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De volta ao tempo das cavernas
Andreia Fanzeres e Aldem Bourscheit   
17/10/2008, 19:12

Já chegou ao gabinete da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, uma minuta para alterar profundamente a principal legislação que garante a proteção das cavernas brasileiras. Considerado uma importante conquista da área ambiental, o Decreto 99.556/1990 tem sido uma pedra no sapato de empreendimentos como a usina hidrelétrica de Tijuco Alto, no sul de São Paulo, e à exploração de minério de ferro em Carajás, no Pará. Por essas e outras, há dois anos o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) travavam uma delicada negociação para tentar mexer nessa legislação, mas sem prejudicar a proteção do patrimônio espeleológico brasileiro, na medida do possível.

Nesta semana, tudo desandou. A negociação foi interrompida pela Casa Civil, que jogou a área ambiental para escanteio e, basicamente, só quer considerar as cavernas intocáveis se elas forem monumentais, isto é, se tiverem características excepcionais, como a maior do país, ou características biológicas únicas, por exemplo. As outras passam a ser vistas como passíveis de sofrerem impactos, claro, devidamente compensados com dinheiro dos empreendimentos como reza a cartilha do licenciamento. Avaliações iniciais indicam que esse “resto” equivale a nada menos que 80% das cavernas brasileiras, estimadas em cem mil pelo governo. Apenas sete mil estão relativamente mapeadas.

A proposta de decreto tenta fazer algo inédito em nível global, classificar essas formações subterrâneas em níveis de relevância - baixo, médio, alto e máximo -, levando em conta critérios ecológicos, paleontológicos, religiosos, cênicos e arqueológicos. Como se vê, missão multidisciplinar para lá de trabalhosa, mas que nem assim aos olhos do governo inspirou participação científica.

De acordo com a biológa e espeleóloga Maria Elina Bichuette, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o envolvimento dos pesquisadores foi mínimo. “Tivemos uma reunião no primeiro semestre e ficaram de mandar a minuta do decreto. Até hoje não recebemos nada”, disse.

Dentro do Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav/ICMBio) têm acontecido discussões sobre a classificação de relevância considerando todos esses atributos, mas ainda muito longe de um consenso. “É muito difícil. Às vezes uma caverna não é considerada relevante do ponto de vista cênico, mas para diversidade de fauna é importantíssima. Só agora estamos começando a testar um modelo para tentar mensurar matematicamente as cavernas com esses critérios, mas não temos ainda indicação nenhuma de que isso funcionará”, comentou Maria Elina.

Alheia a isso, a minuta do novo decreto diz claramente que a metodologia para a classificação de relevância ficará pronta em 60 dias. Cada classificação dependerá, também, de estudos científicos, ainda tão raros nos subterrâneos do país, ou das pesquisas feitas por cada empreendedor, para cada obra.

O espeleólogo e membro da Redespéleo Brasil Luís Beethoven Piló participou dos debates com o governo que resultaram na proposta de decreto que circula nos escaninhos profundos da Casa Civil. Segundo ele, a sugestão dos exploradores de cavernas era de que os impactos em formações com relevância média fossem compensados também com a proteção de outras cavernas pelos empreendedores. No entanto, decisões políticas e críticas sobre elevação de custos em obras de infra-estrutura pesaram mais forte na balança das negociações governistas e a destruição as lapas com relevância média será compensada conforme critérios do Instituto Chico Mendes (ICMBio) e do licenciamento ambiental. Degradar cavernas de importância baixa não obriga o empreendedor a qualquer ação mitigatória.

“Poderemos ter uma perda significativa de cavernas de média e baixa relevância”, comentou Beethoven, também ligado ao Grupo Bambuí (MG) de espeleologia.

O espeleólogo veterano Clayton Ferreira Lino, da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), que participou da mobilização para aprovar o decreto que ainda está em vigor, espera forte reação estrangeira se o decreto for assinado nos moldes atuais. “Nunca se teve uma ameaça tão grande de retrocesso como a situação que estamos passando com as cavernas, talvez comparável ao problema que a Amazônia vive, guardadas as devidas proporções”, ressaltou.

