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Escalada, montanhismo, boulder, parapente, canoagem, mountain-bike, slackline, snowboard, base-jump, travessias, expedições, cenários deslumbrantes, alguns ‘perrengues’ sérios, outros nem tanto, e uma boa dose de bom humor foram os ingredientes certos para arrancar aplausos entusiasmados da plateia que lotou todas as sessões do fim-de-semana.

Ramo em expansão

O Festival, que realizou sua primeira edição no Parque Nacional de Banff, no Canadá,  em 1976, chegou ao Rio de Janeiro em 2001 pelas mãos de Alexandre Diniz, dono da 9D Produções, organizador do evento em todas as suas edições e esportista desde criança. Para uma mostra que começou na cidade sem nenhum participante brasileiro, os treze filmes nacionais selecionados entre os 50 inscritos deste ano são motivo de comemoração no meio, mesmo que as produções ainda deixem muito a desejar, se comparadas às internacionais.

”Há mais de cinquenta anos, europeus e norte-americanos exibem filmes em festivais dedicados ao esporte. Apenas em 2004 nós tivemos os primeiros nacionais”, conta Diniz. “O Festival é uma chance de incentivar a produção e forçar também os atletas a se profissionalizarem no uso de câmeras digitais. O importante é valorizar quem é diretor e produtor e dar visibilidade ao esporte. Se não tivéssemos o festival, morreria a produção nacional”, conclui.

A contar pelo entusiasmo do público e dos novos diretores, o ramo permanecerá em expansão. O escalador profissional Gustavo Piancastelli, por exemplo, trouxe quatro produções suas para o evento. Em três delas, as peripécias de seu grupo de escaladores pelas paredes rochosas de Minas Gerais, com manobras impressionantes e um pouco dos bastidores do esporte, que inclui comer mal, dormir pendurado em redes nas rochas e ter que contar com toda sorte de infortúnios do tempo para seguir viagem.

O esporte que sente as mudanças

Um dos filmes de Piancastelli, Calor Extremos – Nos confins da África, relata uma aventura de escalada na cidade de Bamako, capital da República do Mali. Lá, nem a pobreza da região, o exotismo da alimentação africana, as pesadas tempestades de areia, ou a presença constante de animais perigosos, como as cobras venenosas, foram suficiente para tirar o ânimo de subir os 1.500 metros de uma montanha inexplorada. O que fez o escaladores abortarem a missão antes do cume foi o excesso de calor.

A lição de que, apesar dos esforços físicos e mentais e da cada vez mais avançada tecnologia em equipamentos, nem tudo é ilimitado para o homem aparece constantemente nas telas. As situações mais críticas, no entanto, não estão relacionadas ao despreparo dos atletas, cada dia melhor paramentados para enfrentar situações inimagináveis aos olhos de um leigo, mas dizem respeito às mudanças ambientais, principalmente climáticas.

No premiado Escalada Alpina – em inglês, Patagonian Winter - dois intrépidos escaladores escoceses, Andy Kirkpatrick e Ian Parnell, pioneiros da atividade na região patagônica, partem para a primeira tentativa de alcançar, durante o inverno, o cume da Torre Egger, a mais alta montanha do Parque Nacional dos Glaciares.

A expedição, relatada dia a dia e com boa dose de bom humor mesmo diante das adversidades, tem um fim prematuro, sem que os dois tenham conseguido sequer ultrapassar a base da montanha. O motivo? Tempo imprevisível, oscilando entre dias excessivamente quentes para a região e fortíssimas tempestades de neve. Se a escolha pelo inverno fora motivada justamente pela maior estabilidade da temperatura, o clima por lá, concluem os escaladores, certamente está se tornando cada vez mais atípico.

