Remando contra a corrente no Pantanal PDF Imprimir E-mail
Aldem Bourscheit   
11/11/2008, 16:42

Ele chegou ao Pantanal na metade dos anos 1980, período de intensiva caça de jacarés para extração de peles. Na região, se dedicou a estudar conservação da fauna. Doutor em Biologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), pesquisador da Embrapa e professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Guilherme de Miranda Mourão tem idéias que podem mexer com os brios de certos ecologistas e defensores dos animais. Para ele, o Pantanal pode comportar o manejo controlado de animais como o jacaré, sem prejuízos à espécie. O pesquisador também defende o turismo de observação como incentivador da conservação regional e aponta a falta de debate sobre o futuro pantaneiro.

O Eco – Quando você chegou ao Pantanal e qual seu trabalho na região?

Guilherme Mourão (GM) – Cheguei como estagiário, em uma quarta-feira de cinzas de 1985, e hoje atuo com biologia da conservação de várias espécies pantaneiras e orientando alunos da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, no Programa de Ecologia e Conservação. Várias teses de alunos multiplicam minha capacidade de trabalho. Junto à Embrapa, pesquiso como desenvolver o Pantanal de forma preservada. Quando cheguei aqui, vim para trabalhar com peixes, mas rapidamente passei a atuar com jacarés. À época, a Embrapa via a espécie como recurso utilizável e eu penso assim até hoje. Os jacarés eram caçados ilegalmente e pesquisávamos se essa extração era sustentável do ponto de vista biológico e se era possível criar e implementar planos de manejo para atender à demanda.

O Eco – Esse ciclo das peles de jacarés, como surgiu e que efeitos ambientais e econômicos provocou?

GM – Na década de 1980, o Pantanal iniciou um período de cheias expressivas, até por volta do ano 2000. Naquela época, a caça clandestina foi muito intensa e o Estado respondeu tentando coibir a atividade, criando as polícias ambientais e uma legislação repressiva. Pessoas morreram nesse processo. Era guerra. Começamos a trabalhar com jacarés, vivos e caçados. Em toda apreensão, éramos chamados e medíamos as peles, ou quando encontrávamos acampamentos abandonados de caçadores medíamos crânios. A percepção da sociedade era de que o jacaré estava em extinção pela caça intensiva. Mas quando cheguei à região, literalmente tropeçava em jacarés. As populações eram vigorosas e não vi a espécie em perigo em nenhum momento. O próximo passo foi divulgar esses dados. A caça seguiu intensa até 1992, quando uma repulsa mundial incidiu sobre peles de crocodilianos e outros produtos. Deixou de ser moda usar uma bolsa ou outro produto de jacaré. A procura e os preços caíram muito no mercado internacional. Até hoje isso não foi retomado de forma expressiva.

O Eco – O Brasil perdeu uma oportunidade para organizar o manejo de uma espécie, optando apenas por medidas repressivas?

GM – Sim. Na época deveriam ter sido desenvolvidos instrumentos legais e ocorrido investimentos para capacitar instituições em monitoramento e controle. Com muita água, há muito jacaré, e há grande demanda internacional. Assim, mesmo se extraindo parte de uma população, ela é capaz de se recuperar. Claro que isso deve ocorrer conforme critérios científicos que limitem quantidades e definam locais de captura. Outros países fazem isso. Quando a caça era legalizada no Brasil, na década de 1960, éramos o maior exportador de peles de crocodilianos. Agora, com a opção por criadouros legalizados, nossa participação é irrisória.

O Eco – Isso ocorreu por quê? É mais fácil proibir do que regular?

GM – É verdade. Sempre que os dirigentes têm algum problema de difícil solução, a primeira reação é proibir tudo. Tudo isso poderia ter sido mais bem pensado.

O Eco – Que outros países manejam jacarés e qual a situação da espécie nesses locais?

GM – Os Estados Unidos sempre usaram sua fauna silvestre. Lá a caça de jacarés foi proibida até que estudos fossem feitos, quando a atividade foi retomada, com sistemas de controle diferenciados em vários estados, como Louisiana e Flórida. O país tem aumentado sua participação no mercado mundial, com cerca de 200 mil peles por ano e as populações de jacarés estão muito bem. A Bolívia tem cota anual de 50 mil peles por ano, autorizado pela Cites (Convenção Internacional sobre Comércio de Espécies Ameaçadas). Agora, a extração boliviana de jacarés ocorrerá em áreas muito próximas à fronteira brasileira. Deveríamos estar nos informando sobre essa iniciativa.

