Reportagens

O pior momento do Projeto Peixe-Boi

Após a morte de dois filhotes nas instalações do Centro de Mamíferos Aquáticos, disputa entre gestores da iniciativa vem à tona.

Celso Calheiros ·
6 de setembro de 2010 · 12 anos atrás
Tanque inacabado. Disputa entre centro do ICMbio e fundação
acabou em quebra de contrato. (foto: Celso Calheiros) 

Recife – Trinta anos depois de criado como iniciativa nacional para pesquisar e apoiar a conservação de um dos mamíferos marinhos mais ameaçados do planeta, o Projeto Peixe-Boi vive o seu pior momento. A má fase chega quando o projeto atinge a maturidade, ganha recursos humanos, instituições engajadas e dinheiro. A soma, entretanto, é um resultado adverso.

 

Fotos enviadas pela atual chefe do CMA
indicam que a situação dos tanque
estava crítica (fotos: Fábia Luna)

O patrocínio da Petrobras Ambiental, de R$ 6 milhões pelo prazo de três anos, firmado com a Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), se transformou em justificativa para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) recusar o envio de recursos para o Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA) em Itamaracá, na Região Metropolitana do Recife, Pernambuco. A chefe do centro, a bióloga Fábia Luna, disse ter ouvido “vocês não têm os recursos da Petrobras?” nas vezes que solicitou orçamento aos seus superiores – responsáveis pela gestão de 310 unidades em todo país. Os analistas ambientais sob o comando de Fábia e ela mesma, classificam de conflituosa a relação com os dirigentes da FMA. “Eles não ouviam nossos pareceres técnicos, se transformaram em burocratas sem ligação com a atividade fim”, resume.

Conflitos, desencontros, reuniões que não atingem o objetivo e acordos não cumpridos sobram nessa história. A presidente da FMA, Denise de Freitas Castro, recorda-se das várias vezes em que buscou o entendimento e saiu frustrada. No entanto ela prefere bater em outra tecla. Denise vê a morte de dois animais, os casos de convulsão em outros três e a transferência de três peixes-boi nascidos em cativeiro para a base em Porto de Pedra, litoral norte de Alagoas, como preocupantes. “Nesse quadro, estão priorizando os meio em detrimento do fim. Temo que a estratégia de conservação esteja sendo ameaçada”, afirma Denise.

Quem visita o Centro de Mamíferos Aquáticos, com seus 29 animais nos dez tanques e dois oceanários em Itamaracá, Pernambuco, vê claramente a degradação da infraestrutura. A necessidadede obras de manutenção e restauração é urgente. O caso mais crítico está nas duas passagens que servem para os peixes-boi mudarem de tanque nos maiores oceanários. Essas passagens têm infiltrações, suas ferragens oxidadas estão à mostra e as duas estruturas estão escoradas.

De acordo com a chefe do CMA, Fábia Luna e do analista ambiental Maurício Andrade, a situação do centro estava ainda pior. Eles encontraram ninho de ratazanas sob os tanques, o prédio onde está montado o museu servia de depósito de material descartado, a pintura do cinema estava descascada, entre outros problemas. Fábia e Maurício apontam para a fundação quando perguntados pela razão do abandono das estruturas. Denise e João Carlos Borges, da FMA, respondem que a responsabilidade pela manutenção física das instalações de um centro do ICMBio é…. do ICMBio.

Questão histórica

Foto acima: ferrugem e infiltrações nos tanques.
Terceira chefe do CMA em três anos, Fábia Luna
mostra o escoramento dos tanques que necessitam
de reformas (fotos: Celso Calheiros) 

É preciso voltar no tempo para compreender a falta de diálogo entre as duas instituições. O Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA) e a Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA) nasceram praticamente ao mesmo tempo, há 20 anos. Uma das missões da fundação era captar recursos para os trabalhos de conservação que passariam a desenvolver com o centro. Juntas, CMA e FMA montaram as instalações em Itamaracá, fizeram pesquisas sobre os peixes-boi marinhos, estudaram como as populações estavam distribuídas e trabalharam a divulgação da necessidade de se proteger a espécie junto aos pescadores e suas comunidades.

