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| Manoel Francisco Brito | |
| 18/01/2007, 17:26 | |
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Em outubro de 2001, quando coletou um lagarto numa área de chapada dentro do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas, entre Minas Gerais e Bahia, o herpetólogo Cristiano Nogueira, da Conservation International, tinha certeza absoluta que estava tocando uma espécie que nunca tinha sido descrita. Lembrou-se de uma amostra de um bicho esquisito que jazia ainda anônimo na coleção de répteis da Universidade de Brasília (UnB), e viu logo, pela aparência, que seu achado pertencia ao gênero Stenocercus, cuja maioria das espécies conhecidas está concentrada em áreas elevadas dos Andes. Teve praticamente a mesma lembrança e a mesma certeza ao ver outra espécie de lagarto, coletada pelo curador de herpetologia do Museu de Zoologia da USP, Hussam Zaher, no Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí. A demora na descrição dos bichos é perfeitamente compreensível. Quem suspeita ter esbarrado em um exemplar de fauna nunca antes descrito, tem um trabalhão pela frente para comprovar que de fato trata-se de uma novidade. Precisa fazer exame detido de sua morfologia e ter certeza da sua distribuição, coisas que envolvem escarafunchar a literatura existente sobre o assunto e visitar coleções de répteis guardadas em museus. “É atividade para um, dois anos”, explica Nogueira. No seu caso, demorou bem mais porque ele estava em meio a sua tese de doutorado, que envolvia um levantamento sobre a biodiversidade de répteis do grupo Squamata no Cerrado que o levou, ao longo de sete anos, a percorrer 30 mil quilômetros e pesquisar em 10 localidades diferentes, de São Paulo até o Piauí. Pressões As duas espécies ainda eram cientificamente desconhecidas, mas dos problemas que elas enfrentam para sobreviver, muita gente sabe. Elas têm distribuição restrita e ocorrem em áreas especiais do Cerrado – de savanas densas e secas que crescem em chapadas – chamadas de carrascos. “As populações que vivem dentro dos dois Parques estão relativamente bem”, diz Nogueira. Mas as que estão no seu entorno, nem tanto. “São ambientes muito visados pelas carvoarias”, continua. E quando o interêsse delas diminui, não há refresco, porque as zonas desmatadas, invariavelmente, acabam sendo tomadas pela agricultura mecanizada. Isso condena essas espécies a fragmentação de sua distribuição e a um futuro para lá de incerto. “A maioria dessas espécies não tolera mudanças em seus habitats. Elas têm pouca capacidade de deslocamento fora de seu ambiente específico”, explica Nogueira. Portanto, não adianta imaginar que um lagarto como o squarrosus que venha a ser empurrado para fora de sua área no entorno do Parque Nacional da Serra das Confusões por carvoeiros ou sojicultores vá buscar abrigo dentro da Unidade de Conservação. A população deslocada desaparece. Estudos como o desenvolvido por Nogueira para seu doutorado fazem muito mais do que mostrar a riqueza que existe no Cerrado. São a prova de que nele ainda há muito por conhecer. Por ser uma região dominada por savanas e suscetível ao fogo, foi olhada durante um bom tempo como uma área de biodiversidade empobrecida, pouco digna da atenção da ciência. Para piorar esse, digamos, preconceito, havia o seu isolamento, em certa medida pior até do que o da Amazônia. “Não há tantos rios para facilitar a penetração Cerrado adentro”, lembra o pesquisador. “Nas décadas de 30, 40, só dava para se aventurar pelo Brasil central em lombo de burro, correndo o risco de encontrar índios bravos, como os xavantes e os caiapós”. A mudança de atitude da ciência em relação ao Cerrado, apesar de tardia, é muito bem vinda. Pode ajudar a convencer os brasileiros sobre a necessidade de preservar uma das regiões mais devastadas do país nas últimas décadas.
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