O Eco – Essa prática é realmente sustentável, não pode prejudicar a espécie?

GM – O pior que pode ocorrer a uma população silvestre é não se saber nada sobre ela. Se há uma população isolada entrando em declínio, é preciso acompanhar o processo. Foi assim que perdemos a ararinha-azul. Quando se tem uma atividade econômica controlada e legalizada sobre uma espécie, isso pressupõe monitoramento, com biólogos realizando contagens e controlando a saúde dessas populações. Se algo de errado for detectado, há tempo para se fazer o necessário. Nesse sentido, acredito que é preferível uma população sendo usada do que não se ter informação alguma sobre ela. Além disso, somos o país com mais espécies e vários compromissos internacionais assinados obrigando sua conservação. Se formos apenas gastar dinheiro a fundo perdido para proteger essas espécies, vemos países mais pobres em biodiversidade, como os Estados Unidos, fazendo uso dessas riquezas. Acho essa divisão injusta.

O Eco – O manejo do jacaré ou de outra espécie associado ao turismo pode ser uma alternativa econômica para o Pantanal?

GM – Aproveitar a fauna silvestre como recurso cênico é sensacional. Países da África tem usado desse artifício com grande entrada de recursos e resultados positivos para a conservação. Gostaria de ver o mesmo acontecendo aqui, pois temos muitas espécies com apelo turístico. A variedade de aves no Pantanal é tremenda, observadores de aves do mundo todo vem para cá. Também há espécies carismáticas, como a ariranha, a onça-pintada, o tamanduá-bandeira com seu design tão diferente. Gostaria de ver esses “produtos” valorizados como forma de conservação de habitats e de espécies.

O Eco – Por que o brasileiro não conhece o Pantanal?

GM – O Pantanal ainda é caro para o padrão dos brasileiros. Um passeio pelo Rio Paraguai em um grande barco-hotel ou a hospedagem nos maiores hotéis-fazenda custam tanto quanto uma viagem internacional. Essa questão terá que ser equacionada, se houver mesmo uma opção pelo turismo. Outro problema se verifica em meses como agosto e setembro, quando a fumaça de carvoarias chega a impedir poucos e decolagens de aviões menores na região. Como trazer turistas para ficar tossindo com toda essa fumaça? Hoje, o desmate cresce porque pecuaristas precisam aumentar suas áreas para poderem competir com quem produz no Cerrado e outras regiões. Isso vai na contramão do turismo. Precisamos definir qual desenvolvimento queremos para o Pantanal.

O Eco – Quais são outras ameaças ao bioma?

GM – No momento, estou especialmente preocupado com barragens para usinas hidrelétricas, principalmente pelo grande número de pequenas (PCHs). O Pantanal é um sistema que existe pela variação de cheias e de vazantes. Hidrelétricas contrariam essa lógica, põem por terra o principal mecanismo que fez do Pantanal o que ele é.

Confira aqui texto sobre uso econômico do jacaré, por Guilherme Mourão.

Veja mais:

Herdeiros da guerrilha pantaneira
Um voto pelo Pantanal

Comentários
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Lucidez
Ocelote 11/11/2008 17:05:47

