Felipe Lobo
19 de Outubro de 2008

No final de setembro, a organização não-governamental Ibioca Nossa Casa na Terra enviou uma carta para a direção do Parque Nacional de Itatiaia. O texto dizia que 400 indivíduos de uma espécie diminuta de sapos (
Melanophryniscus moreirae) endêmica de campos de altitude, estavam sendo criminosamente mutilados. “Eles cortam os dedinhos do sapo com gilete, depois inflama, cria um tumor e o animal morre. Há trabalhos em inglês condenando essa técnica”, acusou a autora da denúncia, Lucila Moura, vice-presidente da Ong. O que Moura qualificou como mutilação, para muita gente, é ciência. “O corte de falange é uma metodologia barata e eficiente de marcação, o que viabiliza estudos de longo prazo sobre dinâmica de populações de diversas espécies”, diz o herpetólogo Reuber Brandão, da Universidade de Brasília.
Conhecido como ablação de dígitos, o método é usado no mundo inteiro para marcar pequenos anfíbios, répteis e mamíferos. “O 'carimbo' permite que o biólogo avalie noções como longevidade, densidade populacional, alimentação etc”, afirma Marcelo Lima Reis, técnico da diretoria de conservação da biodiversidade do Instituto Chico Mendes e especialista em mamíferos. De acordo com ele, a técnica, apesar de dolorosa para os olhos humanos, é a melhor que existe em animais de porte mínimo. “É preciso apenas tomar cuidado com o manejo. Isso significa não cortar mais de um dedo de cada pata e, no máximo, quatro de cada indivíduo. Mas o ideal é que não passe de três”, diz, ao explicar que os dedos não são fundamentais para o nado, alimentação ou acasalamento em determinados anfíbios.
A mesma opinião tem Sérgio Potsch, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e um dos maiores especialistas em sapos do país. Embora não goste da ablação, por sentir pena, ele afirma que a técnica não acarreta qualquer dano para as populações de anfíbios. Falar em mortes, inflamações ou problemas reprodutivos, explica, não passa de especulação. “Além disso, não é raro encontrar mutilações deste tipo – perda de dedos – em muitos animais geradas por causas naturais, sem que o animal apresente qualquer sinal de infecção ou de diminuição de aptidão, como a perda de peso, por exemplo”, diz Brandão.
A polêmica em torno da ablação não é nova e até agora não convenceu muitos cientistas. Um dos poucos que criticam o método é o britânico Robert M. May, da Universidade de Oxford, e uma autoridade em dinâmica populacional de bichos. Em artigo publicado na revista Nature, em setembro de 2004, ele afirma que a ablação de dígitos diminui a recaptura de indivíduos marcados entre 4% e 11% a cada dedo removido. Segundo May, também existe grande possibilidade da prática causar efeitos adversos em anfíbios, como inflamação e infecção nas patas e membros.
Jamie Kristine Reaser e Robert Elias Dexter, professores do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de Stanford, escreveram em 1996, na
Revista de Herpetologia, que há evidências seguras de que o corte das falanges causa a morte de anfíbios pela perda de peso e por causar infecções e necroses generalizadas. Os estudos de May, Reaser e Dexter embasaram os argumentos de Lucila Moura e foram enviados à direção do Parque de Itatiaia e ao Instituto Chico Mendes. Os argumentos nunca encontraram eco. Primeiro porque a ablação é barata. E depois, porque parece ser efetiva para a conservação de espécies.
Trabalho em conjuntoA história do Melanophryniscus moreirae começou a ser conhecida no Parque Nacional de Itatiaia há cerca de quatro anos, quando a bióloga Pilar Guido de Castro deu início aos estudos de campo para seu mestrado na UERJ. A conclusão do trabalho, que usou a técnica em debate e basicamente definiu o perfil do anfíbio, rendeu frutos inesperados para a sua conservação. “Ela descobriu que a espécie se reproduz a partir das primeiras chuvas, em outubro. Nesta época, proibimos a entrada de viaturas no planalto do parque, onde eles vivem”, conta Léo Nascimento, coordenador de pesquisas da unidade de conservação.
Até dois anos atrás, aliás, a Ciência acreditava que os campos de altitude de Itatiaia eram os únicos locais onde se poderia encontrar exemplares do sapo. Hoje, no entanto, sabe-se que eles habitam também os estados de São Paulo e de Minas Gerais.
Assim que Pilar finalizou sua tese, Denise do Nascimento, doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Biologia da UERJ, continuou os esforços. Enquanto a primeira desenvolveu uma tese para avaliar a atividade horária e anual da espécie, Denise trabalha com a dinâmica populacional. “Temos trinta unidades amostrais espalhadas pelo parque, que percorremos mensalmente. Em cada uma delas capturamos os bichos, medimos, pesamos e identificamos o sexo. Já encontrei bicho marcado pela Pilar. Ou seja, sabemos que eles vivem, pelo menos, quatro anos na natureza”, avalia a bióloga, que está em campo há três anos e tem mais um pela frente.
Além do objeto estudado, Denise e Pilar têm em comum também a orientadora, Monique Van Sluys. Doutora pela UERJ, ela é outra que defende a ablação em dígitos por considerá-la essencial para futuros projetos de conservação, apesar do relato de Robert May. “Esclareço que apenas podemos avaliar o 'status' de espécies se compreendermos sua história de vida, e isso inclui acompanharmos suas populações ao longo do tempo. Não há nenhuma evidência de que esse método afeta o mecanismo reprodutivo dos Melanophryniscus moreirae. Outra aluna minha acaba de defender o seu mestrado sobre o comportamento reprodutivo da mesma especie. O projeto teve aprovação do Ibama”, explica.
Até o momento, muito além dos 400 exemplares levantados pela Ibioca Nossa Casa na Terra, Denise já marcou com a técnica da ablação cerca de 1.900 sapos. E pretende continuar o processo até julho do ano que vem, um mês antes de sua análise de campo terminar. Para alcançar número tão grande, ela corta quatro dedos dos anfíbios, o que permite maiores combinações. Trata-se do limite que a Ciência enxerga como saudável. “Não vou chegar a cinco”, diz a pesquisadora.