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Foi lançado esta semana um detalhado mapa com as “fitofisionomias” do Cerrado, ou os tipos de vegetação encontrados em seus dois milhões de quilômetros quadrados. A imagem foi produzida a partir do cruzamento de dados oficiais sobre biodiversidade e sensoriamento remoto dos biomas e divide o Cerrado em dois grandes blocos de savanas e florestas, detalhando-os conforme a elevação do terreno, distribuição das matas no entorno de rios e outros cursos d´água, porte das árvores e outras características.

“O mapa mostra os remanescentes do Cerrado e os diversos tipos de vegetação que ele tem, com classes usadas pelo IBGE. Também apresenta o quanto foi perdido entre 2002 e 2008 e o quanto resta de cada fitofisionomia”, explicou o biólogo Marcelo Gonçalves de Lima, autor do trabalho cartográfico e consultor junto ao Centro de Sensoriamento Remoto do Ibama, em Brasília.

O mapa tem “mil e uma utilidades”, como demonstrar as ameaças ao verde do Cerrado frente a hidrelétricas, rodovias e outras de infraestrutura, planejar o extrativismo de frutas como pequi e caju, associadas a determinado tipo de vegetação, projetar a movimentação e a distribuição de animais ou espécies ameaçadas, proporcionar a criação de áreas protegidas envolvendo porções mais ameaçadas do bioma, além de ajudar a refinar a quantidade de Dióxido de Carbono (CO2) emitido pelo desmatamento e o quanto desse gás de efeito estufa está armazenado entre os diferentes tipos de vegetação.

“O mapa pode ajudar no planejamento da conservação e da recuperação do Cerrado e de seus serviços ambientais, bem como na formulação de políticas públicas voltadas a sua proteção”, avaliou Lima, doutor em ecologia pela Universidade de Brasília (UnB).

À frente do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), o ambientalista Donald Sawyer comentou que o mapa também joga luz sobre a enorme diversidade da vegetação do Cerrado. “É um bioma extremamente diverso e complexo”, disse. Para ele, é preciso calcular por estado os remanescentes de cada tipo de vegetação e proteger até mesmo fragmentos, costumeiramente desprezados nas políticas para criação de áreas protegidas. “Essas parcelas são fundamentais para a recuperação de cada fitofisionomia, e êm valor para a manutenção da biodiversidade e para a economia”, ressaltou.

Seja na área ambiental do governo ou em entidades civis, não faltam aplicações para o mapa, como demonstrar os tipos de vegetação ou nível de ameaça a terras indígenas ou unidades de conservação, dependendo da região onde foram criadas. As áreas no entorno do Parque Nacional das Emas (GO), por exemplo, eram principalmente de “savana parque” ou “savana gramineo lenhosa”, tipos de vegetação mais fáceis de serem eliminados para a agricultura e a pecuária. O parque é hoje uma gota de Cerrado em meio a um mar de monoculturas (veja aqui ).

Esgotamento até 2050

Valendo-se de dados semelhantes aos usados por Lima para gerar o mapa de vegetação, mas munido de um programa de computador que usa redes neurais e variáveis sobre crescimento econômico, o professor do Instituto de Ciências Biológicas da UnB Ricardo Machado gerou um vídeo (ao lado) projetando a alarmante destruição do Cerrado até 2050. Naquele ano, apenas 17% da sua vegetação original estaria de pé.

Mas o pesquisador alerta que o trabalho é antes de tudo um “exercício acadêmico”. Mesmo assim, não deixa de ser útil. “A maior utilidade dos modelos de computador é alertar para tomarmos uma atitude desde já”, disse.

Segundo ele, a projeção foi feita com imagens dos desmatamentos de 2002 e de 2008 temperadas com informações sobre proximidade de estradas e rodovias, topografia e chuvas para que o programa mostrasse onde o Cerrado tem maior probabilidade de desaparecer. No vídeo, nota-se que algumas regiões permanecem com vegetação nativa, como porções serranas e a planície do rio Araguaia, além dos parques nacionais da Serra da Canastra, da Serra do Cipó e das Emas. “Porque não houve desmatamento nesses locais entre 2002 e 2008”, comentou Machado. Todavia, a maioria do bioma desaparece do mapa nas próximas quatro décadas. “Poderia ter bloqueado as unidades de conservação para evitar isso, mas a realidade é que mesmo dentro delas acontecem desmatamentos, como no parque nacional Nascentes do rio Parnaiba”, explicou.

Tanto o mapa de fitofisionomias quanto o vídeo que projeta a destruição do Cerrado engrossam a lista de instrumentos disponíveis para melhorar a proteção do bioma. Algo que ainda engatinha. Para Machado, da UnB, trata-se de pura falta de diálogo entre os setores da agricultura e da conservacao. “Ainda não caiu a ficha para a agricultura de que ela depende totalmente de áreas nativas para diversos propósitos e serviços ambientais. Mas o atual ministro da agricultura é igual ao anterior: investimentos enormes nos planos safra e nada em conservacao”.

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