Desde 2000, pesquisadores têm indicado a necessidade de novas pesquisas, mais aprofundadas, uma vez que já foi adquirida uma primeira competência sobre o tema. É preciso conhecer e diagnosticar a viabilidade da conservação da espécie. Nesse período, foi consolidada a divulgação do projeto junto aos moradores das áreas litorâneas e criado um comprometimento dessas comunidades. A rotina do CMA e do FMA sempre conviveu com poucos técnicos e parcos recursos, de acordo com Denise Borges, no projeto desde 1993.

Em 2008, surgem fatos novos. O mais relevante foi a criação do ICMBio. Como toda instituição que ganha autonomia, busca se firmar junto à estrutura pública. O CMA também vive momentos de mudanças. Desde então, o centro teve três chefes. No mesmo período, vinte analistas ambientais tomaram posse no CMA.

Do lado da FMA, em 2007, foi concluída uma longa negociação com a Petrobras Ambiental. A FMA firmou um contrato de prazo mais longo, três anos e orçamento mais robusto: R$ 6 milhões. A Petrobras se tornou um financiador capaz de dar estabilidade a uma instituição que trabalhava com prazos mais curtos e captações mais frequentes.

O centro ganhou o corpo técnico que sempre pediu, a FMA recursos. O trabalho de conservação também começou a dar bons resultados: com mais gente, a campacidade de resgate de peixes-boi são mais frequentes, logo a quantidade de animais em cativeiro é maior. Aí começam os desencontros.

Tanque inacabado e contrato quebrado 

Do lado do CMA, a versão é que a fundação não ouvia as recomendações de seu corpo técnico e não liberava recursos para projetos necessários, entre eles o oceanário em formato de L. O argumento da FMA diz que o novo corpo técnico do CMA não os vê como parceiros (apenas como gestores dos recursos financeiros) e que foram feitas várias reuniões para se buscar o entendimento, nunca alcançado.

Mesmo em processo de distanciamento, foram reintroduzidos à natureza 12 animais e começou a se trabalhar a técnica de reintrodução imediata. Esse novo método prega que, encontrado um filho encalhado, tenta-se fazer a reaproximação do filhote com a mãe. Em caso de sucesso, observa-se por mais um período (uma semana, aproximadamente). Se houver novo encalhe, leva-se o filhote para Itamaracá para ele crescer em cativeiro.

Em abril, foi firmada a rescisão do contrato entre a FMA e o CMA. Com a ruptura, sobraram um tanque inacabado e acusações. Fábia Luna lembra cada etapa de obra parada, colocação de vidro inadequado, interrupção e outras passagens. Denise oferece detalhes técnicos. O principal é que o valor da obra sofreu saltos difíceis de serem acompanhados, mas prefere se concentrar nos problemas existentes na captação de água. A FMA contratou um técnico que diagnosticou a necessidade de se filtrar melhor a água captada para a construção do novo oceanário.

Indiferentes às discussões do CMA e FMA, os peixes-boi continuam criticamente ameaçados na natureza e até mesmo em locais insuspeitos, como o Centro de Mamíferos Aquáticos. Às vésperas do transporte de quatro peixes-boi para a base em Porto de Pedras, Alagoas, dois animais atestadamente sadios morreram e três tiveram quadro convulsivo. A Polícia Federal foi chamada e nem mesmo uma ação criminosa foi descartada. Os corpos dos animais mortos estão sendo periciados e outros exames são realizados. De acordo com os depoimentos dos especialistas do CMA e da FMA, dois fatores aparecem como suspeitos: a presença de ratos próximos aos tanques e a qualidade da água da captada para os tanques dos animais.

Leia também
“Dois mortos e algumas suspeitas”, reportagem do dia 24 de agosto sobre a morte dos filhotes no CMA

Leia também

Notícias
20 de maio de 2022

Alto custo é principal barreira para visitação de parques

De acordo com estudo, alto custo da viagem, distância e falta de informações disponíveis são os principais obstáculos para visitação de parques naturais

Notícias
20 de maio de 2022

Presidenciáveis recebem plano para reverter boiadas ambientais de Bolsonaro

Estratégia ‘Brasil 2045’ propõe medidas para reconstruir política ambiental brasileira e fazer país retomar posição de liderança global em meio ambiente

Análises
20 de maio de 2022

O dilema de Koniam-Bebê

Ocupação indígena no Parque Estadual Cunhambebe realimenta falsa dicotomia entre unidades de conservação e territórios indígenas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 1

  1. Cássio Garcez diz:

    Brilhante análise, Beto. Parabéns e obrigado por ela.