Reportagens

A temporada do fogo

Julho abre a estação das queimadas no Cerrado e no Pantanal. Estados proíbem a prática durante a seca, mas a medida não é suficiente para conter os incêndios.

Andreia Fanzeres ·
8 de julho de 2005 · 19 anos atrás

Enquanto a Amazônia sofre com a época de mais intenso corte madeireiro, o Cerrado e o Pantanal começam a queimar. Nada alarmante até agora, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mas até o fim da temporada muitos hectares do Centro-Oeste ainda devem virar cinzas. Como fazem todos os anos, os governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul proibiram qualquer queima entre os dias 15 de julho e 15 de setembro, o auge da seca. Essa é a época em que uma simples fagulha pode tomar proporções devastadoras.

Mato Grosso do Sul se diz preparado para enfrentar a temporada de estiagem. O Ibama de lá orgulha-se do trabalho do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) no estado, que consegue manter sua única unidade de conservação federal sem focos de incêndio desde 2002. Naquele ano, o Parque Nacional da Serra da Bodoquena foi uma das áreas atingidas pelos incríveis 12.903 focos registrados no estado.

Mesmo que a seca anual, causada pela falta de chuvas no inverno, provoque combustões espontâneas na vegetação do Cerrado e do Pantanal, Marcio Yule, coordenador do Prevfogo/MS, é taxativo quando fala das principais razões das queimadas em seu estado. “Isso é certo: 97% dos incêndios são provocados pelo homem”.

O homem que provoca incêndios tem rosto de peão. Os funcionários das fazendas ateiam fogo em áreas de vegetação baixa para limpar o terreno e estimular o rebrote de gramíneas para a alimentação do gado, ou então para plantar espécies o capim braquiária, com a mesma função. Essa é a queimada conhecida como controlada (foto), porque elimina o capim seco que é mais suscetível a grandes incêndios. Segundo a engenheira agrônoma da Embrapa Pantanal, Sandra Mara Araújo, esse procedimento deve ser feito com o solo úmido, após um período de chuvas. E queimadas controladas precisam ser autorizado pelo Ibama. Tanto cuidado para lidar com espécies de Cerrado não é exagero. Afinal de contas, a idéia de que o fogo não faz mal a essa região não passa de um mito. O pesquisador Mario Barroso, da ong Conservação Internacional, defendeu tese de doutorado justamente sobre esse assunto, explica que a região só é adaptada às queimadas em período chuvoso. “Não era para a gente ter tantos focos de calor no cerrado na época de seca. Naturalmente, o fogo que ele suporta é o causado por raios, o que acontece quando chove”, diz.

Mas os raios não passam nem perto dos principais causadores das queimadas no Cerrado. E isso pode ser facilmente comprovado por qualquer um que quiser, de casa, monitorar os focos de calor no país inteiro. O Inpe oferece esse serviço, de graça. A julgar pelas imagens de satélite geradas para o controle de queimadas, haja tempestade para provocar tanto incêndio. Além da intenção de abrir pastagens, o que não justifica todos os focos de calor na região, o pesquisador lembra que em muitas áreas de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais as queimadas são causadas por aspectos culturais. “Existe uma cultura de queimar vegetação neste país para manter a paisagem sempre ‘limpa’”. A reboque, vão-se as gramíneas, reservas legais e áreas de preservação permanente.

No Cerrado, a perda de biodiversidade é flagrante, mesmo sem muitos estudos para comprovar isso. “Sabemos que a região do Jalapão (TO) tem a vegetação cada vez mais rala por causa das queimadas. Não se trata de um processo de desertificação, mas o local passa grande parte do ano com o solo nu”, diz Barroso.

Com características bastante semelhantes às do Cerrado, as queimadas no Pantanal são potencialmente mais perigosas. Apesar do famoso alagado, que induz ao erro de pensar que a região é só pântano, quando o fogo pega se espalha com extrema facilidade. A explicação é bastante simples. “Na área que fica inundada, a maior parte da vegetação morre. Conseqüentemente, durante a estiagem, temos grande quantidade de material morto, seco”, explica Sandra Mara Araújo. Sob o sol escaldante do Centro-Oeste e com uma mãozinha dos fazendeiros, daí para o fogo é um estalo.

É assim há anos, décadas, talvez séculos. E as queimadas no Pantanal deixam um duradouro rastro na paisagem. Uma pesquisa da Embrapa mostrou que na região de Nhecolândia (MS) os focos de calor reduziram em 36% a biomassa local em onze meses. Caso essa mesma área seja reincidente no ano seguinte, a perda é de 50%. Para um solo que não descansa, é até curioso chamar o procedimento de controlado. “Para assegurar a biodiversidade, a mesma área só pode ser queimada a cada três anos”, alerta Sandra. Quando vira incêndio, isto é, atinge vegetação arbórea, a queima de biomassa eleva a temperatura a algo próximo de 800º C e aí não sobra controle nem no nome.

Colocar fogo no Pantanal, por incrível que pareça, não é crime – com exceção dos dois meses de proibição. Assim como não tem nada demais devastar 80% das propriedades pantaneiras. Com ou sem fogo. Ali, como no Cerrado, as áreas de reserva legal não superam os 20%.

Com esse incentivo para queimar, Barroso lembra que para haver foco de calor apenas três condições devem ser satisfeitas. Em primeiro lugar combustível. No caso, a vegetação seca – coisa fácil de se arranjar na região central do país. Depois, um agente iniciador do fogo. Servem o homem e adjacências, como caco de vidro e ponta de cigarro, por exemplo. Por fim, um clima favorável. Quanto a isso, o Centro-Oeste pode se preparar para um período de aumento dos focos, segundo a previsão do Inpe. Isso significa meses inteiros com ar irrespirável e céu alaranjado especialmente em Mato Grosso, que, a partir de agosto, sofre também com a fumaça vinda da Amazônia.

Segundo um estudo do Inpe, uma área da ordem de 40 mil km² é queimada anualmente em toda América do Sul. E a fumaça de tantos incêndios é levada pelo ar em verdadeiras correntes de poluentes ao redor de algo entre 4 e 5 milhões de quilômetros quadrados. Os componentes sólidos da fumaça ficam em suspensão por cerca de uma semana, mas em virtude da emissão diária na estação de queimadas uma gigantesca pluma de fumaça regional acaba estacionada sobre grande parte da América do Sul. Não é à toa que, de julho a outubro, as queimadas no Brasil são as principais fontes de poluentes na atmosfera.

  • Andreia Fanzeres

    Jornalista de ((o))eco de 2005 a 2011. Coordena o Programa de Direitos Indígenas, Política Indigenista e Informação à Sociedade da OPAN.

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