Vida nova em Foz do Iguaçu PDF Imprimir E-mail
Cristiane Prizibisczki   
20/01/2009, 19:33

Os pesquisadores do Refúgio Biológico Bela Vista (PR), unidade de proteção ambiental criada pela Itaipu Binacional em 1984,  estão rindo à toa.  Hoje (20), nasceu mais um filhote de harpia (Harpia harpyja) do casal de aves que vive no local. Este é o segundo animal reproduzido com sucesso em cativeiro no sul do país. O primeiro nasceu na última quinta-feira (15). Foram necessários oito anos para que os pesquisadores conseguissem uma reprodução bem sucedida.

Os filhotes, ainda sem nome, estão sendo mantidos em uma estufa e alimentados cinco vezes ao dia. O primeiro nasceu com 80 gramas e já está com quase cem. O segundo, mais mirradinho, nasceu com apenas 60 gramas, mas recebe muitos cuidados para ganhar peso.

A decisão pela criação artificial foi tomada porque, nas reproduções em anos anteriores, a harpia fêmea não cuidou corretamente dos filhotes. Em 2007 e 2008, o casal de aves teve três crias, mas nenhuma sobreviveu por mais de uma semana. Análise feita posteriormente mostrou que, no estômago do animal, havia penugens junto com o alimento.

Marcos José de Oliveira, técnico do refúgio e especializado no manejo de aves de rapina, garante que o casal é normal, copula e choca os ovos. O problema está mesmo na hora do cuidado com o filhote. Por isso, os bebês ficarão isolados por 30 dias, em ambiente com clima e alimentação controlados. Depois, deverão voltar para perto dos pais.

Segundo a pesquisadora Fernanda Junqueira Vaz, bióloga-chefe do setor de aves do Zoológico de São Paulo, ainda não há comprovações sobre esse tipo de comportamento da fêmea, mas vários podem ser os motivos para uma ave em cativeiro não cuidar corretamente de seus ovos e filhotes. Estresse e desvio comportamental estão entre as hipóteses. “Tivemos o caso de um gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) que quebrava seus ovos, antes de eclodirem. Foi necessário colocar um ovo falso no ninho para a ave continuar chocando, enquanto os ovos verdadeiros foram para a encubadora”, explica.

Vitória local


A harpia é uma ave típica de florestas, não está extinta em níveis globais e ocorre em certas regiões do Brasil, como a Amazônia. No entanto, em áreas onde o desmatamento consumiu boa parte de seu habitat, ela é rara ou em vias de extinção, como no Sul do país.  “Nosso objetivo sempre foi a  reprodução da espécie. E conseguir isso é motivo de grande comemoração”, diz Wanderlei de Moraes, veterinário do Refúgio Bela Vista.

Naquela região, são poucos até os exemplares de harpia em cativeiro. Segundo a assessoria da unidade de Itaipu, há outros indivíduos no Parque das Aves e no Zoológico de Curitiba. O macho está no refúgio desde setembro de 2000, quando foi resgatado de dentro de uma caixa de papelão na BR-277, próximo ao bairro Três Lagoas, em Foz do Iguaçu. A fêmea chegou em março de 2002, vinda de Juazeiro (BA). Ela foi resgatada durante operações contra o tráfico de animais silvestres na região e viveu no Zoológico de Brasília (DF) até ser levada à cidade paranaense.

Segundo Moraes, essa é a primeira fase de reintrodução da espécie. Para chegar ao resultado final, um longo caminho deverá ser percorrido, já que não se trata de uma simples soltura. Fatores como o local em que o bicho será libertado - ele precisa de uma grande área florestal para sobreviver - serão levados em conta.

Reproduzir para quê?


Para o ornitólogo Pedro Develey, da não-governamental Save Brasil, a reprodução em cativeiro é sem dúvida positiva. No entanto, o motivo pelo qual ela está sendo estimulada é que deve ser o foco do trabalho. Reproduzir para quê? Reintrodução na natureza? Educação ambiental?

De acordo com ele, dificilmente os filhotes de Foz do Iguaçu poderão ser soltos na natureza. Isso porque, além da grande área necessária para sobrevivência e disponibilidade de presas – as harpias podem capturar animais de até 14 quilos, como macacos e cotias -, a mudança no comportamento do animal criado em cativeiro é fator determinante. Preso, sua alimentação é oferecida em pequenas porções e diversas vezes em um mesmo período. Na natureza, ele precisa caçar e, geralmente, faz refeições mais espaçadas. “Vai soltar onde?”, questiona Develey. Soma-se a estas preocupações o fato de que o animal de cativeiro adquire doenças incomuns para bichos de vida livre e vice-versa.

Em casos como o da Reserva Biológica Bela Vista, o maior mérito da reprodução, segundo Develey, talvez seja o da educação ambiental. O poder de comoção que filhotes geralmente têm em relação às pessoas pode ser usado para atrair, informar e conscientizar os visitantes da reserva para a importância da espécie.

Já para a bióloga Fernanda Vaz, do Zôo de São Paulo, a reprodução em cativeiro é positiva porque dá a possibilidade de criar populações estáveis com potencial para reintrodução, além de garantir que as espécies possam ser estudadas mais de perto.  “Quem trabalha com cativeiro sempre vai trabalhar com gente de campo, para trocar informações”, diz. Segundo ela, a reintrodução realmente é muito difícil, mas experiências bem sucedidas já foram realizadas nos Estados Unidos e na Argentina, por exemplo.

Na natureza, a Harpia harpyja se reproduz somente uma vez ao ano, geralmente entre a Primavera e o Verão. A cada ciclo reprodutivo, são postos dois ovos, com intervalo de dez dias entre eles. Em cativeiro, o comportamento reprodutivo do animal depende de vários fatores, como as condições em que se encontram. No Zoológico de São Paulo, por exemplo, há quatro casais de harpia, com potencial de postura. No entanto, os machos provavelmente não estão copulando com as fêmeas, já que, até hoje, não se conseguiu a reprodução em cativeiro neste zôo.

Mais informações sobre harpias:

Realeza morta

Gavião baleado

Vôo monitorado

Harpias baianas

Criados para a liberdade

Lista de ameaçadas: excesso ou omissão?

Comentários
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olá...
thiago 12/03/2009 09:25:44

como faço para adotar uma hapia???
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