Reportagens

Ararinha pode retornar ao Sertão

Desaparecida da natureza há quase uma década, ararinha-azul poderá voltar às matas de galeria do interior da Bahia. A esperança está nas mãos de uma organização não-governamental no Qatar.

Gustavo Faleiros ·
29 de junho de 2009 · 12 anos atrás
Com cinco semanas de vida, os três rebentos de ararinha na maternidade da Al Wabra. Foto: Al Wabra Wildlife Preservation.

A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), ave típica da Caatinga, é a protagonista de um dos mais tristes capítulos da história ambiental brasileira. Já faz nove anos que um exemplar da espécie foi visto pela última vez na natureza, no sertão da Bahia. Hoje, as últimas ararinhas vivem longe de seu habitat, apenas em cativeiro. Entretanto, estes programas de conservação em criadouros têm aumentado a esperança de que a ave possa voltar, dentro de alguns anos, às matas de galeria do Nordeste.

Há poucos dias, a Al Wabra Wildlife Preservation (AWWP), organização não-governamental que desde 2004 possui um programa de reprodução em cativeiro, revelou que mais três ararinhas nasceram saudáveis em suas instalações no Qatar, uma monarquia abastecida por petróleo. Pode parecer estranho, mas é ali no Golfo Pérsico que vive o maior número de exemplares da Cyanopsitta spixii. Com as novas crias, vindas ao mundo em abril, a Al Wabra contabiliza 52 indivíduos e, aos poucos, se prepara para reintroduzir alguns deles na região de Curaçá (BA), onde recentemente adquiriu 2.200 hectares.

Ao todo, 68 ararinhas são oficialmente registradas pelo programa de reprodução em cativeiro, coordenado pelo governo brasileiro. Al Wabra e fundações na Espanha e na Alemanha fazem parte da iniciativa. No Brasil, restam apenas seis exemplares da ave: três no Criadouro Conservacionista Fundação Lymington e a outra metade na Fundação Zoológico de São Paulo.

O criadouro no Qatar é de longe o mais bem equipado e bem sucedido. Isso graças aos recursos investidos pelo fundador da organização, o Sheik Saoud Bin Mohammed Bin Ali Al-Thani. Conhecido por sua paixão pela vida selvagem, ele concentra esforços para salvar a ararinha. Na sede da organização, quatro especialistas dedicam-se exclusivamente ao programa de reprodução e uma maternidade foi construída apenas para os novos rebentos da ararinha. A instalação tem três salas: uma para abrigar os ovos; outra para alimentar as aves; e um aviário com dez metros quadrados para as crias ensaiarem seus primeiros vôos.

Sheik Al Thani: o homem que financia a salvação da ararinha-azul. Foto: Al Wabra Wildlife Preservation.

“A Al Wabra não é apenas bem sucedida na reprodução. A Fundação Loro Parque, em Tenerife, também é. A questão é que a Wabra tem hoje muitas aves. Este sucesso, é claro, depende também de ter bons profissionais, bom manejo, casais compatíveis e instalações adequadas” explica Yara Barros, bióloga coordenadora do programa de reprodução em cativeiro no Brasil.

O maior desafio enfrentado para a recuperação da população de ararinhas é sua “saúde genética”, explica o coordenador do programa de conservação da espécie na Al Wabra, Ryan Watson. Desde 2004, a organização logrou criar 21 filhotes. Para isso, no entanto, incubou 200 ovos, sendo que a maior parte deles não chegou nem a formar um embrião. “A endogamia [acasalamento entre parentes] é provavelmente o maior responsável pelas altas taxas de infertilidade, morte embrionária e deformidades de filhotes que temos experimentado”, conta.

A saúde genética da ararinha-azul ficou tão ameaçada porque os exemplares que restaram na mão de criadores e de colecionadores são crias de poucos casais retirados da natureza. “A maioria das ararinhas-azuis existentes é proveniente de duas das quatro aves que, em 1979, foram contrabandeadas e levadas para Singapura, onde foram vendidas para a Birds International Incorporated, nas Filipinas. Das 68 aves manejadas para o programa reprodutivo da Al Wabra, 62 são descendentes de um único casal” diz Watson, responsável por atualizar o registro da população remanescente.

Cobiçada pela raridade

As ararinhas estão crescendo com saúde. Na imagem, com oito semanas de vida. Foto: Al Wabra Wildlife Preservation.

Originalmente, a espécie ocupava matas de galeria do sul até o extremo norte da Bahia, principalmente ao longo da bacia do Rio São Francisco. Desde a descrição do naturalista Von Spix, há dois séculos, a espécie não era avistada até ser encontrada em 1987, já em situação crítica. Naquela época, apenas três ararinhas foram registradas. A destruição das florestas no Nordeste foi a principal razão para o declínio da população, pois ela utilizava árvores com madeira oca para construir seus ninhos. Mas o trio remanescente foi rapidamente capturado e negociado a preço de ouro por traficantes.

