Reportagens

Amazônia sem Fogo chegou na Bolívia – e agora?

Itália, Brasil e Bolívia apostam em programa para reduzir incêndios na Amazônia boliviana. Será um modelo de preservação da Panamazônia.

Giovanny Vera ·
15 de março de 2012 · 10 anos atrás

Fogo na Amazônia boliviana. (Foto: Juan Fernando Reyes–Herencia)
Fogo na Amazônia boliviana. (Foto: Juan Fernando Reyes–Herencia)
Amazônia sem Fogo no Brasil

No Brasil, o programa existe desde 1999 como resultado de uma ação conjunta da Direção Geral da Cooperação Italiana da Embaixada da Itália e do Ministério do Meio Ambiente. Durante um ano, comunidades estudaram técnicas de manejo de fogo com informações variadas que incluíram desde legislação até educação ambiental.

De acordo com o  site do Programa Amazônia sem Fogo de Brasil, até 2011 foram formadas 383 pessoas (chamadas multiplicadoras) de 146 municípios. O total de beneficiados atingiu 1,2 milhões de pessoas e o resultado da ação inclui redução de focos de calor entre 50% e 94%. 

2010 foi o ano que bateu recorde de focos de calor – 158.244 – na Amazônia boliviana, o que obrigou o governo da Bolívia a pedir ajuda ao Brasil para controlar os incêndios na região. É que o fogo correu solto na Bolívia. Houve um incremento de 400% nos focos de calor do ano 2009 a 2010, o que afetou não só a floresta, mas também a biodiversidade, os habitantes da selva e de grandes cidades como Santa Cruz. Para Juan Fernando Reyes, da ONG Herencia, “os focos são originados pela prática de corte-e-queima e por pecuaristas”.

Desde 2007, 300 mil hectares se perderam por ano, e mais de 6 milhões de hectares foram desmatados e perdidos nos últimos 30 anos, tudo pelo desmatamento, queimadas e a expansão da fronteira agrícola do país.

Fogo ameaça florestas na Colômbia

Temporada de fogo na Amazônia boliviana

Diante desta situação, o Ministério de Meio Ambiente e Água (MMAeA) da Bolívia, com apoio do Brasil e da Itália, lançou em janeiro deste ano o Programa Amazônia sem Fogo (PASF) em terras bolivianas. O programa, que existe no Brasil desde 1999, será executado no país vizinho em 39 municípios com o objetivo de “reduzir a incidência de incêndios florestais na região amazônica através da implementação de práticas alternativas que protejam o meio ambiente e melhorem as condições de vida das comunidades rurais”, afirma Ligia Castro, diretora de meio ambiente da Cooperação Andina de Fomento (CAF), uma das financiadoras do programa.

Iniciativa multilateral


Visualizar Municipios bolivianos en PASFem um mapa maior

O programa na Bolívia deve ter duração estimada de 36 meses e custar 3 milhões de dólares, financiamento que será dividido entre os governos italiano, brasileiro, boliviano e a Cooperação Andina de Fomento. Segundo Luigi de Chiara, embaixador de Itália na Bolívia, a iniciativa “integra ações de emergência e desenvolvimento através de atividades de capacitação e divulgação”.

Para o embaixador italiano, este deve ser “um modelo de preservação da floresta em todos os países amazônicos” – e uma chance de a Bolívia reduzir suas emissões de gases estufa, que equivalem a 0,3% do total mundial, mas que em sua maioria decorrem do desmatamento. “É a melhor resposta que podemos dar a uma agenda global de redução de emissões”, afirma Marcel Biato, embaixador do Brasil na Bolívia.

Este é o momento exato para a execução do Programa Amazônia sem Fogo na Amazônia boliviana, pois as condições estão dadas, garante Ligia Castro, já que as atividades exploratórias realizadas pelo Ministério de Meio Ambiente da Bolívia com apoio da Cooperação Andina de Fomento, no ano passado, ficou claro um “forte interesse local nas ações propostas”, além de “existir no país uma organização social estruturada que permite a fluidez do programa”, o que a faz acreditar que ele terá sucesso na Bolívia.
A maior parte dos focos de calor na Amazônia boliviana é provocada pelo homem. (Foto: Juan Fernando Reyes-Herencia)
A maior parte dos focos de calor na Amazônia boliviana é provocada pelo homem. (Foto: Juan Fernando Reyes-Herencia)
Na Bolívia existem pelo menos três frentes simultâneas de combate ao fogo, na qual  diferentes instituições realizam trabalhos descoordenados ou de forma regional, desperdiçando os poucos recursos e sem conseguir o resultado necessário. “Se não existe coordenação entre as instituições e governos locais, regionais e nacional, os incêndios não diminuirão e o pessoal continuará queimando sem controle e cuidado. Se o PASF não se alinhar com todas as instituições envolvidas independentemente de diferenças políticas, teremos o mesmo cenário de 2010, com fogo e mais fogo, sem saber o que fazer”, afirma um funcionário da Autoridade de Bosques e Terras (ABT) que preferiu não se identificar.

Oscar Justiniano, responsável pelo Programa de Prevenção e Controle de Incêndios Florestais do Governo do Departamento de Santa Cruz, faz coro a esta afirmação e conta que até agora não foi contatado pelo projeto, apesar da experiência de Santa Cruz em lidar com o tema por meio de diferentes iniciativas desde 2004. “Unificar critérios e propor uma só alternativa contra o fogo é a melhor forma de trabalhar. Separados não conseguiremos os resultados esperados”, afirma.

*Atualizado às 16h59 de 16 de março de 2012

 

  • Giovanny Vera

    Giovanny Vera é apaixonado pela área socioambiental. Especializado em geojornalismo e jornalismo de dados, relata sobre a Pan-Amazônia.

Leia também

Notícias
26 de novembro de 2021

Informação obtida via LAI revela que MCTI recebeu dados do desmatamento em 1º de novembro

Ministro Marcos Pontes disse que dados não foram publicados antes da Conferência do Clima porque ele estava de férias. Agenda oficial registra férias entre 8 e 19 de novembro

Notícias
26 de novembro de 2021

Jornalismo digital brasileiro se une em campanha de financiamento

Ação reúne 26 organizações com objetivo de arrecadar doações para fortalecimento do jornalismo digital de qualidade

Reportagens
26 de novembro de 2021

MPF pede anulação da Licença de Instalação do Linhão Tucuruí na terra Waimiri Atroari

Ação aponta que União e a Transnorte agem ilegalmente no licenciamento da obra. Autossuficientes em energia elétrica, os Waimiri Atroari são contra o empreendimento e sentem “a floresta sangrar”

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta