| Um município entrando no buraco |
| Aldem Bourscheit | |||||||||||||||||||
| 19/11/2008, 17:53 | |||||||||||||||||||
![]() O Ministério Público Federal (MPF) em Uberlândia entrou com ação civil pública pedindo a interdição da mina de zinco da Votorantim Metais (antes Companhia Mineira de Metais) em Vazante, no noroeste de Minas Gerais. O caso será analisado pelo judiciário, que poderá determinar ou não a suspensão das licenças do empreendimento, que opera há décadas no município. Na ação, impetrada pelo procurador Cléber Eustáquio Neves na 3ª Vara Federal de Justiça, são citados como réus a prefeitura municipal, o estado de Minas Gerais, a União, a mineradora, o Departamento Nacional de Produção Mineral, vinculado ao Ministério de Minas e Energia, além de João Bosco Silva e do empresário Antônio Ermírio de Moraes, ambos da Votorantim. O procedimento pode ser conferido aqui.
O município é afetado por impressionante rebaixamento de lençol freático que levou ao surgimento de mais de duas mil dolinas, uma espécie de cratera (como na imagem acima), esgotamento de nascentes, poços e córregos, além de apresentar elevados índices de contaminação de suas águas, que acabam no Rio São Francisco e tocam a área de influência do Aqüífero Guarani (clique aqui e confira mapa). Procurada pela reportagem, a empresa alegou não ter sido comunicada oficialmente e não se pronunciou sobre sobre a ação civil pública. Pelas ruas de Vazante
Ambientalistas e pesquisadores indicam como principal causa do fenômeno o bombeamento de enormes quantidades de água subterrânea pela Votorantim Metais Zinco S.A., operando na região desde 1969. Nos anos 1990, as escavações chegaram fundo demais e a mina foi invadida pela água do lençol freático. Para desafogar o empreendimento, a saída foi bombear água. Atualmente, entre 5 mil e 6 mil metros cúbicos (m3) por hora, ou entre 5 e 6 milhões de litros a cada hora, são jogados para fora da mina. Uma piscina olímpica tem 2 milhões de litros de água. Sobre o espaço vazio deixado pela água, o chão sucumbe. A outorga do bombeamento é do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). Palavra de cientista
“Dolinas são um processo natural, mas aconteceriam de forma diferente do que ocorre na região, onde há um rebaixamento muito brusco do lençol freático. Não tenho dúvida de que o problema é provocado pelo bombeamento excessivo de água”, ressaltou o professor da PUC-Rio. Ele também põe na ponta do lápis a quantidade de dolinas avaliadas em Vazante, onde elas podem aparecer em qualquer lugar. “Entre pequenas, médias e grandes, já passam de duas mil na região. Algumas não chegam a abrir um buraco no solo, apenas apresentam ondulação ou rebaixamento do terreno. Podem surgir a qualquer momento e em qualquer lugar”, explicou. Nos dias em que a reportagem de O Eco circulou pelo município, logo após a eleição do candidato pró-mineradora Orlando Fialho (PP), dolinas foram avistadas no chão de várias fazendas e propriedades rurais. Também foram registradas por moradores em locais bem próximos do centro urbano. Na imagem logo acima, dolina foi registrada em dezembro de 2005, hoje coberta com terra. Prejuízos no meio rural
Santos também reclamou de nascentes, poços e pequenos cursos d´água secando na região, como o Córrego Barroquinha. “Lá dava tocar uma roda d´água, agora faz anos que só tem água perto da nascente. A água não corre mais”, disse. “Até pastos estão secos, deixando os produtores rurais em prejuízo. Quando secar tudo, vou abandonar a fazenda e pronto. Esses grupos fortes dominam tudo, né?”, comentou, com seu jeitão mineiro.
