Assalto à central hidrelétrica PDF Imprimir E-mail
Andreia Fanzeres   
14/10/2008, 17:15

Na manhã do dia 11 de outubro, os índios enawenê nawê mostraram que nem tudo está caminhando conforme desejam os empreendedores do complexo hidrelétrico do rio Juruena (MT). Por volta das 8h, 42 barcos chegaram de surpresa ao canteiro de obras da PCH Telegráfica (30MW), a menos de 20 quilômetros da terra indígena, com 120 índios. Eles expulsaram os funcionários da usina, em estágio inicial de construção, e atearam fogo em alojamentos, escritórios, caminhões e oficinas. Em três horas de manifestação, estava tudo incendidado, conforme revelam imagens que já circulam na internet, atribuídas aos empreendedores. Os enawenê nawê retornaram à aldeia em seguida.

Este foi o resultado prático da insatisfação do grupo em relação às discussões sobre compensação financeira e planejamento de outras dezenas de usinas hidrelétricas próximas à terra indígena. “Não queremos nenhuma PCH”, disseram enawenê em entrevista na manhã desta terça-feira em Juína (MT). Segundo eles, os índios haviam concordado em receber uma compensação de 1,5 milhão de reais por cinco usinas em construção durante uma reunião com a Funai em setembro. Na realidade, a proposta era dar às cinco etnias afetadas um total de seis milhões de reais.



Em novo encontro, desta vez na presença de representantes dos empreendedores Maggi Energia e Juruena Participações no início do mês de outubro, os enawene foram os únicos a voltar atrás. Em conversas na aldeia, refletiram sobre os impactos das usinas, que se somaram à surpresa da nova proposta dos empreendedores, a de que esse mesmo valor cobrisse não cinco, mas oito empreendimentos. Em protesto, eles se retiraram da reunião. “A gente viu no mapa da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) que tem muito mais usinas previstas para a região. Não são só essas aí. Elas vão nos prejudicar”, disse um deles.

Os enawenê, que entre as outras quatro etnias potencialmente atingidas (paresi, nambiquara, mynky e rikbaktza) têm as áreas mais próximas das pequenas centrais hidrelétricas, dizem que já sentem os efeitos da degradação do rio Juruena. “Quando chove o rio fica muito sujo perto da nossa aldeia. Os peixes também estão diminuindo. São as PCHs, é a soja”, contam. Boa parte do alto rio Juruena, onde o complexo já está sendo erguido, não é mais cercado por matas, mas por lavouras de soja nos municípios de Campos de Julio e Sapezal, dominadas pelo Grupo Maggi.

Procurado pela reportagem, o representante da Juruena Participações que participou das negociações financeiras com os índios, Frederico Muller, não retornou às ligações até o fechamento desta edição. Muller é ex-presidente da extinta Fundação Estadual de Meio Ambiente de Mato Grosso (Fema). O diretor da Maggi Energia informou que não vai se pronunciar oficialmente porque o protesto não ocorreu nas obras da empresa.

Nova tentativa

O Ministério Público Federal em Mato Grosso não desistiu de contestar judicialmente o processo de licenciamento ambiental do complexo Juruena. Depois de ver a ação indeferida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, em junho deste ano, o MPF insistiu na Justiça e protocolou outra ação, dando mais enfoque à incoerência e aos procedimentos da secretaria estadual de meio ambiente na concessão das licenças. Ela também foi indeferida, mas na semana passada a procuradoria entrou com um recurso no Tribunal Regional Federal e aguarda uma nova posição sobre suspensão ou não das obras.

De acordo com o procurador Mario Lucio Avelar, apesar dos danos materiais provocados pelo protesto dos índios, é preciso compreender o contexto dos acontecimentos. “Foi uma reação desastrosa diante de uma situação imposta pelo poder econômico e político, sem observar direitos e garantias fundamentais”, explica o procurador, que critica falta de transparência na condução do licenciamento e de participação efetiva dos índios em todas as negociações.

“Não podemos esquecer que não são dez ou 12 usinas, mas 83, de acordo com a EPE”. Em julho, a EPE apresentou mapas aos índios revelando a existência de mais de 80 projetos hidrelétricos em fase de estudos nas bacias dos rios Juruena e Aripuanã. “É preciso enxergar essa questão das PCHs com uma outra perspectiva”, diz Avelar.

Nessa nova briga judicial, o MPF não fez uso do parecer técnico da Funai de agosto deste ano, que encontrou erros grosseiros na Avaliação Ambiental Integrada (AAI), elaborada pelos empreendedores, e que justificou a concessão das licenças prévias para as usinas em construção. Apesar das críticas do órgão federal ao licenciamento, Avelar vê claras contradições no posicionamento da Funai. “Se a Funai admite aquele parecer como verdadeiro, ela devia buscar outras instâncias para questionar o licenciamento, e não partir para a negociação financeira, como ocorreu na semana passada em Cuiabá. Se os impactos não foram corretamente mensurados, por que a Funai quer transformar isso em dinheiro?”, indaga.

Veja também:

Dúvidas tardias sobre o Juruena
Parecer da Funai encontra falhas graves na avaliação ambiental que serviu para renovar as licenças de usinas em construção no Rio Juruena (MT).

Índios contra hidrelétricas
Governo quer concluir inventário hidrelétrico de bacias em MT e pede aval dos índios para entrar em suas áreas. Muitos grupos dizem não. Para seguir cronograma, Exército foi sondado.