Finalmente uma instituição respeitada no Brasil (e fora dele)pelas soluções
que têm oferecido ao país, seja na área de alimentos, seja na de energia, ou
na de recursos genéticos, ou gestão ambiental, volta a aparecer na mídia para
falar verdades e jogar um pouco de lucidez nesta discussão. Tenho acompanhado
desde muitos anos o desenvovimento da equipe da Embrapa no Pantanal, e estava
sentindo falta de um retorno maduro a este debate. A Embrapa já foi uma
referencia na gestão de fauna nativa naquela região, mas esta vertente de suas
pesquisas esbarrou na legislação arcaica, tímida, anacrônica e atrasada do
Brasil. Uma pena!
Espero que a sociedade saiba aproveitar o potencial
intelectual existente e as abordagens realmente sustentáveis, como bem mostrada
pelo Dr. Guilherme. A pesquisa sozinha não consegue resolver os problemas, ela
simplesmente aponta soluções. Cabe à nossa sociedade se juntar aos nossos
cientistas na busca de mudanças para melhor da nossa legislação. Sem
paixões, sem ingenuidade, sem obscurantismo.
Em que pesem todas estas
reações emotivas em relação ao uso da fauna como recurso natural, um fato
que ninguém pode negar é que as atividades agrícolas e outras formas de uso
extensivo da terra matam muito mais, e quase sempre levam à extinção local.
Enormes parcelas da população de nossas espécies silvestres simplesmente
desaparecem, muitas antes mesmo de serem conhecidas.
Assim, movimentos
contrários ao uso sustentável da fauna nativa são absurdamente míopes, ou
então são contaminados por posturas emotivas. É incrível como não se
consegue nem racionalizar sobre os fatos! Talvez, isso seja fruto da
urbanização acentuada da população brasileira, somada ao desvínculo em
relação à fauna. A proibição de tudo desde 1967 foi uma decisão burra.
Deveríamos ter investido na transformação das atividades ligadas ao uso da
fauna em uma coisa sustentável, com bases científicas. Por um simples motivo:
o que não tem valor para a sociedade, é gradualmetne eliminado. Prova disso é
nossa sempre crescente lista de espécies ameaçadas! E nada é feito para que
esta lista pare de crescer....veja a situaçào do cerrado, da amazônia, da
mata atlântica....
Acho que os que se chocam com uso da fauna com fins
econômicos deveriam parar de comer soja, milho, arroz, feijão, carne, e tudo o
mais, além de não usar eletricidade e uma gama imensa de itens que amparam a
vida humana neste país. Sim, porque estas atividades matam nossa fauna pela
eliminação quase que completa de habitats naturais, e em escalas muitas vêzes
difíceis de se imaginar. Cadê a gritaria? cadê a legislação ambiental
estritamente aplicada? cadê a fiscalização? cadê a coragem de decisão
contrária em casos de prejuízos comprovados previstos em análises de
impactos? aqui tudo pode....
Portanto, é preciso lucidez e coerência. E é
preciso dizer que aqui não estou de forma alguma defendendo o prazer mórbido
de caçar um animal pelo prazer, ou pelo troféu que isso representa.
A
entrevista com o Dr. Guilherme é, portanto, excelente! É preferível usarmos
com parcimônia nossos recursos naturais do que fingir que proibir salva os
nossos animais silvestres. O manejo sustentável da fauna em áreas com o
Pantanal é uma alternativa para ao desmatamento para aumentar a produtividade
nas fazendas. Este desmatamento, sim, causa o desaparecimento de faunas e floras
inteiras. Num cotraponto, manejando algumas espécies com potencial para isso,
salva-se toda uma biodiversidade nos habitats que deixam de ser destruídos, já
que as fazendas passam a ser viáveis economicamente sem destruir os habitats da
fauna VALORIZADA.
Assim, Embrapa Pantanal, invista novamente nesta linha de
pesquisa! só assim poderemos diminuir as chances de aparecimento de alguns
malabarismos esdrúxulos e projetos/modelos oportunistas baseados em "caixas
pretas", como alguns que temos visto pipocando no Brasil nos últimos
tempos.
Sem cevas de onça, sem confinamento em cativeiro, sem abordagens
milagreiras que só enchem os bolsos de vendedores de ilusão (projetos,
projetos, projetos)
A lucidez do pesquisador da Embrapa me dá esperanças de
que um dia as coisas se encaixem melhor, neste país ainda muito
desconjuntado....
O mesmo recado dou às universidades.
De minha parte, aqui
de Brasília, fico só espiando, tentando ver para onde as coisas vão......
Concordo com o comentário
Telcio Prieto Barboza 13/11/2008 07:44:52

