Aldem Bourscheit
17 de Julho de 2009
Espere o presidente Lula saber dessa. Mais uma obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) topou com uma espécie ameaçada de extinção. Segundo especialistas, a pequenina rã
Physalaemus soaresi só vive dentro dos menos de quinhentos hectares da Floresta Nacional Mário Xavier, em Seropédica (RJ), por onde cruzará o chamado Arco Metropolitano. As obras já começaram. Pesquisadores avaliam que isso decreta o fim da existência do anfíbio.
Licenciada pelo governo estadual e com anuência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a obra está orçada em cerca de um bilhão de reais para interligar com 145 quilômetros de vias a BR-101, em Rio Bonito, ao Porto de Itaguaí, cortando a Baixada Fluminense (
veja aqui). A licença para início das obras veio em junho do ano passado. A maioria do dinheiro é do PAC, além de recursos do governo estadual e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Prefeituras, setor de transportes e comércio estão entusiasmados com as possibilidades de desenvolvimento oferecidas pela empreitada.
Dentro e logo ao lado da área protegida federal, as obras andam a todo vapor. Um centro de triagem de animais silvestres instalado na floresta nacional será deslocado, reconstruído e ampliado. Mas conforme o professor Sérgio Potsch de Carvalho e Silva, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a movimentação provocada pelo empreendimento dará fim à rã
Physalaemus soaresi. Ela só vive dentro daquela reserva, que também abriga outras trinta espécies de anfíbios e parte da Mata Atlântica que outrora cobria as margens do Rio Guandu.
“Há espaço para se deslocar o trajeto da rodovia e salvar a espécie, mas todos os envolvidos na obra não querem discutir a questão. Procuramos a espécie na região e em vários outros pontos do Brasil, mas não a encontramos. Só sobrou ali”, ressaltou.
Além disso, a diminuta
soaresi não é uma rã qualquer: foi descrita em 1965 por Eugênio Izecksohn (77 anos), criador do curso de Biologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e responsável pela formação de gerações de herpetólogos (especialistas em anfíbios e répteis) no Brasil. Por questões de saúde, ele não pode ser entrevistado pela reportagem de
O Eco, mas tem defendido sua descoberta sempre que pode,
como na edição dezoito deste ano da revista Rural Semanal, da UFRRJ.
“Esse anfíbio tem uma voz muito característica e que pode ser ouvida a uma centena de metros. Contudo nem eu nem outros pesquisadores em anfíbios já conseguimos ouvir seu canto em qualquer outro local. Por sua ocorrência em área tão restrita, a espécie em questão é considerada muito ameaçada e figura como tal nos livros atuais sobre espécies ameaçadas de extinção, no estadual, no nacional e no Internacional. Pelas nossas leis, ela já não pode mais ser capturada por ninguém, nem mesmo por mim que descobri e batizei a espécie. O problema é que o projeto do Arco Metropolitano do Rio de Janeiro, incluído no PAC, pretende passar exatamente sobre a FLONAMAX (
Floresta Nacional Mário Xavier) acabando com a flora e a fauna nativa da região, fazendo desaparecer pra sempre o
Physalaemus soaresi”.
Legislação ferida
Para Potsch, da UFRJ, a continuidade das obras fere a legislação brasileira que protege espécies ameaçadas, põe em risco parte da vegetação remanescente da Baixada Fluminense e faz com que a Ciência perca uma oportunidade para aprofundar estudos sobre a pequena rã. Conforme ele, a movimentação de terras e caminhões durane a obra e a movimentação comercial com seu fim serão fatais para a espécie. “A lei está sendo desrespeitada e poderemos perder uma chance de fazer achados importantes. Hoje, estamos descobrindo substâncias úteis em espécies pouco estudadas“, comentou.
O pesquisador lembrou da
Phyllomedusa oreades, perereca do Cerrado de apenas três centímetros cuja pele contém uma substância capaz de matar o parasita causador da Doença de Chagas, e também de anfíbios da Amazônia como a
Phyllomedusa bicolor, que secreta substâncias analgésicas já aproveitadas pela indústria de medicamentos. “Se extinguirmos a espécie, nunca conheceremos seus possíveis usos. Além disso, seu desaparecimento pode causar desequilíbrios ecológicos, afetando outras espécies na região”, ressaltou.