Yara Barros conta que, desde a década de 1990, a única maneira encontrada pelo governo brasileiro para tentar salvar a espécie foi convocar os criadores a colaborar. Isso significou a edição de atos legais, que permitiram a colecionadores manter seus exemplares desde que passassem a integrar o programa de reprodução em cativeiro.

A estratégia funcionou meio aos trancos e barrancos, pois nem sempre os colecionadores respeitaram o acordo feito com o governo e negociaram as aves com outros criadores. Ainda assim, foi possível seguir o rastro dos exemplares e, felizmente, os novos donos também se dispuseram a ajudar.

Foi exatamente assim que começou o envolvimento da Al Wabra nos programas de conservação da ararinha-azul. Em 2000, a Bird Life Incorporated, das Filipinas, informou ter transferido as quatro ararinhas que criava ao sheik Bin Al Thani. O caso gerou uma pendenga entre governo brasileiro e o escritório filipino da Convenção Internacional do Tratado de Espécies Ameaçadas. Mas tudo se resolveu quando a Al Wabra se colocou como parceira da recuperação da espécie.

Watson argumenta que a única maneira de melhorar a saúde genética é contando com criadores que possuem mais exemplares e que não fazem parte da iniciativa de reprodução do governo brasileiro. “Adicionar novas aves sempre será uma maneira de melhorar a situação genética da espécie, mas a população de ararinhas-azuis em cativeiro vem de uma pequena porção de indivíduos selvagens e, mesmo adicionando todas as aves não manejadas, isso ainda não garantiria uma população geneticamente saudável”, lamenta.

De volta ao lar

Fazenda com 2,2 mil hectares em Curaçá (BA) foi o local escolhido para a reintrodução da ararinha na natureza brasileira. Foto: Al Wabra Wildlife Preservation.

Voltar a ver a ararinha voar livre no sertão do Nordeste é o sonho de muita gente que está envolvida com o programa de reprodução em cativeiro. Nos anos 1990, quando restava apenas um exemplar macho da espécie nas matas da Bahia, diversas organizações uniram esforços como governo brasileiro para tentar reverter a situação. A ave era monitorada de perto e uma fêmea foi introduzida na esperança de que o acasalamento desse sobrevida à espécie. Infelizmente, o casal nunca mais foi visto. Foi um balde de água fria.

Agora, Instituto Chico Mendes e Al Wabra, em parceria com outros criadores, esperam que em alguns anos exista um número suficiente de indivíduos saudáveis criados em cativeiro para repovoar os vales do baixo São Francisco. Além da falta variabilidade genética, o problema mais grave que ainda impede a reintrodução da ararinha na natureza é a doença conhecida como “síndrome da dilatação do proventrículo”. Ela causou a morte de pelo menos sete aves no criadouro da organização.

“Todos os envolvidos na conservação das ararinhas-azuis iriam adorar iniciar a soltura dos indivíduos na natureza, o mais breve possível, mas a realidade é que estamos trabalhando para uma situação ideal que levará no mínimo mais cinco anos, ou até que tenhamos alcançado um número suficiente de indivíduos para começar a soltura das aves”, explica Watson.

Yara Barros, diretora técnica do Foz Tropicana Parque das Aves (PR), explica que futuramente as aves passarão por um longo período em um viveiro próximo ao local de soltura na natureza. Isso permitirá que os espécimes se adaptem aos ciclos de dias e noites, que reconheçam predadores e sejam apresentados aos itens de uma dieta natural. A readaptação poderá contar até com a ajuda de outra espécie.  “As aves aprenderão, antes da soltura, a reconhecer e utilizar os itens silvestres. Claro que seria melhor que houvesem ararinhas-azuis na natureza para ensinar isto. Como no passado ararinhas e maracanãs provavelmente usavam os mesmos locais para alimentação, há uma possiblidade dessa espécie servir como ‘guia’ para as ararinhas reintroduzidas”, disse.

Ao menos, o trecho de mata que um dia deve voltar a abrigar a ararinha está garantido. Em novembro do ano passado, a Al Wabra adquiriu uma fazenda em Curaçá, na Bahia. O local é considerado “o coração do centro de origem” da espécie. As florestas de galerias ao longo de um riacho local oferecem um dos únicos ambientes na região com cavidades naturais para nidificação e também uma importante fonte de alimentos. A fazenda era utilizada para a criação de cabras, gado e cavalos. As espécies já foram removidas da propriedade para recuperação da vegetação, danificada pela pastagem.

É um esforço para arrumar a casa para o dia em que a ararinha-azul voltar.

Atalhos:

Al Wabra Wildlife Preservation
Birdlife International

  • Gustavo Faleiros

    Editor da Rainforest Investigations Network (RIN). Co-fundador do InfoAmazonia e entusiasta do geojornalismo. Baterista dos Eventos Extremos

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