Pela importância do tema, ele devia estar sendo discutido em outras esferas. “O conceito de relevância precisa ser mais trabalhado, com base científica e não política ou econômica”, diz Lino. Para ele, além da participação dos pesquisadores, seria bem plausível que audiências públicas fossem promovidas para envolver a sociedade nessa discussão. Apesar disso, Beethoven, da Redespéleo Brasil, acredita que nem tudo está perdido.

A gestão do patrimônio espeleológico segue nas mãos do governo federal, não foi repassada aos estados, e as possibilidades de compensação poderão trazer recursos para a criação ou ampliação de áreas protegidas com cavernas. “O decreto anterior engessava qualquer empreendimento, qualquer buraquinho era intocável. Agora, ao menos, estão tentando ajustar o uso e a proteção do patrimônio espeleológico. Não há condições de se preservar tudo, mas a compensação tem que ser voltada para a conservação do patrimônio espeleológico nacional”, completou Beethoven Piló.

Veja também:

Cavernas da Chapada sob risco

Riquezas profundas da Serra do Ramalho

Os subterrâneos de Igatu

Admirável mundo novo

Cavernas reabertas – Salada Verde

 

Comentários
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retrocesso generalizado
Alice Okawara 18/10/2008 12:46:39

O fato citado em Carajás se estende por Minas Gerais. Existe uma grande demanda
na expansão de empreendimentos de mineração de ferro no quadrilátero,para
atender uma demanda exterior, sendo pouquíssimo conhecida a existência de
inúmeras cavernas inseridas nos locais pretendidos pelas empresas. Pelo andar
dos processos e a maneira como eles têm tramitado com a infame conivência dos
órgãos públicos de todas as esferas em relação ao setor econômico, o
patrimônio espeleológico muito perderá, sem contar todo o resto que vem se
perdendo concomitantemente. As comunidades locais de uma maneira geral têm
perdido sua cultura e identidade e em contrapartida têm adquirido um enorme
passivo socioambiental, recheado de violência, alto índice de criminalidade,
inflação, precarização na área da saúde, trânsito, saneamento,perda dos
recursos hídricos, etc.
O Estado de Minas Gerais pede socorro!Em relação a
esse patrimônio espeleológico existente, o qual não há ainda nenhum estudo
específico, a não ser um cadastramento em andamento encomendado pelo setor
econômico,e provavelmente pouco abrangente em relação a área
bioespeleológica, o que pode ser feito de efetivo para preservá-lo?
RETROCESSO !!!!!!
Joaquim Ruiz 19/10/2008 21:17:41

Nada mais me espanta. RETROCESSO deve ser a palavra chave da política
nacional, estadual e municipal de Meio Ambiente neste e na maioria dos governos
que tivemos nestas últimas tristes décadas.

Joaquim Ruiz
Que absurdo!
Isis 20/10/2008 07:24:33

A cada dia que passa mais notícias tristes aparecem. Que
absurdo...

xisxis.wordpress.com
Fada Madrinha
Anderson de Carvalho Soares 20/10/2008 13:09:20

Vcs acreditam em fadas madrinhas? O meio ambiente ganhou uma. Atende aos
desejos, mas vira abóbora depois da meia noite. O pior é que não tem baile,
nem príncipe, nem sapatinho de cristal. Talvez só uma moral de cristal...
Abçs.
Fotos maravilhosas
William Pereira 21/10/2008 07:20:28

As fotos disponíveis na GALERIA são de fato maravilhosas. Parabéns ao
fotografo.
Pena que elas não podem ser copiadas para servir como pano de
fundo das áreas de trabalho (Desktops) contribuindo na divulgação do
trabalho.
É Lamentável. Um disperdício. Como eu troco todo dia a foto da
minha estação não poderei usar as da galeria.
Mesmo assim, parabéns pela
qualidade das imagens.
Legisladores de meia tigela
Emerson Gomes Pedro 21/10/2008 07:48:03

