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O Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, no extremo sul da cidade de São Paulo, acaba de ser identificado como uma das áreas de maior biodiversidade de sapos, rãs e pererecas em todo o estado. Por lá, foram encontradas 65 espécies de anfíbios anuros, o que faz com que o local fique atrás apenas de Paranapiacaba e Boracéia na lista paulista – são 69 e 70 espécies identificadas, respectivamente - e seja o mais rico dos oito núcleos do Parque.

Apesar de o número ter de ser analisado com cuidado – já que existem outras áreas dentro do bioma Mata Atlântica com grande potencial de biodiversidade, mas que ainda não foram suficientemente estudadas –, a informação aponta para a importância da área e de sua preservação.

O responsável pela descoberta é o biólogo Leo Malagoli, que há cinco anos resolveu se embrenhar em uma das áreas verdes menos conhecidas do Estado do ponto de vista biológico, mesmo estando tão perto da capital. Em 2005, Malagoli deu os primeiros passos de muitos outros que viria a trilhar para realização do levantamento da diversidade e distribuição dos anfíbios nas diferentes fisionomias do Curucutu.

Vida de biólogo

Biólogo Leo Malagoli durante pesquisa de campo no Curututu. (Foto: Arquivo pessoal)

Biólogo Leo Malagoli durante pesquisa de campo no Curututu. (Foto: Arquivo pessoal)

Para chegar ao resultado de 2010, o biólogo andou. E muito. De 2005 a 2009, ele fez 27 viagens à unidade, totalizando 188 dias de trabalho de campo que abrangeram todas as estações do ano. Como a maioria dos pontos estudados só tinha acesso por trilha, Malagoli teve de colocar seu físico à prova. “Acho que o maior desafio neste trabalho foi mesmo andar. Fui a locais que ninguém foi. A pé! Chegava a caminhar 30 quilômetros por dia”, diz.

Para descobrir quem eram e onde estavam os sapos e pererecas do Núcleo, o biólogo valeu-se de quatro metodologias. Na busca ativa, a estratégia era percorrer as trilhas à procura dos animais. Na busca auditiva, a identificação foi feita através do canto deles. Malagoli também utilizou armadilhas tipo pitfall, na qual baldes são enterrados em pontos estratégicos à espera dos bichinhos mais desavisados – depois que caem nos baldes é praticamente impossível sair . Por fim, contou com encontros ocasionais.

O trabalho foi dificultado pela diversidade de ambientes que existem no Núcleo. Lá é possível encontrar desde áreas de florestas densas de Mata Atlântica, nos municípios de Itanhaém e Mongaguá, até campos naturais e matas nebulares na crista da Serra, ainda dentro do município de São Paulo. No total, o Curucutu possui pouco mais de 30 mil hectares, com altitudes que variam de zero, lá na beira do mar, até 870 metros. “Essa diversidade certamente influencia na riqueza de espécies”, diz.

Pressão iminente

Das 65 espécies identificadas pelo pesquisador, distribuídas em 12 famílias, ao menos três ainda não foram descritas pela ciência, duas delas são a rã-de-corredeira, Hylodes sp. (gr. lateristrigatus) e a rãzinha-do-folhiço, Ischnocnema sp. (gr. lactea). Outras possuem distribuição muito restrita e são pouco freqüentes, como a perereca-das-flolhagens (Phasmahyla guttata) e o sapinho-de-riacho. “Todos estes registros ressaltam ainda mais o quanto a região é desconhecida e importante para a conservação e manutenção das espécies, mesmo encontrando-se vizinha do maior centro urbano da América do Sul”, explica.

Apesar de estar protegido por lei, o Núcleo Curucutu não deixa de sofrer pressões. Pequenos desmatamentos ocorrem ocasionalmente de forma ilegal dentro da unidade, o que faz com que os habitats sejam desconectados, situação fatal pra algumas espécies que vivem nas folhagens, mas desovam na água, por exemplo.

“Para algumas espécies, a perda de habitat pode provocar sua extinção local em de uma a duas gerações apenas”. Os anfíbios anuros do Curucutu também estão constantemente pressionados pelo iminente crescimento da cidade, tanto na parte de cima, em São Paulo, quando na de baixo, no litoral. A área de amortecimento do parque não é protegida e a construção do Rodoanel trouxe um novo alerta: segundo Malagoli, moradores do distrito de Parelheiros querem a construção de uma alça de acesso para a rodovia, o que irá aumentar a perturbação em área contígua ao parque.

O que Malagoli espera agora é que seu levantamento contribua na implementação de ações de monitoramento e preservação no Curucutu e sirva de alicerce para decisões do Plano de Manejo da Área. O levantamento continua nos próximos meses e a expectativa é de que a lista do Núcleo aumente ainda em 10% a 20%.

Além de biólogo, Leo Malagoli é também um excelente fotógrafo. Confira o registro de algumas das espécies encontradas no Curucutu.

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