Reflexo mortal é ignorado PDF Imprimir E-mail
Aldem Bourscheit   
17 Nov 2009, 15:36
Céu e nuvens no espelho da sede da Procuradoria-Geral da República. Foto: Aldem Bourscheit

O Brasil não tem números para o problema, mas nos Estados Unidos cerca de cem milhões de aves morrem todo ano em trombadas com prédios. São espécies nativas e exóticas e o prejuízo é grande à dispersão de sementes e à polinização, úteis à perpetuação de florestas e à agricultura. Um dos raros estudos feitos aqui mostrou que mais de cem animais de vinte espécies perdem a vida todos os anos nas fachadas espelhadas da Procuradoria-Geral da República, em Brasília.
 
O órgão recebeu a análise feita por especialistas da Universidade de Brasília (UnB) em 2006, com sugestões para resolver o problema. Passados três anos e às vésperas da publicação do trabalho em revista especializada, a procuradoria não comentou o assunto e nem informou se algo foi feito para reduzir as colisões. As aves coletadas pelos pesquisadores no pátio da procuradoria apresentavam lesões como hemorragia cerebral ou de órgãos internos. O prédio foi projetado por Oscar Niemeyer e custou 480 milhões de reais.
 
Conforme o relatório, as mortes ocorrem ao longo de todo o ano, na seca ou na estação chuvosa, dentro ou fora do período reprodutivo de pombas, beija-flores, andorinhas, da migratória tesourinha, coruja, gavião e espécies que só existem no Cerrado, como uma gralha e o papagaio-galego. Esse último está provavelmente extinto em São Paulo e é considerado ameaçado em Minas Gerais.

Pelos cálculos de Miguel Marini e Clarissa Camargo, da Unb, cerca de 500 aves trombam e mais de cem morrem anualmente nas colisões com os prédios da procuradoria (foto acima). São três colisões a cada dois dias e uma morte a cada três ou quatro dias. Como a vida útil dos edifícios é grande, o número de mortes passará dos milhares no longo prazo. “Durante o vôo, as aves não conseguem distinguir entre o que é real e o que é reflexo. Prédios isolados refletem o céu e a vegetação, facilitando os choques”, explicou Marini.
 

Prédio espelhado em frente ao Parque Olhos
d´Água, em Brasília. Foto: Aldem Bourscheit 
Espécies “territorialistas”, como o bem-te-vi, também sofrem. Ao ver seu reflexo nos painéis, imaginam tratar-se um intruso em seu território e partem para o ataque com vôos rasantes e bicadas.

De acordo com Marini, o número de mortes não é inicialmente preocupante para a maioria das espécies porque muitas são comuns em ambientes urbanos, como as pombas. Mas os prédios ficarão ali por dezenas de anos e muitos outros com fachadas espelhadas são erguidos em Brasília. “Esse conjunto de prédios, ao longo do tempo, pode trazer impactos significativos”, disse.

Segundo o especialista, conjuntos de edifícios ou construções plantadas nas cercanias de unidades de conservação são fontes de problemas. Em Brasília, os planos da chamada Cidade Digital e do bairro Noroeste, ao lado do Parque Nacional de Brasília e taxado pelo governo distrital como “primeiro bairro ecológico do país”, incluem várias construções com fachadas espelhadas. “Os bichos voarão de cara nessas barreiras. Falta às autoridades públicas reconhecer o tamanho do problema e definir normas para se evitar a construção de tantos prédios com vidros espelhados perto de áreas naturais”, ressaltou.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Distrito Federal (Seduma) não comentou o assunto.

Conforme Paulo Fiúza, do Movimento Cerrado Vivo, o perigo que o bairro Noroeste representa para aves circulando a partir do parque nacional reforça que apenas o “lado empresarial” foi pesado em seu projeto. Ele lembra que o projeto inchará vias públicas com mais automóveis e destruirá cerca de 800 hectares de Cerrado. Para ele, o projeto arquitetônico deveria preservar o máximo de vegetação, mananciais e uma reserva indígena no local, aproveitando parcelas degradadas para a construção de uma “ecovila”. “Mas fizeram o contrário, estão passando avenidas dentro da reserva”, disse. Então porque chamam esse de o primeiro bairro ecológico do país? “É uma piada”.