Isso já havia sido denunciado mas infelizmente existe uma corja podre na
gestão de nosso pais, um bando que apenas está interessado no seu proprio
bloso porque estáclaro para todos que muito dinheiro está envolvido na
questão, grandes empresas como a Vale do Rio Doce, Camargo Correia, Votorantin
entre outros é que serão beneficiados portanto temos é que tomar vergonha na
cara e denunciar mais este caso que está cheirando a mais uma artimanha de
nosso governo de fantoches.

Realmente fomos chamandos para uma reunião no
começo do ano, nenhum documento foi disponibilizado e as promessas de que a
comunidade espeleologica estaria participando ativamente do processo foi mais
uma enganação, a SBE emitiu um parecer a Câmara sobre a PL 2047 e por
incrivel que pareça eles quizeram explicações do porque a SBE não recomendou
a supreção de cavernas ou seja não apoiou a PL, É um absurdo, tomem vergonha
na cara. Temos de acabar com este bando de oportunistas e legisladores de meia
tigela.

Emerson Gomes Pedro
Presidente da SBE
Eustáquio Mendes 21/10/2008 08:49:01

William, não é desperdício, é direito autoral.
A Sra. em questão não é presidenciável?
Alberto A. Silva 21/10/2008 21:08:40

Pessoal, além das ações para evitar que isso ocorra, não esqueçamos disso
nas próximas eleições presidenciais.
Vamos nos mobilizar!!!
Júlio Linhares 22/10/2008 09:04:50

Diante dos últimos e lamentáveis fatos políticos ocorridos em relação à
legislação espeleológica nacional, sugiro, neste momento delicado e urgente,
a união da comunidade espeleológica a fim de nos mobilizar para tentar mudar
essa situação de retrocesso!!!
O que o Min. Mink pensa sobre o assunto??
Alguém tem condição de tentar sensibilizá-lo??
Como podemos pressionar o
governo para realizar uma audiência pública?? Será que o MP tem força sobre
a Casa Civil??
Acho que uma ação direta e maciça na mídia tem efeito
significativo. Como podemos fazer??
De Volta ao Tempo das Cavernas
Nancy Santos Silva 22/10/2008 17:39:18

A cada dia uma nova notícia deanimadora!
Rios, florestas, animais e ,agora,
cavernas...
Pobre natureza! Pobre Brasil!
fotos da matéria
Adriano Gambarini 22/10/2008 20:28:23

Caro William, obrigado pelos elogios. Sou o autor das fotos, e talvez mesmo por
isto deva explicar-lhe uma coisa:
pela Lei de Direito Autorial nº 9.610 de
19/02/1998, QUALQUER imagem utilizada deve ser PREVIAMENTE AUTORIZADA pelo
autor.
Cabe a mim, como fotógrafo profissional e detentor de um acervo de 50
mil fotografias, explicar-lhe, já que talvez você não saiba, mas se você
costuma pegar fotos na internet sem prévia autorização, tome cuidado. Isto
pode lhe causar sérios problemas judiciais.
Estas fotos da matéria eu
disponibilizei UNICAMENTE para o site OECO, e portanto, proibido qualquer outra
utilização.
Atenciosamente,
Adriano Gambarini
Proposta insana, indecente e nefasta
Marcelo Augusto Rasteiro 24/10/2008 14:18:42

A proposta apresentada pelo governo é insana e mostra que nosso país ainda
quer o "desenvolvimento" econômico a qualquer custo.
Não é possivel
que qualquer pessoa de boa fé e minimamente instruida concorde com este
retrocesso na legislação.
Leiam o manifesto divulgado pela Sociedade
Brasileira de Espeleologia.
www.sbe.com.br/manifesto.asp
absurdo
Marcos 29/10/2008 10:16:27

só no Brasil mesmo......
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