatinga por 650 mil reais, mesmo depois que a Unesco pediu ao governo brasileiro que toda a região fosse reconhecida como Patrimônio Natural da Humanidade e com o Ibama tendo conhecimento da importância ambiental da região. O desequilíbrio provocado pela presença dos sem-terra na área já é incalculável. Há 13 anos ela trava uma ingrata batalha na busca de uma política de desenvolvimento sustentável para a região que cerca o parque. “É um dominó. Impossível preservar 700 sítios arqueológicos sem conscientizar a população da importância ambiental daqui”, disse. Na época do início da ocupação dos trabalhadores sem-terra ela já sabia o problema ambiental que iria enfrentar. O Ibama foi acionado, mas nada foi feito. Só o parque das Confusões é quatro vezes maior que a cidade de São Paulo e conta com apenas 2 funcionários do Ibama para fiscalizar a área. São 502 mil hectares de caatinga sem nenhuma infra-estrutura para receber visitantes. Na Serra da Capivara a situação é melhor. Apesar de ser 3 vezes menor do que o Parque da Confusões, tem 127 funcionários fixos, contratados e pagos pela Fundação, para fiscalizar a área e ajudar nos trabalhos. Mas ainda é pouco. Os caçadores sazonais e os sem-terra alojados lá utilizam armas como espingardas e armadilhas com disparo automático para realizar caças diárias. As armadilhas são instaladas covardemente nas saídas das tocas dos animais. Mas a presença de civis armados no Parque Nacional da Serra da Capivara não é novidade. Niéde convive com ameaças há anos e uma funcionária da Fumdham foi assassinada com um tiro pelo próprio irmão, caçador, quando vigiava uma área. Os sem-terra compram essas armas da mão de pessoas especializadas em confeccioná-las em casa, para serem vendidas ali mesmo na região. A equipe da arqueóloga já dispensou 60 funcionários para evitar novas mortes dentro do parque. O volume de animais subtraídos do corredor tem aumentado, não só porque provavelmente são vendidos como iguarias nas redondezas, mas também porque o solo é pobre para plantio de hortas e insuficientemente produtivo para manutenção da dieta das mil pessoas assentadas. Segundo Paulo Gustavo, da Coordenação da Divisão Técnica do Incra do Piauí, a terra no corredor ecológico é vermelha e branca, com problemas de acidez e deficiência de nutrientes e não é própria para a agricultura de subsistência. “É mesmo um solo pobre para quase todas as culturas. Seria ideal para plantar o feijão, mas escassez de chuva condena a ação. O caju agüenta, mas demora anos para dar. A melhor forma de cultura é a do mel silvestre que gera renda e preserva o meio ambiente. A região produz mel da melhor qualidade”. Mas as espécies resistem. O patrimônio genético da região que abrange os dois parques é riquíssimo. Só o Parque Nacional da Serra das Confusões é o maior cenário de caatinga do mundo, com grandes savanas que possibilitam a movimentação e o domínio territorial de animais de grande porte, como a onça, que precisa de uma área de 25 a 50 quilômetros quadrados para viver, cada uma. No dia 26 de janeiro foi apresentada uma proposta de transformar oficialmente o corredor ecológico em área protegida. Participaram da reunião o Ibama, o Incra, a administração dos parques e a Fundação do Museu do Homem Americano, contando ainda com a presença do Ministro da Cultura, do Turismo e representantes do Irhan, que tomaram conhecimento do problema. A intenção era chegar a um acordo entre os interessados pela área e evitar um conflito ainda maior. Na ocasião, a ministra Marina Silva prometeu assinar o documento na semana seguinte após o carnaval, para acalmar os ânimos. Mas a assessoria da Ministra informou que o documento ainda está sendo elaborado e não há prazo para que fique pronto. Se a ministra continuar postergando o ato, o conflito de interesses pode ter um desfecho mais grave. Os sem-terra estão armados. Niéde Guidón, francesa, recebe ameaças de morte. A ministra precisa ser rápida para que não aconteça no Piauí um crime parecido como o que vitimou a freira Dorothy Stang, no Pará. A briga envolve partes do próprio governo. Não se sabe o que é pior. Tiro nos bichos, ou tiro no próprio pé.
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