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| Peter G. Crawshaw Jr. | ||||
| 01 Dez 2008, 16:00 | ||||
![]() Na semana entre os dias 5 e 12 de outubro, tive o prazer de rever o doutor George Beals Schaller, com quem tive o privilégio e a honra de iniciar minha carreira, antes mesmo de me formar em Ciências Biológicas, em 1977. Passamos aquela semana na região do Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá, no final da rodovia Transpantaneira (MT-060), no coração do Pantanal Mato-grossense, onde havíamos trabalhado, 30 anos antes, com jacarés e capivaras. Meu relacionamento com ele teve início através de uma carta que lhe escrevi, ainda em 1976, quando soube, através de uma amiga, que Schaller estaria no Brasil para fazer o primeiro estudo da onça-pintada, ou jaguar, no Pantanal. Naquela carta, me oferecia para ajudar no que pudesse no projeto, inclusive, para isso, interrompendo meus estudos, se necessário. Em sua resposta, me aconselhou a primeiro terminar o meu curso, pois eu seria mais útil para o projeto e para o meu país. O projeto me esperaria. Ainda hoje me lembro da emoção que senti quando recebi essa resposta tão encorajadora! E não era para menos: o Dr. Schaller, já naquela época, era considerado uma lenda viva, tendo realizado estudos pioneiros com espécies de animais como o gorila-da-montanha no Zaire (depois seguido pela saga de Diane Fossey), tigres na Índia, leões na Tanzânia, leopardo-das-neves no Nepal, para mencionar apenas alguns de seus estudos. Combinamos de nos encontrar em Brasília, em abril de 1977, quando ele veio iniciar o estudo na Fazenda Acurizal, no extremo oeste do Pantanal, na divisa com a Bolívia. Ele havia escolhido a área para o projeto depois de ter visitado lugares na Argentina e Venezuela, além de Roraima, no Brasil. Acurizal era então uma fazenda de pecuária e um dos poucos lugares com uma população razoável de onças-pintadas. À época, a espécie tinha sido bastante reduzida pela caça comercial por sua pele e pelo “controle” exercido por fazendeiros, em virtude da predação sobre o gado. Dada a proximidade com a então Reserva Biológica do Caracará (70 mil hectares), separada da fazenda apenas pelo Rio Paraguai, parte do acordo feito com o IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, o precursor do Ibama) previa a compra da fazenda, que seria anexada à reserva e elevada à categoria de parque nacional. A sede da fazenda seria usada como sede do parque. Em nosso encontro, em Brasília, conversamos sobre a minha possível participação no projeto e fui convidado a visitar Acurizal, logo que pudesse. Em agosto do mesmo ano, depois de três dias de viagem de ônibus entre Porto Alegre e São Paulo, de trem entre São Paulo e Corumbá, e ainda de carona em um táxi-aéreo que levava suprimentos, cheguei na fazenda. George veio me receber no avião, com um aperto de mãos efusivo e o comentário: “So, you made it!” (Então, você conseguiu!). Passei 10 dias com ele, em companhia de sua esposa Kay e de seus filhos Eric e Marc, então com 15 e 13 anos, respectivamente. Lá confirmamos a minha participação no estudo, depois de concluir meu curso, em dezembro. Fui contratado no dia de meu aniversário, 9 de janeiro de 1978, pelo convênio celebrado entre o IBDF e a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, uma ONG com sede no Rio de Janeiro, e, no dia 14, aportei novamente em Acurizal, com minha esposa Mara grávida e nossa filha Danielle, então com 3 anos. Encarando as onças em campo
Infelizmente, por uma série de eventos imprevistos, a compra da Fazenda Acurizal não se concretizou e, por um problema econômico/cultural que se repete até hoje, em projetos de estudo da onça-pintada, o projeto teve que ser interrompido em julho de 1978. Duas onças não-aparelhadas foram mortas por empregados da fazenda, por ordem do administrador, supostamente por predação no gado. Com esse tipo de interferência, achamos melhor não continuar o estudo ali. Iniciamos a procura por uma nova área de estudo, e foi apenas em 1980 que conseguimos autorização para retomar a pesquisa na Miranda Estância, no sul do Pantanal, uma fazenda com 248 mil hectares, da família Klabin. Durante esse intervalo, estudamos jacarés e capivaras no município de Poconé, ao longo da então recém-construída Transpantaneira. Em 1980, Schaller já havia se envolvido em um projeto junto ao governo chinês, para estudar o panda-gigante, animal-símbolo da WWF e emblemático com o movimento mundial para a conservação. Para substituí-lo no projeto na Miranda Estância junto à New York Zoological Society (hoje Wildlife Conservation Society – WCS), foi contratado o biólogo americano Howard Quigley. Entre 1980 e 1984, Howard e eu capturamos e aparelhamos com rádios-colares mais sete onças-pintadas, completando o primeiro estudo sobre a ecologia e comportamento da espécie. Desde a sua saída do projeto, no Brasil, Schaller tem dedicado a vida ao estudo e conservação de espécies da fauna asiática, algumas ameaçadas e outras ainda desconhecidas pelo mundo. A volta ao Pantanal Seu retorno recente ao Pantanal é parte da produção de um documentário intitulado Witness to the Wild (Testemunha do Mundo Selvagem), sobre a sua vida e seu trabalho, financiado pela National Geographic. Nele, a idéia é visitar alguns dos lugares em que ele trabalhou no passado, comparando as condições atuais das espécies estudadas com a situação à época. No caso do Pantanal, além da melhora sensível na situação da onça-pintada (e outras espécies importantes, como a ariranha), o George veio visitar um projeto desenvolvido com recursos da ONG conservacionista Panthera, da qual ele é vice-presidente. Durante nossa semana em Porto Jofre, fomos diariamente à Fazenda São Bento, onde está sediado o projeto, coordenado por Sandra Cavalcanti. Nesse período, foram capturadas quatro onças-pintadas, aparelhadas com transmissores sofisticados, pré-programados para armazenar coordenadas geográficas a intervalos regulares - informações que são enviadas a um satélite e repassadas por e-mail aos pesquisadores. Desta forma, não são mais necessários os sobrevôos regulares que encareciam os projetos utilizando essa técnica, no passado. A grande preocupação dos produtores do documentário era a possibilidade de não conseguir filmar uma onça-pintada em seu ambiente natural, que pudesse comprovar a melhora na situação da espécie no Pantanal. De certa forma contradizendo as expectativas, vimos e filmamos três indivíduos diferentes em quatro ocasiões, em um trecho com não mais do que 15 quilômetros ao longo do Rio Cuiabá. Embora por um lado satisfeitos por essa evidência na melhora da situação da espécie, ficou clara também a preeminência da prática de cevar indivíduos para habituá-los à proximidade dos barcos com turistas.
Na verdade, para todos nós, incluindo o George, o prazer da visualização foi diminuído pela situação um tanto degradante de ver um animal tão nobre sendo enganado por estratagema tão vulgar, tão “humano”, no seu sentido mais pejorativo. No entanto, como que para compensar esse evento, quando saímos novamente para o rio, na manhã seguinte, fomos atraídos por uma comoção na margem esquerda.
Ao contrário do dia anterior, nos sentimos gratificados pelo privilégio de ter presenciado uma cena na vida cotidiana do maior dos nossos predadores. E olhando a expressão de enlevo no rosto do George Schaller, agradeci mentalmente por ter participado, através dele, de alguma forma para melhorar um pouco a situação da espécie no Pantanal e no Brasil, ganhando talvez alguns anos mais na batalha contra a extinção desse felino tão imponente da nossa fauna. |
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