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Quando cheguei ao King’s Canyon National Park, na Califórnia (EUA), em fevereiro de 2008, não tinha a menor ideia de como seria ficar frente a frente com árvores chamadas “redwoods” – ou sequóias, como são mais conhecidas no Brasil.

Elas são, para começar, as maiores, mais largas e antigas árvores da Terra. Impossível não se impressionar com um ser vivo que pode chegar a ter a altura de um prédio de 30 andares (o edifício da Editora Abril, na marginal Pinheiros, em São Paulo, tem 24). Um carro inteiro pode caber dentro de sua base. Redwoods podem chegar a até 3.500 anos de idade – são verdadeiras testemunhas das inúmeras transformações do planeta e das civilizações.

Ao nos depararmos com elas, penetramos em um mundo de silêncio quase meditativo e podemos inclusive intuir que ainda temos muito o que aprender. Digo isso porque um momento de reflexão, nem que seja mínimo, tem de fato grandes chances de acontecer – a não ser que o visitante esteja com o pensamento em outro lugar que não na gigante à sua frente.

Foto do King´s Canyon National Park.
Crédito: Karina Miotto

Existem três diferentes espécies de redwoods: Giant Sequoia - em português, Sequoia Gigante - (Sequoiadendron giganteum), encontrada em Sierra Nevada, Califórnia; Coast Redwood (Sequoia sempervirens) do sul de Oregon até Big Sur, também na Califórnia e Dawn Redwood (Metasequoia glyptostroboides), redescoberta pela ciência em território Chinês – acreditava-se que não passava de um fóssil da Era Mesozóica até a descoberta de um “exemplar” em 1944. A confirmação como redwood veio em 1948 pelos pesquisadores Wan Chun Cheng e Hu Hsen Hsu. Ela chega a ter até 45 metros de altura e é a menor das três espécies.

Gigantes intrigantes

Redwoods são seres intrigantes. Para começar, podem viver por milênios. São enormes – uma delas, denominada Hyperion, é a árvore mais alta do mundo, com 115.55 metros. Foi encontrada no Redwood National Park, na Califórnia.
Enquanto Coast Redwoods são imbatíveis na altura (muitas passam dos 106 metros), Giant Sequoias ganham em volume e podem chegar a ter 8 metros de diâmetro. A mais famosa delas a General Sherman, que  pode ser vista no Giant Forest of Sequoia National Park (EUA). Estima-se que tenha 2.700 anos.

Estas árvores são extremamente resistentes. A casca e o cerne não sucumbem a insetos e fungos que provocam apodrecimento porque possuem compostos chamados polifenóis. Muitas redwoods resistem inclusive ao fogo. Isso acontece porque quase não há resina em sua casca. O fogo, aliás, é um aliado: o calor vai às alturas, favorecendo a quebra dos cones que atuam na reprodução da espécie. – que conta, aliás, com vários pormenores.
Quando o tronco é cortado, o topo se rompe ou até se um de seus galhos cai, um novo galho brota do local ferido e não demora a crescer. Com o passar de tanto tempo, convenhamos, muitos galhos acabam naturalmente caindo no chão, a árvore sofre ferimentos e o resultado disso é que, em volta dela, passa a existir um grupo de novas redwoods. A dispersão de sementes também ajuda na reprodução: uma Giant Sequoia madura pode espalhar de 300 a 400 mil por ano.

Foto tirada em um acampamento na california.
Minha barraca estava rodeada de jovens redwoods.
Credito: Karina Miotto

Não acaba aí. Enquanto não passam de pequenos brotos, algumas espécies ficam dormentes  devido à falta de luminosidade – sim, elas “hibernam”. No entanto, um dia a árvore mãe cai – e enquanto uma cova imensa se abre no chão, um buraco de luz resplandece no céu. A luz do sol atinge as sobreviventes da queda e elas retomam o crescimento, um fenômeno conhecido como "liberação". 

Redwoods são adaptáveis a diversos vai-e-vem climáticos: resistem a temperaturas extremas no inverno e no verão. Por falar em clima, ele varia bastante ao longo de toda a estrutura (também pudera, 100 metros de altura não são 1,50). O frescor e a umidade predominam quanto mais perto do solo, dando lugar ao vento e à secura na proximidade da copa. "Isso acontece porque são altas e possuem diferenças relevantes em níveis de iluminação, temperatura e umidade do topo à base”, explica o arborista norte-americano Scott Altenhoff.