Diminuindo o problema


Em Brasília, shopping center em construção adotou
fachada espelhada. Foto: Aldem Bourscheit 
Em Nova Iorque (Estados Unidos), conforme a não-governamental Audubon Society, três prédios espelhados representam maiores riscos para os pássaros: o Metropolitan Museum of Art, o Centro de Convenções Jacob K. Javits e o Hospital Central Bellevue. A entidade tem um registro das colisões na metrópole. Apenas entre 1997 e 2001, foram 1.604 mortes e 748 aves feridas. Lá fora, o perigo maior para as aves é quando os prédios estão próximos a áreas verdes, como parques.

Menos ricos em biodiversidade, Europa e Estados Unidos desenvolveram sistemas para minimizar os problemas provocados pelas fachadas espelhadas. Eles têm usado películas, afastado alimentadores de aves das janelas, colado imagens de gaviões nas aberturas e fachadas para afugentar animais menores, cortinas para reduzir reflexos e telas de proteção.

“Também é possível usar listras verticais distribuídas ao longo da superfície espelhada. Isso facilitaria aos bichos ver as fachadas como barreiras. Tudo isso é possível de se conseguir sem sacrificar a entrada de luz natural. Apesar da nossa biodiversidade, nada foi feito por aqui para entender e combater esse problema”, lamentou Marini.

Nas construções comuns aos grandes centros urbanos, vidros espelhados contêm a entrada de luz normal e ultravioleta e diminuem a degradação de móveis e aparelhos eletrônicos. Também reduzem a conta de luz com ar-condicionado.

Atalhos:
Fatal Light Awareness Program – Flap 
New York City Audubon 
Procuradoria-Geral da República 
Movimento Cerrado Vivo 
Comentários
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Fabio 17/11/2009 15:14:41

Além de parecer um par de rolos de papel higiênico laminado o prédio da
Procuradoria Geral ainda é uma arapuca. É a cara de Brasília.
100 milhões
Anônimo 17/11/2009 15:26:33

Notem esse número de mortes somente com prédios nos EUA.....com enchimentos de
UHE´s ou desmatamentos para condomínios de luxo os números são
parecidíssimos (para os menos preguiçosos procurem o trabalho de Terborgh et
al 1995)!!
E ainda tem gente que enche o saco de pessoas que coletam material
biológico para museus e afins.....chutando alto, todas as aves depositadas em
museus do mundo todo desde 1750 não chegam a 5% do número anual de mortes por
vidraças!!
Esse é o melhor argumento contra os nó-cegos anti-coleta!!
Meu
anonimato se justifica pois muitos desses nós-cegos tem poder
"fiscalizador"....e ao invés de pegar quem precisa enchem o saco de
pesquisadores!!
vidro barato
Margi Moss 17/11/2009 16:20:11

Por ser relativamente barato, os arquitetos e construtores incentivam o uso de
vidro, não somente nos prédios e casas, mas agora é pior: em Brasília, virou
moda fazer "cercas" de vidro em volta das residências, morte certa para
milhares de pássaros que pensam que estão voando do verde de um lado para o
verde do outro. Sem dúvida, os donos destas armadilhas mortíferas pensam que
se tratam de é algum "detalhe ecológico" em torno de seus lares.
ERA O QUE FALTAVA!
Carlos Henrique sampaio 17/11/2009 20:18:37

AGORA OS AMBIENTALISTAS NÃO TEM A QUEM RECORRER PELO O QUE EU ENTENDIR. QUEM
OFERECE A DENUNCIA DE CRIMES AMBIENTAIS SÃO ELES ALGUMA COISA TEM QUE SER FEITA
EM REGIME DE URGENCIA.
Bairro noroeste
Rafael Nunes 17/11/2009 20:26:48