Parem as máquinas
Justiça anula licenças de usinas do complexo hidrelétrico Juruena (MT). Ação civil pública aponta efeitos diretos em terras indígenas e irregularidades na dispensa de estudos.
Comentários
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Ledo engano
Luiz 14/10/2008 17:14:35

Não existe central hidrelétrica, apenas um canteiro de obras.

A ação dos
Enawene, embora de condenável violência, expõe a trágica situação dos
povos indígenas no noroeste matogrossense. Partícipes marginais dos processos
de licenciamento na Sema e mal assistidos pela Funai, resta-lhes a exposição
às negociatas, barganhas e extorsões.

Vê-se quão confiável é a palavra
oferecida em acordos escusos como os mencionados na reportagem. Os 6 milhões
imediatamente tornaram-se 1,5 para cada povo, ao passo que as 5 hidrelétricas
logo eram 8.

Com a palavra, os auto-proclamados empreendedores. Eles que um dia
imaginaram caminhos mais fáceis para suas fortunas às custas do grandioso
Juruena.
Salvador Benevides 15/10/2008 08:51:02

Eu não sei não, estamos vendo nos ultimos 10 anos um espetáculo de Justiça
graúda mancomunada com empresários graúdos e o Executivo, até o Supremo
envolvido, ou seja: as ultimas instâncias do estado de direito no país estão
visivelmente podres e a gente começa a se perguntar: a quem recorrer? Os
indios recorreram ao que eles já conhecem: violencia, violencia que é
conhecida por aqueles que lá estão para tomar tudo. Realmente, estamos
entrando num novo ciclo de abusos e violencias pesadas, em nome da Nação ou em
nome de projetos de Nação e essa história a gente com mais de 40 conhece bem.
Adrenalina Versus Desenvolvimento
Selma 16/10/2008 11:59:55

Diferente das outras pessoas que escreveram os primeiros comentarios, quero
dizer que senti na pele a sensação de perda de uma pessoa que estava
trabalhando nessa obra. Foram os 10 minutos do dia 11/10/08 que jamais vou
esquecer, pois foi o tempo de receber outro telefonema e constatar que esta
pessoa estava bem e em segurança.
Pois bem, esta pessoa estava feliz,feliz
por estar trabalhando e continua na espectativa de voltar a trabalhar. É fato,
que Mato Grosso é visto por muitos como Terra de índios, longe da
"civilização" e é esta mesma "civilização" que muitas
vezes forma, ou pelo ao menos tenta formar opinião, sobre assuntos que
desconhece e não faz parte de sua realidade.
É de conhecimento público (para
quem teve acesso ao estudo)a história de colonização do Brasil, que até
alguns anos atraz era totalmente rural e Mato Grosso então...! Mas, muito bem,
o Brasil mesmo com problemas...vem se desenvolvendo e Mato Grosso também e aí
que eu queria chegar. Mato Grosso não pode parar. Tem que se desenvolver e
infelizmente, o desenvolvimento esta atrelado ao impacto e é para isso que
existem os profissionais da área, como eng. florestal, agronomos, etc. e aí a
parte tecnica, deixo para quem se habilitar a escrever.
Quero apenas ressaltar
que nós matogrossenses, não queremos parar no tempo e que Mato grosso precisa
sim de pequenos, médios e grandes projetos, sejam no setor primário,
secundario, porque o setor terciário, que é a prestação de serviço, precisa
dos dois setores anteriormente citados, pois é a partir deles que surgem
serviços para o setor terciário. Vocês já pararam para pensar, quantas
empresas e empregos indiretamente, um empreendimento desse porte como PCH pode
gerar? Não vou entrar no mérito da questão indigena e nem politica, porque
isso é uma instância maior e os órgãos competentes estão aí para
resolver.
Outrossim, gostaria de registrar neste site, minha opinião, como
reflexão, sobre desenvolvimento sustentável, não sou doutora no assunto, mas
pelo conhecimento literário que tenho e da vida, no sistema capitalista que
vivemos, o desenvolvimento sustentável também é capitalista, mas floream
tanto, quando falam da sustentabilidade, que parece que não vai haver impacto
algum. Isso é utopia, qualquer ambiente, seja micro há alteração, seja de
insetos, de clima etc. O que é necessário é ter profissionais competentes
para aprovar seja RIMA, LAU, etc. para que não aconteça essas pataquadas,
depois de iniciar um projeto, gerar trabalho, envolver pessoas,familias
indiretamente, ocorram essas interrupções. Senhores profissionais que
trabalham com projetos, seja na realização ou na aprovação deles, vamos
trabalhar sério, não sejam radicais, porém tenham sabedoria nas decisões.
Emprego em PCH
Joaquim Ferreira 16/10/2008 13:47:25

Só para contribuir com o comentário acima, a PCH Faxinal, em Aripuanã,
emprega 14 pessoas (incluindo o jardineiro).
Temos que Evoluir
Leandro 21/10/2008 17:52:12

O mundo não para de se desenvolver, e tudo tem que se adaptar. Acho que os
índios tem que começar a ver a vida de uma forma diferente, pois se eles
recebecem o dinheiro que queriam não iriam fazer isso, por tanto não é uma
questão de princípios. Ah, por essa última frase eles já estão bem
adaptados. (na para que lhes interresa)
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