Para o especialista em anfíbios e professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Célio Haddad, o episódio registrado em Seropédica é um crime ecológico pelo qual as instituições públicas deveriam ser responsabilizadas. “Não se pode fazer isso com um animal ameaçado. Não se pode incitar o desrespeito à legislação. Alguém deveria pagar seriamente pela extinção da espécie”, disse. “O local (Floresta Nacional Mário Xavier) deveria ser transformado em um tipo de reserva onde não se poderia mexer, protegendo aquela e outras espécies”.
Conforme Haddad, a
Physalaemus soaresi jamais foi estudada sobre os compostos ativos que tem na pele. Também comentou que vários setores têm interesse em travar o avanço do conhecimento científico para, assim, levar adiante projetos que passam por cima da biodiversidade e até do uso futuro de princípios bioativos que podem ser extraídos de plantas ou de animais. “Muita coisa é exterminada antes de ser conhecida. Isso é uma irresponsabilidade, mas travar o conhecimento é fundamental para que não haja elementos para se evitar a degradação. Você só consegue proteger bem aquilo que você conhece”, disse.
Em maio, o presidente Lula criticou abertamente espécies de anfíbios, apontado-as como entraves ao avanço de obras de infra-estrutura no país O discurso não agradou aos especialistas da área. Para Haddad, as obras são importantes para o desenvolvimento nacional, mas é sempre possível adaptá-las para reduzir impactos. “O presidente incitou o desrespeito à legislação, dizendo que bichinho nenhum seria motivo para deter obras. Obviamente elas são importantes para o desenvolvimento do país, mas é possível ajustá-las para se reduzir a degradação ambiental”, disse o coordenador de Ciências Biológicas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
As respostas oficiais
Ouvido pela reportagem de
O Eco, o diretor de Conservação da Biodiversidade do Instituto Chico Mendes (ICMBio), Marcelo Marcelino, não soube informar sobre o aval do órgão para a obra do Arco Metropolitano e nem se alguma medida foi tomada para evitar a extinção da espécie. Segundo ele, não foi possível contatar os técnicos com conhecimento sobre o caso, pois estariam em um Congresso de Herpetologia em Pirenópolis (GO), a cem quilômetros de Brasília. “Mas se houver algum tipo de ameaça à espécie, vamos estabelecer condicionantes para garantir sua conservação”, garantiu.
Marcelino também foi questionado se o ICMBio está acompanhando possíveis ameaças a espécies nativas frente ao conjunto de obras do PAC. Conforme ele, o órgão só se manifesta sobre empreendimentos que afetam unidades de conservação e seu entorno imediato. “Estamos atentos e, quando percebemos que alguma obra pode afetar esta ou aquela espécie, podemos atuar para reduzir os prejuízos”, disse.
Consultada por
O Eco, a Secretaria de Obras do Estado do Rio de Janeiro informou por meio de sua Assessoria de Imprensa que obras começaram em todos os trechos do Arco Metropolitano e que o mesmo possui todas as licenças necessárias.
A Floresta Nacional (Flona) Mário Xavier foi criada em outubro de 1986, com assinatura do então presidente José Sarney (
veja aqui). Antes, desde 1945, era conhecida pela alcunha de Horto Florestal de Santa Cruz, gerenciado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal. É a única reserva ambiental da sua categoria no estado do Rio de Janeiro, vinculada hoje à administração do Parque Nacional da Serra dos Órgãos.
O chefe da Flona, Dalson Wilian Chain, preferiu não falar por telefone sobre o caso.
Atalhos:
Lista Brasileira de Espécies Ameaçadas de Extinção
Vídeo institucional sobre o Arco Metropolitano
Saiba mais:
As pererecas e os bagres de Lula
Preconceito contra as pererecas
Ensaio sobre a miopia
Em socorro dos sapos
Alemanha protege seus anfíbios
Um vôo pela Baixada Santista