A utilização dos "belos vidros espelhados" parece refletir uma
tendência mundial na arquitetura. O que me impressiona é que toda obra,
principalmente de grande porte, passa por licenciamento ambiental e isso não é
considerado no licenciamento dos projetos, feitos por certos "analistas"
ambientais (desculpem pelas generalizações). Veja que o choque de aves contra
vidraças é um problema antigo, tão antigo quanto as próprias janelas de
vidro, mas que todos parecem ignorar, fazer pouco caso e até piadas.
Bairro Noroeste
Rafael Nunes 17/11/2009 20:27:44

Além disso, o Bairro Noroeste, o bairro do futuro, "Sustentável"
(virou moda essa palavra)vai refletir essa tendência.
Arborização Urbana!
Lucia Helena 17/11/2009 21:17:08

Talvez não resolva por completo, mas ajudaria a obrigatoriedade de uma correta
arborização urbana. E é lamentável que de 480 milhões não tenha sobrado
nada para o plantio de uma árvore sequer e as área verdes deste prédio tenham
aparência de um campo de golfe desprovido de qualquer atrativo e
conforto...

Não adianta também cobrar dos órgãos de planejamento ou
ambientais, pois em muitos casos quem autoriza e fornece os alvarás de
construção são as Regiões Administrativas.

Acredito que ajudaria muito
também em casos como o Setor Noroeste, a obrigatoriedade de arborização
urbana adequada...
Muito boa pauta!!
Adriane 18/11/2009 06:53:27

Aldem, muito legal tratar sobre isso!! Eu mesma não tinha me dado conta... Aos
vidros, acrescenta-se ainda o calor interno provocado. Onde trabalho é tudo
envidraçado e o calor tem que ser compensado com ar condicionado... Abraço pra
você!
Ótima pesquisa
Emmanuel 18/11/2009 20:35:39

Quando os primeiros edifícios espelhados surgiram em Brasília, tive o mesmo
pensamento estudado por vocês. Me perguntava a todo momento, quantas aves
morrerão no impacto contra os vidros espelhados? Muito obrigado pelas
respostas.
Delícia de matéria, mas...
Daniel Rittner 18/11/2009 22:44:16

Não sei o que foi maior: o prazer de ler o texto ou a dor e a vergonha de saber
do sofrimento dos pássaros.
Virgínia Müzell 19/11/2009 13:42:59

A arquitetura continua colonial... Lamentavelmente, esta tendência que copia
técnica e estética de países frios, onde qualquer filete de sol é dis****do,
está em total desacordo com as características do nosso país, além de ser
insustentável do ponto de vista energético e cruel para com as aves.

Uma
aberração que infelizmente foi adotada pelo mestre Niemeyer nas edificações
em pleno cerrado. A própria catedral de Brasília precisou de adesivos nos
vidros para reduzir o efeito estufa gerado internamente...

Triste é constatar
que ainda há projetistas reproduzindo esse modelo alienista. Parabéns pela
matéria!
não basta ser brega, tem de matar
Rutêncio de Valois 22/11/2009 14:37:42

Desde a minha distante adolescência assisto à proliferação dessas torres de
vidro horrendas e de outras aberrações arquitetônicas simplesmente veneradas
nos tristes trópicos. Será que vou morrer sem testemunhar a transformação de
Oscar Niemeyer num exemplo de paladino da arquitetura irresponsável e
destruidora dos recursos naturais (entre outros arquitetos)?
O pratico e o Criativo questão de Preguisa
Rogelio Zago 27/11/2009 07:42:05

Uma pena que que os Arquitetos de hoje sejam tão poucos criativos,
preguiçossos e Incompetencia.
Quando visitamos a Roma, Pariz, Madri, Barcelona
, Beugica, Holanda ou mesmo os centros historicos do Rio, São Paulo, São Luis,
Roma, Pariz, Madri. aqueles predios suntuosos esbanjando arte , Gaudi e muitos
outros que tinham muito menos recurssos tec que se tem hoje mais uma
Criatividade muito maior.
pensar antes de criar
luciene 05/12/2009 12:01:28

os arquitetos e engenheiros antes de projetar qualquer costruçao poderia pesar
as conseqüências ruins que podem trazer tais obras.trazer um prédio todo
espelhado.Tá faltando criatividade e bom senso.
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