Copa de redwoods possuem muita biomassa. Há diversas espécies de plantas e animais que vivem lá em cima: de aves, roedores e insetos a esquilos planadores. É preciso ter cuidado ao chegar à copa para não danificar este tanto de vida. Redwoods também provém habitat para animais que vivem no chão: de mamíferos e aves a répteis e anfíbios.

Para completar a lista de detalhes um tanto quanto incomuns a outras espécies, vale contar uma história do passado: na virada do século, devido à sua longevidade, redwoods eram chamadas de “para sempre redwood”. Em Latim, “sempervirens” significa “sempre verde” ou “eterno”. Uma coincidência que define muito bem a sensação de estar frente a frente com um ser vivo que pode ter nascido bem antes do início da era cristã.
 
Revoluções e reflexões

Coast Redwoods possuem uma das madeiras mais valorizadas da Califórnia devido ao volume, à beleza, à resistência ao poder do tempo e, na maioria das vezes, ao fogo. Não à toa, nos Estados Unidos existem plantações com manejo para produção de madeira. O maior desmatamento já registrado no país aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial. Hoje restam menos de 5% dos 40 mil hectares de floresta virgem, a maior parte em reservas e em parques nacionais e estaduais. Pouquíssimo comparado com o território original.

A julgar pela quantidade ínfima de redwoods atualmente, não fica difícil concluir que sua proteção não veio fácil e nem rápido. Em 1918, a sociedade civil criou a Liga Salve as Redwoods, um importante movimento que iniciou os debates pela proteção destas árvores. Cinqüenta anos depois, em 1968, o congresso americano, pressionado por líderes sociais, criou o Redwood National Park.

Na década de 90, quando o desmatamento não dava muita trégua e conversas burocráticas não ajudavam a persuadir ninguém, ambientalistas partiam para o “tree sit” como último recurso para salvar as redwoods. Arriscavam as próprias vidas, subiam nelas e lá passavam uma semana ou pouco mais em plataformas improvisadas cobertas de lona numa tentativa de chamar atenção para a derrubada. Muitos morreram – não de uma queda das imensas árvores, mas assassinados por madeireiros – ou foram agredidos. Em 1990, Judi Bari teve o quadril destroçado por uma bomba que explodiu em seu carro.

A capa do livro de Julia Hill
crédito: divulgação

O tree sit ganhou as manchetes do mundo inteiro em 1997 com a chegada de Julia Butterfly Hill, na época uma estudante de 22 anos, a uma plataforma suspensa a 60 metros de altura construída em uma redwood de mil anos que ela chama de Luna. A árvore ficava dentro da área da madeireira Pacific Lumber e estava com os dias contados. Julia subiu  ao topo e se recusou a descer até conseguir um acordo de proteção perpétua da redwood e de uma área considerável a sua volta. Sabe quanto tempo ela ficou negociando com a madeireira? Dois anos. Enquanto a papelada não foi assinada, a despeito de todas as ameaças que sofreu, ela não colocou os pés no chão.

O livro que Julia publicou sobre esta história é um best seller. Devido à sua coragem e incrível comprometimento, ela ganhou notoriedade tamanha ao ponto de revolucionar o ambientalismo em todo o mundo e de, inclusive, ser considerada por uma revista americana uma das mulheres mais admiradas de seu tempo.

Julia não foi a única a sentir  uma espécie de “chamado” ou “inspiração” espiritual diante destas gigantes. John Muir, naturalista e escritor escocês  responsável pela criação de diversos parques nacionais nos Estados Unidos (entre eles Yosemite National Park), chegou a escrever em 1870: “eis a Rainha Sequóia! Veja! Veja! É tudo o que consigo dizer. Algum tempo atrás deixei tudo por uma sequóia e aqui estou a seus pés, jejuando e orando por luz, pois não seria ela a maior luz da floresta, do mundo? Onde mais estarão tamanhas colunas de sol, tangíveis, acessíveis, planetárias?”. 

“Eu sempre me sinto muito pequeno e contemplativo diante de organismos vivos como as redwoods. Elas me inspiram o ânimo diante de adversidades e me mostram que posso ser tudo aquilo de que for capaz”, conta o arborista Scott.

Eu, por minha vez, não posso negar que também faço parte deste time de admiradores. Ao ver uma sequoia pela primeira vez, no King’s Canyon National Park, na Califórnia, chorei.

Eu, em minha singular presença, diante de uma majestosa redwood.
Crédito: Tim Kovar

*Karina Miotto é jornalista ambiental, palestrante sobre a Amazônia e autora do blog Eco-Repórter-Eco