No oposto extremo do globo, o francês Jean-Gabriel Leynaud e a dinamarquesa Betina Aller protagonizam um dos mais emocionantes relatos do Festival. O filme Travessia Polar – no inglês, 99 Days on The Ice – registra uma expedição de travessia do Ártico realizada em 2006, partindo da Sibéria rumo ao Canadá, através do Pólo Norte. A empreitada do casal, que parte sozinho, sem a ajuda de cães ou de um grupo de apoio, resultaria à Betina a honra de ser a primeira mulher a realizar o feito.

Os 1.500 quilômetros de gelo percorridos em 99 dias revelam uma rotina de esforços físicos, incertezas mentais, solidão, medo e riscos. Ursos polares, tempestades, queimaduras pelo corpo e situações de quase afogamento nas águas geladas contrapõe-se à emoção dos aventureiros de fincar os pés no exato ponto do Pólo Norte e a expectativa por alcançarem o Canadá.

Para quem, de dedos cruzados, torce do outro lado da tela pelo sucesso da empreitada, o fim da história reserva, ao menos, o alívio do resgate do casal: presos por cinco dias entre crateras e rachaduras do gelo liquidificado e já cercados de água por todos os lados, a poucos quilômetros do objetivo, eles finalmente desistem do sonho.

Do alto do avião que os leva de volta à terra firme, a paisagem é desoladora. O que antes eram planícies infinitas de gelo, hoje está resumido a pequenos blocos de uma camada fina, entrecortadas pelo oceano, que domina cada vez mais a paisagem. As temperaturas durante vários dias da viagem não passavam de 5º C, o que ocasiona um brutal derretimento do gelo. Se Betina não foi a primeira mulher a completar a travessia, a sensação que o filme nos deixa é a de que certamente nenhuma outra será.

Equipados para o futuro

Além de eficazes medidores das condições de preservação e do clima, esportistas radicais são tidos como bons amigos do meio ambiente. Quem garante é André Ilha, diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), fiel frequentador do Festival desde sua primeira edição e adepto da escalada há mais de 35 anos. “Virei ambientalista por causa da prática do montanhismo”, revela. “É um tipo de sensibilidade que o esporte de aventura desperta”.

Ilha conta como a tecnologia e os novos equipamentos vêm colaborando com a preservação: “Os primeiros campeonatos de escalada eram em rocha natural. Lá pelos anos 80, quando começou a percepção de que isto poderia causar algum impacto, as competições passaram a ser realizadas em estruturas artificiais”, conta.

Hoje, cascatas de gelo são produzidas com mangueiras, furadeiras modernas aplicam os ganchos na rocha quase sem impacto e novas técnicas, como o chamado free-solo, permitem que seja possível escalar até sem o uso de qualquer gancho ou equipamento de segurança, nem mesmo o pó de magnésio nas mãos. Extraordinariamente arriscadas para o ser humano, mas certamente mais harmônicas com o entorno.

Para Bernardo Collares, presidente da Federação de Montanhismo do Rio de Janeiro (Femerj), educação e conscientização são a chave para transformar esportistas em escudeiros ambientais. “Em alguns parques brasileiros, usa-se o método da proibição. É mais fácil proibir, assim não se tem que trabalhar”, critica. Ele cita o exemplo do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, como modelo de boa gestão para o esporte. Nele deu-se a primeira conquista de verdadeira importância para o montanhismo do país, em 1912, com a subida do Dedo de Deus.

Pela primeira vez com um patrocínio em dinheiro, cedido pela emissora de esportes ESPN, o Festival premiou como melhor filme pelo júri popular e oficial o documentário Ciclos, que narra a façanha de um grupo de brasileiros em uma expedição nordestina a bordo de parapentes. Esta história, sim, tem final feliz: o grupo composto por Rafael Saladini, Marcelo Pietro e Frank Brown saiu de Quixadá, no Ceará e alcançou o Maranhão, batendo o recorde mundial do mais longo voo de parapente, com 461 quilômetros percorridos em dez horas.

Juliana Tinoco é repórter no Rio de Janeiro