Cidade X Floresta PDF Imprimir E-mail
Bernardo Camara   
07 Out 2009, 14:48
“Isso aqui tudo tinha árvore. Muita mesmo. Naquela parte ali tinha um igarapé com água limpa, onde as pessoas tomavam banho, lavavam roupa”. De um dos pontos mais altos do bairro Nossa Senhora de Fátima, na Zona Leste de Manaus (AM), Ribamar Oliveira, 47 anos, vai indicando com a mão as áreas que um dia foram verdes.

Hoje, no lugar da mata, cerca de cinco mil famílias ocupam o local. Por ali é normal faltar luz e água. A coleta de esgoto não existe. E apenas 10% dos moradores têm o título da terra. Apesar de sua infraestrutura precária, Nossa Senhora de Fátima pode se gabar de estar entre os 56 bairros regularizados da cidade.

Natural do Maranhão, Ribamar viu de perto a floresta se transformar em ocupação. Há quase três décadas na capital do Amazonas, para onde foi atraído pelas promessas de emprego na Zona Franca, ele estava entre as pessoas que abriram caminho para erguer as novas casas. “O pessoal pegava o machado e começava a capinar, tirar árvore. Limpamos o terreno para depois iniciar as construções. Muitas madeiras foram usadas do próprio terreno”, recorda .

foto: Bernardo Camara

O bairro N.S de Fatima, na Z.Leste: "Isso aqui tudo tinha
árvore
"
Depois de anos pulando de casa em casa, sempre de favor, ele soube da invasão que seria iniciada na Zona Leste e não titubeou: “A pessoa quando entra numa terra não vem com a preocupação de estar entrando numa área de preservação. Vem com a preocupação de pegar um pedaço de terra, ocupar e morar. Por necessidade, o sujeito tem que ficar”.

A história de Ribamar ganha eco em muitos cantos de Manaus. Do total de bairros que a prefeitura já carimbou como legítimos, 80% provêm de invasões. E a maioria delas também começou com machados em punho.

Foi no fim da década de 1960 que o governo militar resolveu tirar do papel a Zona Franca, com o objetivo de integrar a Amazônia à economia nacional. De lá para cá, mais de 30 mil hectares de floresta foram ao chão dentro dos 44 mil hectares de área urbana.

“A Zona Franca foi uma ação do governo muito importante para nossa região, pois nos possibilitou crescimento. Mas Manaus não estava preparada para receber essa grande demanda populacional. Não havia disponibilidade de habitação”, sublinha o presidente do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), Claudemir Andrade. “Isso fez com que a cidade fosse ocupada de forma desordenada, sem qualquer tipo de planejamento”.

No início dos anos 70, a população manauara não ultrapassava os 400 mil habitantes. Em apenas quatro décadas, o número deu um salto vertiginoso e já se estima que 1,8 milhão de pessoas vivam na capital do Amazonas.

Crescimento pé na lama

Em parte, as aspirações militares da época do presidente Castelo Branco foram atingidas: Manaus tem hoje um dos mais altos PIBs absolutos do Brasil. Mas os problemas continuam chegando na esteira do desenvolvimento. Enquanto a média nacional de crescimento populacional está em 2,3%, a maior região metropolitana do Norte beira os 4%. Segundo o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Amazonas (CREA-AM), 67% dos habitantes não têm moradia adequada.

foto: Bernardo Camara

Mesmo regularizados, bairros não têm condição de moradia
“Como resultado nós temos isso: uma região bastante rica economicamente, mas cheia de problemas urbanos. Hoje ainda corremos atrás do prejuízo. Se deixarmos que a cidade continue produzindo agenda negativa, esse débito nunca será resolvido”, prevê o chefe do Implurb.

O geógrafo carioca Paulo Renato Porto passou quatro meses do último semestre em Manaus. Foi pesquisar como a expansão demográfica tem pressionado os fragmentos de mata que ainda estão de pé. Chegando lá, impressionou-se ao constatar que, mesmo encravada no meio da floresta amazônica, a cidade é predominantemente cinza.

“Me surpreendi com o grau de improviso que é aquilo tudo”, diz, referindo-se às moradias erguidas sobre o leito de igarapés e em áreas verdes. “Foram vários os agravos ambientais e sociais com a população invadindo e derrubando floresta para construir casas. E tudo isso por falta de planejamento”.

