Reportagens

Agricultura às avessas

Estudo da Embrapa prevê alterações possíveis aos principais plantios do país se até o fim do século a temperatura subir entre 1 e 5,8 graus, conforme estimam cientistas.

Gustavo Faleiros ·
1 de fevereiro de 2007 · 15 anos atrás

Nesta sexta-feira (2), quando o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) publicar suas novas informações sobre o aquecimento global, haverá uma maneira bem ilustrativa para entender como o Brasil poderá ser afetado. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Informática Agropecuária), ligada ao Ministério da Agricultura, e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) já têm prontas diversas simulações sobre os efeitos do calor nas principais culturas agrícolas do país. Os cenários foram feitos com base no relatório anterior do IPCC, de 2001, mas não serão alterados com a nova edição. Na verdade, os prognósticos mais críticos é que vão ser confirmados.

A pesquisa da Embrapa, cujos métodos e resultados podem ser todos encontrados na internet, foi terminada em 2005. Ela mostra o que aconteceria com a soja, o milho, o arroz, o café e o feijão com aumentos de temperatura de 1º C, 3º C e 5,8 º C. Em 2001, o IPCC defendia que as mudanças mais extremadas no clima ocorreriam próximas do fim do século. Tudo indica que agora o grupo internacional de cientistas sustente que uma elevação de aproximadamente 3º C tenha possibilidades concretas de ocorrer nos próximos 50 anos.

Esses 3º C a mais na temperatura média já faria um belo estrago na agricultura brasileira, mostra o estudo da Embrapa/Unicamp. A soja e o milho não conseguiriam mais crescer no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o Nordeste se tornaria inviável para plantios que não fossem irrigados. A cultura do café, por sua vez, buscaria climas mais amenos, abandonado Minas Gerais e São Paulo.

Tais resultados foram obtidos com o cruzamento das temperaturas e diferentes tipos de solo com as alterações esperadas nos índices de pluviosidade. Tudo foi aplicado aos mapas de zoneamento agrícola e climático do território brasileiro. O governo tem previsões aproximadas de quanto se perde nas safras com o clima de cada região e assim desenha sua política de crédito aos agricultores. Por isso, não é difícil imaginar como mudanças na temperatura bagunçariam o sistema econômico montado em cima do financiamento da produção agrícola. “Temos um grave problema econômico nas mãos”, alerta o coordenador do estudo, o pesquisador da Embrapa Eduardo Assad.

SOJA









Se um aumento de 3º C na temperatura causa tamanho problema, as previsões feitas a partir de uma elevação de 5,8º C mostram que haveria uma quebra quase total na agricultura brasileira. Por exemplo, a soja plantada em solos medianamente arenosos teria uma queda de 68% nas áreas consideradas aptas para o seu plantio. Hoje, ela ocupa cerca de 3,5 mil km2 neste tipo de solo, e caíria para 1,1 mil km2. Toda a produção de grãos, incluindo arroz e milho nas novas fronteiras como Oeste da Bahia, Maranhão e Piauí se tornaria inviável. Por isso, o próximo passo do projeto da Embrapa/Unicamp já está em andamento: avaliar quais serão os impactos nos preços dos alimentos e da terra se ocorrerem essas rupturas no fornecimento.

Entre outras questões que estão sendo aprofundadas pela Embrapa há pesquisas sobre micro-climas e pragas agrícolas. Estuda-se quais os impactos de suas alterações na agricultura em função do aquecimento global. A estatal já tem, por exemplo, pesquisas que mostram um aumento do ataque da praga bicho-mineiro do cafeeiro com o calor. Agora, outras pesquisas vão tentar descobrir como reagem pragas como o oídio da soja, o brusone do arroz, e a ferrugem do cafeeiro e do feijoeiro.

Oportunidade de debate

Porém, o que a priori pode ser um choque econômico terá também suas consequências ambientais. O estudo da Embrapa prevê que, com aquecimento, a produção de grãos se concentraria definitivamente no Centro-Oeste do país. O problema é que a região já está bem saturada, como mostram os crescentes desmatamentos do Cerrado. Uma saída que deve entrar em cena, revela Assad, é lançar mão de transgênicos.

Isso mesmo, um dos caminhos seria transformar plantas comuns em espécies resistentes ao calor. Para o pesquisador, o local apropriado para uma pesquisa deste tipo é a Amazônia. Retira-se o gene de uma planta que vive em locais quentes úmidos e o coloca em espécies agrícolas. “Hoje mais do que nunca é preciso preservar a biodiversidade. Não é uma questão ecológica apenas, pode ser a nossa sobrevivência econômica”, argumenta.

Assad faz uma ressalva. Adaptar as plantas ao calor seria possível em certa medida, mas não resolveria todo o problema. Para evitar que as temperaturas causem estragos irreversíveis, o Brasil terá que apostar com vigor nas medidas de mitigação. Seria preciso pensar que tipo de culturas utilizar na agricultura e aproveitar as oportunidades que advém das políticas de redução de emissões. “Estamos sobre uma ameaça forte, mas se tudo for feito com incentivos ao mercado de carbono, teremos uma grande oportunidade.” Para ele, as chances se mostram nos sistemas agroflorestais e no plantio de florestas, ambas atividades boas para sequestrar carbono.

Na opinião de Assad, outra oportunidade que se abre é o uso da bioenergia como meio de reduzir emissões. Ele afirma que seria possível, no curto prazo, atingir escala para a produção de biocombustíveis com soja, amendoim ou girassol. Mas garante que não está defendendo a alternativa cegamente. Entre as idéias de Assad, a mais importante, julga, é a oportunidade do país debater sua matriz produtiva e energética. “O bom que já começamos a discutir isso com 50 anos de atencedência”, afirma com otimismo.

  • Gustavo Faleiros

    Editor da Rainforest Investigations Network (RIN). Co-fundador do InfoAmazonia e entusiasta do geojornalismo. Baterista dos Eventos Extremos

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