Uma chance para os Campos Amazônicos PDF Imprimir E-mail
Cristiane Prizibisczki   
05/01/2009, 07:00

A bióloga Ana Rafaela D´Amico, chefe do Parque Nacional dos Campos Amazônicos, vive há 12 meses uma rotina intensa de trabalho. Nela, sua capacidade de lidar com imprevistos e jogo de cintura para resolver situações de conflito foram colocados à prova diversas vezes. Desde janeiro de 2008, comanda trabalhos que darão origem ao plano de manejo da unidade, uma das que mais sofrem com impactos causados pelo homem entre os parques nacionais. Se nenhum contratempo surgir pelo caminho, em outubro deste ano os 15 pesquisadores coordenados pela bióloga colocarão um ponto final no documento, uma espécie de guia de uso para áreas protegidas. Pelo menos é isso o que ela espera.

Por vinte dias, entre 10 e 30 de novembro passado, a equipe passou por 22 pontos do parque, escolhidos a dedo pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio) por registrarem desmatamento, gado, queimadas, ocupação ilegal, garimpo e até um projeto para hidrelétrica. Antes de tudo, foi preciso correr contra o tempo – apenas uma pesquisa de campo foi realizada por todos os pesquisadores -, para avaliar o grau e o efeito de tais pressões sobre os 873.570 hectares da unidade, cujos acessos não são simples.

Os trabalhos começaram ainda em janeiro de 2008, quando ICMBio, Ibama e Funai realizaram um planejamento para o futuro do parque. Em maio, trilhas para os pesquisadores estavam definidas, mas ainda faltavam 300 mil reais prometidos pelo Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), para continuar com as atividades. No entanto, em junho todos souberam que teriam apenas 220 mil reais, no futuro próximo. A expedição estava programada para começar naquela época.

“Entre julho e setembro ficamos numa expectativa muito grande. Decidimos fazer a expedição em novembro, mas nos perguntávamos, 'será que dá, será que não dá'. Se não fosse feita naquele mês, teríamos que adiá-la para o próximo ano e a única coisa que tínhamos, até então, era o planejamento”, conta Érica de Oliveira Coutinho, bióloga e coordenadora de logística no plano de manejo.

Somente em outubro o Arpa liberou os 220 mil reais para a expedição. Para driblar a precariedade de recursos e de estrutura – a coordenação do parque tem somente um carro e Ana Rafaela e Érica usam computadores pessoais para trabalhar – foi preciso rebolar. Empresta daqui, pechincha acolá e, por meio da rede de relacionamento com outras unidades, a expedição se concretizou.

Dois carros foram emprestados do Ibama, um da Reserva Biológica do Jaru e outro do não-governamental Instituto Centro de Vida (ICV). Outros três foram alugados. Aparelhos de GPS também foram emprestados, os sobrevôos foram doados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e ICMBio, e vários dos materiais requeridos pelos pesquisadores vieram de outras unidades. “Era o básico para funcionar. O governo deveria investir no plano de manejo”, comenta Érica.

Durante a expedição, outros imprevistos tiveram de ser contornados, como quando descobriram que o cozinheiro contratado não sabia nem fritar ovo, quando uma trilha teve de ser aberta de um dia para o outro a pedido dos pesquisadores ou quando um grupo de fazendeiros indignados com a criação do parque veio reclamar com Rafaela. Situações comuns em uma empreitada como esta.

Pesquisa de campo

Apesar dos contratempos, os pesquisadores envolvidos na expedição realizaram sua tarefa. Como a maioria das bases de apoio contava com uma casa, chuveiro e comida quente, era comum ouvir elogios à equipe de logística do plano. Em 20 dias em campo, a equipe não fez coletas ou levantamentos extensivos de espécies, mas pôde identificar os efeitos das pressões antrópicas sobre o parque e seu entorno.

De forma geral, foi identificada ou confirmada a presença de espécies importantes, que, por si só, já justificariam mais ações de preservação, como onça-pintada, harpia, gavião-pega-macaco, cervos-de-cauda-branca, mais de dez espécies de macacos, queixadas e ariranhas. Segundo último levantamento realizado na unidade, o parque conta com 133 espécies de peixes, 37 espécies de anfíbios e 36 de répteis, 441 espécies de aves, 55 espécies de mamíferos de médio e grande porte, com destaque para o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) e o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus). Isso sem falar nas possíveis novas espécies de animais e de plantas.

Também foram enumeradas melhorias que deverão ocorrer em práticas realizadas no parque e entorno, como uso excessivo de cantos gravados para atrair aves durante observação, usar sal em barreiros para atrair animais e sobrepesca no trecho vizinho ao Rio Roosevelt. Além disso, a equipe de solo ressaltou o grande impacto que poderá ser provocado pela construção da Hidrelétrica de Tabajara, nos limites do parque. Lá, as rochas são muito porosas. Se construída, a obra poderá causar alterações profundas no solo de todo o entorno da barragem.

Ocupações humanas, queimadas e desmatamentos foram identificadas em várias áreas dentro e fora da unidade de conservação. Nesses trechos, em que não há uma árvore em pé, a ausência espécies é quase total. Além disso, o capim, introduzido e adaptado à área para alimentar o gado, avança sobre os campos, chegando quase aos limites do parque.

“Conseguimos executar tudo o que estava planejado, uma fase de campo foi suficiente. Claro que a passagem na área de Cerrado foi só um início para pesquisas posteriores, porque lá a gama de espécies diferentes é maior e isso gerou muita ansiedade, mas todos saíram satisfeitos”, diz Rafaela D´Amico.

O próximo passo será dado em fevereiro deste ano, quando a coordenação da unidade realiza o levantamento socioeconômico com as comunidades do entorno do parque. Em abril será realizadauma oficina de planejamento para discutir uso público do parque e a visitação nas pousadas ao redor do Rio Roosevelt, ações apontadas como emergenciais. Outras estão previstas para a estrada do Estanho, responsável por fragmentar o desenho do parque e área de crescente ocupação humana, e no garimpo de cassiterita na Terra indígena Igarapé-Preto. Além disso, já foram solicitadas pesquisas sobre aves no Rio Roosevelt e mamíferos no enclave de Cerrado do parque. 

Para você conhecer um pouco mais daquela área protegida, O Eco montou três slide-shows com fotos da expedição que dará origem ao Plano de Manejo do Parque Nacional dos Campos Amazônicos:







Leia mais:

- Uma menina com mão de ferro na Amazônia

- Beleza amazônica sob pressão

- Porção de Cerrado em meio à floresta

- Uma passagem pela Vila dos 180

- Campos Amazônicos – oásis de diversidade
Comentários
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Parque nacional
samuel baker mororó aragao 29/03/2009 14:06:54

PARABÉNS,pelo excelente trabalho em defesa do Parque Nacional dos Campos
Amazônicos, fico feliz sabendo que existem ´pessoas como voçês,sou de
Ipu-Ceará e há anos lutamos pela criação do parna da serra grande, e sei
como é difícil a luta em defesa do meio ambiente, são notícias assim que nos
dão forças para continuar nossa jornada por aqui. abraços!
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