Reportagens

Para ONGs, leilão foi ilegal

Ambientalistas afirmam que liminar que suspendia o leilão chegou à Aneel antes do início das ofertas. Agência diz que não descumpriu ordem judicial.

Nathália Clark ·
20 de abril de 2010 · 16 anos atrás
Manifestantes do Greenpeace em frente ao prédio da Aneel em Brasília. Foto: Nathalia Clark.

A validação do leilão para a concessão da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que teve como consórcio vencedor o Norte Energia, não agradou a membros de ONGs. Há uma grande desconfiança de que o governo conduziu o certame mesmo sabendo que a justiça havia concedido liminar interrompendo o processo. O Ministério Público Federal do Pará soltou comunicado nesta terça dizendo que vai investigar se o leilão ocorreu mesmo depois de notificação judicial ter sido entregue à Agência Nacional de Energia Elétrica.

Segundo representantes da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, que, através de ação em conjunto com a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, foi quem conseguiu a liminar concedida pela Justiça Federal em Altamira (PA), o documento foi enviado à Aneel às 13h10m desta terça-feira (20), dez minutos antes do início do leilão.

De acordo com Roland Widmer, coordenador do Programa de Ecofinanças da Amigos da Terra, a briga agora é para suspender o leilão: “Independente do pronunciamento do juiz (Antonio Carlos Almeida Campelo) sobre a cassação, nós manteremos o argumento de que foi passada a notificação antes do término do leilão e, por isso, não foi respeitada pela agência reguladora”. Segundo ele, às 13h11 a liminar já havia sido publicada no site da Justiça Federal do Pará.

Para o coordenador adjunto do Programa de Política e Direito do Instituto Socioambiental (ISA), Raul do Valle, a cassação da liminar não foi nenhuma surpresa. “Essa última ordem judicial representou um sinal para o governo de que ele pode fazer o que quiser. Não precisa respeitar a lei, porque o judiciário não vai punir”, afirmou.

Segundo do Valle, a decisão do juiz foi baseada em artigos selecionados de jornais: “e, é claro, só matérias que falassem bem da obra. Mas obra boa é aquela que está de acordo com a legislação ambiental, um processo feito de forma desviada não pode ser bom para a sociedade”. Ele assegura que essa não será a última decisão política sobre o caso, haverá outras.

O MPF anunciou que investigará se o leilão descumpriu ordem judicial. “A liminar foi concedida por volta das 12h de hoje, em ação civil pública movida pelas organizações Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé. Mesmo assim, a Agência Nacional de Energia Elétrica realizou o leilão, o que pode se configurar como desobediência à ordem judicial”, afirmou o órgão em comunicado.

Outro lado

A Aneel divulgou nota após a realização do leilão apenas informando que em função da liminar concedida à ação movida pelas ONGs o nome dos ganhadores não poderia ser divulgado.

Leia a íntegra da nota da Aneel

Em coletiva de imprensa, representantes da agência sustentaram que a notificação judicial havia chegado apenas 3 minutos após a realização do leilão.

 

*Nathalia Clark é jornalista em Brasília

  • Nathália Clark

    Nathalia Clark é jornalista na área de meio ambiente, desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas, justiça social e direitos humanos.

Leia também

Reportagens
28 de janeiro de 2026

Professora usa o cordel para popularizar temas ambientais

Cíntia Moreira Lima une conhecimento científico e poesia em projeto editorial independente; “Toda vez que vou escrever um cordel, tenho que tocar no coração de alguém”, diz a autora

Externo
28 de janeiro de 2026

Estado do Rio proíbe carne de tubarão em merenda escolar por riscos à saúde e ao meio ambiente

Secretaria baniu a carne de tubarão da merenda escolar de 1.200 escolas da rede pública estadual após pressão de conservacionistas e especialistas em alimentação

Salada Verde
27 de janeiro de 2026

Justiça manda Funai retomar demarcação da Terra Indígena Sururuá, no Amazonas

Após mais de uma década de atraso, decisão fixa prazo de 12 meses para concluir a demarcação física da área habitada por povos Kokama e Tikuna

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.