Regiões de solo calcáreo costumam apresentar cavernas. Em Vazante não é diferente. Depois de Máquine, é o município mineiro com as maiores formações desse tipo. No entanto, muito pouco é aproveitado pelo turismo. Produtores rurais ouvidos pela reportagem também comentaram sobre queda no valor da terra e até sobre vacas sumindo dentro da buraqueira. Conforme o advogado e produtor rural Marciano Borges de Melo, imóveis esburacados perdem preço e o trabalho no campo está ficando arriscado. “Meu filho estava 'campeando' a cavalo e deu de cara com uma, com 17 metros de profundidade. Quase caiu. E quando o gado cai dentro de uma dolina, se não morre na queda, pode morrer de fome ou de sede”, disse.Em sua fazenda, rampas têm sido feitas nas dolinas para facilitar a saída do gado. Vários fazendeiros acionaram a Justiça em busca de indenizações.
As análises oficiais têm demonstrado índices de cádmio, zinco e outros poluentes em índices bem acima dos recomendados pela Resolução 357/2005 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Também há muita poluição por esgotos, já que Vazante ainda não trata esse tipo de resíduo. As medições ocorrem apenas com água superficial. Não são feitos testes com águas subterrâneas, de onde o município se abastece. O Rio Santa Catarina deságua no Paracatu, um dos afluentes do Rio São Francisco. “Minas Gerais inteira está nessa situação (poluída). Todas as nascentes do São Francisco estão comprometidas, tanto do ponto de vista da cobertura florestal quanto do rebaixamento do lençol freático. O volume de água bombeada do subsolo já é maior que o previsto para as obras de transposição (do São Francisco)”, afirmou Antônio Barboza de Oliveira, doutor em Engenharia de Minas pela École Nacional des Mines de Paris (França) e professor da PUC-Rio. Na ação civil pública, o procurador Cléber Neves destaca que a água bombeada do subsolo “é depositada em tanques para decantação e posteriormente lançadas no Rio Santa Catarina”. E ainda, “a Cia. Mineira de Metais, atualmente incorporada pela Votorantim Metais Zinco S/A, deu início a processo de degradação ambiental mediante o lançamento de água subterrânea no Rio Santa Catarina, com alto índice de turbidez, restando constatada a presença de chumbo, ferro, alumínio, manganês, cádmio, arsênio e zinco em quantidades bem acima do permitido pela legislação ambiental e por normas de proteção de proteção à saúde”. A fada madrinha
Reginaldo Alves Ferreira, da Associação Vazantense de Ecologia (Ave) conta que desde pequeno perambulava de bicicleta pela região e nunca topou com tantas dolinas. Ele usa como exemplo uma área de pastagem, onde quase 50 buracos surgiram nos últimos anos. “Passei a infância rodando de bicicleta e afirmo que as dolinas se intensificaram com a extração de zinco. Estão (a empresa) acelerando o processo”, disse. Ele critica o emaranhado de laudos técnicos, documentos e autorizações oficiais usados pela mineradora para perpetuar aquela situação. “As autoridades não se interessam pelo problema. Em dois anos, passaram 12 promotores, seis delegados e quatro juízes por Vazante. Já fizemos (Ave) 48 denúncias contra administração pública, mas aqui não existe lei, não tem regra, não tem nada. A Votorantim é a fada madrinha da cidade”, comentou.
O procurador Cléber Neves, em sua ação civil pública, ressalta que “A Cia. Mineira de Metais foi, por diversas vezes, fiscalizada pelo IBAMA e outros órgãos ambientais, várias autuações foram lavradas, contudo, nada surtiu efeito. A empresa, movida por cupidez, promoveu o rebaixamento do lençol freático, com a conseqüente secagem de lagos e charcos. Ademais, essa empresa lança no ar grande quantidade de sólidos particulados que são lançados pela chaminé da área de processamento de calamina. Ou seja, sequer se demonstraram motivados em adquirir filtros eletrostáticos”. Além disso, Neves comenta que “A situação é de tamanha gravidade que a fauna e a flora local estão irremediavelmente contaminadas por partículas de zinco e chumbo e outros materiais nocivos, fator causador da morte de centenas de animais, com reflexos irremediáveis para a saúde dos munícipes de Vazante”.
Vista como desastre ambiental de proporções bíblicas por ambientalistas e pesquisadores, a problemática de Vazante virou livro, Crateras da Cobiça, pelas mãos do jornalista José Carlos de Assis, e mereceu uma página na Internet, mantida por contrariados cidadãos vazantinos.
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