Após levantar dados em livros, jornais e entrevistas, Paulo Renato concluiu que a dinâmica das invasões vai muito além das aparências. Responsável por inibir a urbanização desregrada, o poder público constantemente chega após a ocupação estar consumada. Na opinião do geógrafo, com razões claras. “Há uma relação de interesse. O político incentiva, apadrinha a ocupação desordenada, promete formalizar aquilo e assim consegue curral eleitoral grande”, observa.

Ribamar já cansou de assistir de sua janela candidato metendo o pé na lama em época de eleição. “Aqui no bairro mesmo a gente vê que o estado tem interesse político na ocupação. No período da campanha eleitoral, entram as máquinas para fazer abertura de rua, jogam camada fina de asfalto e está feita a urbanização”, conta.

“Chega um momento em que o poder público tem que fazer algum tipo de intervenção”, justifica Sybil Ferreira, coordenadora de regularização fundiária da secretaria municipal de Obras, Serviços Básicos e Habitação (Semosbh). “É aí que entramos com a urbanização. É uma demanda natural dessas áreas. As pessoas vão se arranjando da forma delas e uma hora temos que organizar aquilo”, explica.

Caminhos tortuosos

foto: Bernardo Camara

Enquanto ocupações irregulares se alastram pela Zonas Norte e Leste,
a especulação avança sobre as matas na Zona Oeste de Manaus.
Enquanto a Semosbh dá as canetadas que legitimam ocupações irregulares, perto dali, no prédio da secretaria municipal de Meio Ambiente (SEMA), Myrian Cunha se desdobra em ações que tentam frear o avanço de casas sobre as matas. É ela quem coordena o setor de gestão territorial e ambiental da pasta. E admite que o cabo de guerra começa nos corredores oficiais. “Se houvesse uma política de habitação mais eficiente, talvez a perda de vegetação tivesse sido contida”.

Ela reclama da inversão de papéis a que o executivo municipal se acostumou: quando estoura a notícia de uma nova invasão, os servidores do Instituto de Planejamento Urbano e da secretaria de Habitação não levantam da cadeira. Quem tem de peitar a população é o pessoal do Meio Ambiente. “Por que acontecem as invasões? Porque eles [Implurb e Semosbh] não agiram antes. Não têm uma política de habitação, não constroem casas populares. Então eles deixam na nossa mão”.

Myrian também critica a completa ausência de diálogo entre estado e município, por diferenças políticas. Segundo ela, os projetos de desenvolvimento realizados pelo governo também têm gerado enormes prejuízos ambientais: “As ocupações não são as únicas ameaças aos fragmentos. O próprio governo colabora para isso, pois faz as obras sem se preocupar com nada”.

Em inúmeros casos onde constatou impactos evitáveis, a SEMA tentou parar as máquinas, mas o estado ignorou solenemente os embargos municipais. “O estado se acha autônomo, acha que não precisa ter nossa licença”, desabafa. “A gente sabe que é para o progresso da cidade. Mas que seja feito com mais cuidado. Eles chegam, botam as máquinas e quando você vai ver já tem denúncia de que é macaco vindo para cá, tatu para lá, jacaré, tudo”.

Além dessas ameaças, o setor imobiliário formal também tem cota de participação na derrubada da floresta. Enquanto as invasões se espalham pelos últimos pedaços de terra nas zonas Norte e Leste da cidade, na região Oeste condomínios luxuosos pipocam na paisagem, sob o aval da lei. “Eles vão desmatar onde estão autorizados. O problema é que o plano diretor é muito pouco restritivo. Quando foi feito, não se imaginou que a expansão urbana chegaria tão rápido nessa área”, lamenta Myrian.