Concordo com os comentários do colega Ocelote.
Sou Pantaneiro por essência.
Minha família morou, trabalhou, viveu e ainda hoje vive na região do Pantanal
do Nabileque (Corumbá/MS). Fui criado na região e sempre que possível volto
para lá, pois sou apaixinado pelo lugar. O Pantanal do Nabileque não é uma
região explorada turísticamente. Pelo menos não profissionalmente explorada.
O que existe lá são visitantes dos municípios vizinhos (Principalmente
Bonito/MS) que exporadicamente vão para lá pescar.
Nota-se exatamente como
dito nos comentários do colega que a cultura preservacionista faz com que as
pessoas vejam somente a pecuária extensiva como forma de produção rentável
na região. O Turismo nem passa pela cabeça da maioria das pessoas lá. Muito
menos a exploração "comercial/econômica" de outras espécies.
Ocorre
que, não seria melhor que se tivesse, conforme sugerido, uma política de
exploração de todo o potencial que a região oferece ao invés de uma
monocultura bovina que a olhos vistos, feita de maneira desocntrolada pode ser
expremamente danosa ao ecossistema local?!
Digo isso porque com o passar dos
anos com minhas idas de tempos em tempos a região é notória as
transformações por que ela passou. Leitos de rios e corixos se modificam.
Campos antes limpos e com pastagem natural abundante se tranformam em áreas
sujas de arbustos espinhosos que impedem o desenvolvimento de atividades
pecuárias e motivam as queimadas. Essas mudanças, segundo os próprios
pantaneiros, se dão em função do aumento desordenado na quantidade de bovinos
nas fazendas da região após o longo ciclo de grandes cheias.
Concordo quando
dito que é preciso rever as atividades, criar opções, sair da monocultura
pecuária.
Não sou um cientista da área como o Dr. Guilherme Mourão, mas
entendo e vejo os impactos por que a região pantaneira passa. As regiões são
grandes mas a fragilidade delas é proporcinal ao seu tamanho.

Parabéns pela
reportagem!!!
Controle de superpopulação de Jacarés
laurent lefebvre 13/11/2008 12:35:39

È dito hoje que tem jacarés demais no Pantanal. É preciso regular esta
população, pois quem está no dia a dia no campo obs que:

Jacarés comem de
preferência peixes pequenos, isso afeta a criação dos peixes, que vai
mal!

Está cada vez mais raro ver cobras no pantanal, o jacaré está
predando encima de presas pequenas que convivem na agua também!

O risco é
chegar no ponto em que o jacaré tenha dificuldade de se alimentar, aí vai
ocorrer ataques a humanos.

Porém, se abrir e legalisar uma temporada de
caça, não creio que a fiscalização dará conta de controlar a entrada de
gente com armas, outras espécies serão caçadas.

É preciso discutir mais a
respeito!
Superpopulação é lenda!
Ocelote 14/11/2008 04:55:43

Temos que parar de falar em superpoplação de jacarés no Pantanal! Este é um
conceito distorcido, e a realidade é que o ambiente limita o número de
jacarés que podem viver em uma determinada região. O resultado da
super-população deveria ser declínio no número de jacarés, e eliminação
de seus recursos alimentares. Isso não ocorre na natureza facilmente, devido
aos mecanismos que limitam o crescimento das populações.
A abundância das
populações de jacarés, capivaras, aves e outros bichos mais, no Pantanal, se
deve à alta produtividade do ecossistema, em função principalmente deste
ciclo de cheias e secas...lembre-se que áreas úmidas estão entre os
ecossistemas mais produtivos que existem, daí a preocupação com atividades
que alteram este ciclo, como as hidro-elétricas citadas pelo Dr. Guilherme. Os
cientistas estão dando este alerta há algum tempo, incluindo retificações do
rio Paraguai, assoreamento dos rios no Pantanal, etc.

Uma das fontes desta
lenda de super-população é a imprensa, que replica informação errada há
décadas, fixando um conceito e uma realidade que na verdade não existe em
absoluto. É preciso corrigir isso rapidamente.

Outra falácia é o impacto
dos jacarés sobre o estoque de peixes do Pantanal. Uma enorme mentira....os
jacarés se alimentam muito mais de caramujos, caranguejos e peixes lentos (como
cascudos e traíras) do que de outros peixes....(tá cheio de trabalhos já
publicados sobre isso, mas os cientistas também são culpados por não
divulgarem as coisas em linguagem acessível para o público geral, e em
português!!!). Os jacarés ainda prestam um serviço ambiental de valor
financeiro incalculável que é a fertilização das águas, através de suas
fezes ricas em nitrogênio....

Decisões coletivas tomadas com base em
confusões coletivas só geram mais confusões e desastres.....

Temos que nos
informar melhor, usar bom senso e equilíbrio...
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