Comentários
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adriano
maxweel 09/10/2009 07:16:07

ronaldo
Tecnologias Sociais
Anna M. Lima e Silva 10/10/2009 06:02:52

O Plano Diretor da cidade deve apontar para o crescimento de casas populares com
critérios para a construção verde: casas com banheiros secos, cisternas para
captação das águas das chuvas, plantio de 2 árvores frutíferas, canteiro
econômico para mini-horta. Iluminação solar e Agenda 21 para desenvolvimento
local, capacitação e monitoramento do espaço habitacional por GT local e
autonomia de gestão participativa. ONGs podem desenvolver um trabalho de
mutirão com moradores, devidamente respaldada pela parceria, recursos e apoio
do Estado. As favelas não mudam por falta de políticas públicas de
ordenamento sócioambientais.
desenvolvimento x qualidade de vida
Ingrid 14/10/2009 11:22:51

Esta reportagem realmente tocou numa feriada aberta que ninguém tem coragem de
encarar. Nasci em Manaus e há muito tempo tenho me questionado sobre o modelo
(ou falta de modelo) de desenvolvimento da cidade. Poderíamos ter aprendido com
outras metrópoles e evitado repetir os mesmos erros aqui, ainda mais por estar
no centro da maior floresta tropical do planeta. Nossa vocação natural deveria
ser de crescer de forma sustentável, respeitando a natureza. Mas o que sempre
vejo é poluição de cursos de água doce, desmatamento incontrolável e
pavimentação generalizada. Recentemente comprei uma casa em um condomínio e
plantei diversas mudas de árvores na frente, até porque aqui o sol é
implacável. Alguns vizinhos vieram me questionar, querendo saber se as plantas
não iriam produzir muitas folhas. Claro que vão, é isso que espero, que
cresçam bastante e forneçam uma sombra agradável. Mas a maioria das pessoas
vê as folhas como sujeira! E pior, fazem um montinho no final da tarde para
queimar! Creio que isso só reflete nosso baixo índice de desenvolvimento
humano e falta investimentos pesados em educação. Somente com educação
poderíamos mudar essa mentalidade do manauara de achar que desenvolvimento é
ter a cidade cheia de shoppings, engarrafamentos, fumaça e concreto e
passaríamos a buscar a verdadeira qualidade de vida.
O que fazer?
Paulo Amaral 05/11/2009 11:27:49

Morei tres anos em Macapá e certamente as mazelas de lá, que eu conheci bem,
são as mesmas de Manaus, Belém, Santarém etc. etc., ou seja, as cidades do
Norte. A Amazônia é dividida em duas partes: (1)a floresta, equilibrada e
saudável e (2) as cidades, um verdadeiro inferno, sem calçadas, sem
saneamento, com uma população totalmente submissa a uma elite retrógrada.
Essa situação assenta-se numa falácia que é aceita por todos,
desenvolvimentistas e ecologistas, que eu resumiria assim: "a floresta é o
supermercado do amazônida. É de lá que ele tira o seu sustento e temos de
pensar em fazer o ajuste entre proteção ambiental e proteção dos povos da
floresta". Isso não procede. Trabalhei com muitos dos ribeirinhos e outros
"povos da floresta" e afirmo categoricamente que todos prefeririam ter
20 reais, ir com uma sacola no supermercado e comprar um kilo de carne do que
entrar na mata com uma espingarda um saco de farinha eficar duas semanas
sofrendo pra matar uma paca. Digo isso pq o resultadoé que os "povos da
floresta", na primeira oportunidade, migram pras grandes cidades (Manaus,
p.ex.)e aumentam dramaticamente os problemas urbanos das cidades do Norte
(grandes, médias e pequenas). Esqueçamos a ideia de que temos de fazer
reservas extrativistas ou coisa parecida. Comecemos a pensar que temos de deixar
o povo do Norte seguir seu próprio caminho, ajudando-os principalmente na
urbanização decente de suas cidades. Tres anos de Macapá e muita reflexão me
fizeram chegar a essa conclusão.
Como fazer
Maria Juliana 12/11/2009 18:15:54

Oque posso fazer para o Estado do Amazonas se desenvolver sem estragar o meio
ambiente
conhecir um jovem q mora ai em floresta e ele foi
Alice G carvalho 18/01/2010 13:49:07

gostaria atraves deste comentario vir reencontra uma pessoa muito especial pra
mim,que se chama ADAIL RODRIGUES morador de floresta.nao tenho nenhuma forma de
comunicar com ele,entao se alguem souber o numero do telefone do radio dessa
cidade me comunicar, por gentileza.obrigada....
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