Bicicleta como alternativa de transporte PDF Imprimir E-mail
19/02/2009, 12:00

Todo mundo sabe que a Colômbia é a terra das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e de Ingrid Bettancourt, do Amor nos Tempos do Cólera, do Renê Higuita, do melhor café do mundo, da cocaína e das milícias, embora não esteja desacompanhada do Brasil nos dois últimos quesitos. O que poucos têm noção é que o país do piloto Juan Pablo Montoya também guarda um senhor quinhão de outras jóias maravilhosas. Os Andes colombianos são uma das regiões montanhosas mais ricas em vida silvestre em todo o planeta. Os corais localizados em suas praias caribenhas não encontram rival no Brasil e sua Amazônia ainda está bem preservada, se comparada com vizinhos sul-americanos. Analogamente, bombardeados por uma imprensa centrada no Hemisfério Norte, poucos de nós sabemos que Bogotá é uma cidade vibrante que implantou alguns projetos revolucionários em nível mundial.

A capital colombiana não chega a ser uma cidade moderna ou imponente. Quando comparada a outros centros urbanos da América Latina, perde em charme para Buenos Aires (Argentina), em organização para Santiago (Chile) e em beleza para Quito (Equador). Mas não se deixe enganar. Bogotá é uma metrópole interessantíssima. Ali, tanto o corpo quanto a alma encontram alimentos de primeira categoria. A cidade está cheia de restaurantes com comida local e internacional de fazer salivar e alberga um conjunto de livrarias que faz jus à obra de Gabriel García Márquez. Também há uma série de instituições culturais muito bem arrumadas e com acervos para ninguém botar defeito, como o Museu do Ouro e o Museu Botero.

Em Bogotá há alguns projetos que merecem ser melhor estudados pelo Brasil. Entre eles, destaca-se a parceria entre os diversos níveis de governo que modernizou e saneou a polícia. Mas não se preocupe leitor. Sei bem que O Eco não é um espaço para discussão sobre segurança pública. Vou tratar aqui de outra iniciativa bogotana: as ciclorrutas (ciclovias).

Ciclorrutas Bogotanas é um projeto que está em curso desde 1976 e visa incentivar os cidadãos da capital andina a se moverem em bicicletas. Faz sentido. Bogotá é cercada em três lados por altas escarpas, mas assenta-se no fundo de um grande anfiteatro que se caracteriza por sua topografia sem grandes desníveis de altitude. Inicialmente, as ciclovias materializaram-se com o fechamento ao trânsito automotor todos os sábados, domingos e feriados em cerca de 120 quilômetros de ruas e avenidas. Aos poucos, esse incentivo semanal foi criando uma cultura ciclística na cidade e acabou por criar uma demanda para que houvesse ciclovias também nos dias úteis.

Para atender à pressão popular, desde 1998 o poder público investiu o equivalente a cerca de 130 milhões de reais em projetos e obras de execução de outros 120 quilômetros de ciclovias, estas últimas dedicadas exclusivamente e em caráter permanente ao trânsito ciclístico. A resposta popular não tardou. Hoje, dados oficiais estimam que 83 mil bogotanos transitam diariamente nas ciclovias urbanas.

O problema é que o número de pedaleiros estancou nos últimos anos. Segundo pesquisas do Observatório de Mobilidade da Câmara de Comércio de Bogotá, apenas 4% dos usuários utilizam a bicicleta como meio de transporte para o trabalho, ou para o local de estudo. Com vistas a corrigir o problema e não deixar a peteca (ou a bicicleta) cair, a prefeitura anunciou que entregará 20 novos quilômetros de ciclovias nos próximos quatro anos, prioritariamente ligando as rotas já existentes a universidades, grandes escolas e centros laborais. Também está sendo estudada a implantação de uma rede de bicicletas públicas de aluguel nos centros de ensino superior, estações de trem e de metrô, centros comerciais e estacionamentos de automóveis na área central de Bogotá.

A ideia é boa e tem tudo para dar certo. Experiências na Europa, Estados Unidos e Austrália já mostraram que, havendo uma infra-estrutura de vestiários e de estacionamento, a população tende a se utilizar da bicicleta como meio de transporte e não apenas como opção de lazer.

No Brasil, há cidades que bem poderiam se inspirar no modelo bogotano e avançar. Recentemente, em viagem pelo Nordeste, pude testemunhar algumas iniciativas alentadoras, como as de Aracaju (Sergipe), onde vi ciclovias repletas de pessoas indo e vindo sobre duas rodas com roupas de trabalho; e em Salvador (Bahia), que está completando um grande corredor cicloviário na orla entre o Rio Vermelho e Itapoã, com direito à ligação por ciclovia até a Paralela, através do Parque do Pituaçu, vigiado por policiais militares devidamente montados em suas bicicletas.

Por outro lado, o Rio de Janeiro, infelizmente, parece ter arrefecido. A capital fluminense foi a pioneira no país em montar uma excelente rede cicloviária, em suas zonas Sul e Oeste, e hoje encontra-se bastante interligada, permitindo ao ciclista de lazer executar grandes viagens. A ciclovia carioca também leva o pedaleiro até grandes universidades, como a PUC, a Santa Úrsula e a Veiga de Almeida, bem como ao coração financeiro da cidade, facilitando a vida das pessoas que estudam ou trabalham. Recentemente, contudo, houve alguns retrocessos. Os chuveiros, vestiários e bicicletários que haviam sido previstos nos contratos de concessão pública de uma série de garagens subterrâneas de automóveis, construídas no centro da cidade em princípios do século, acabaram sucumbindo ao lobby rodoviarista e tiveram seus espaços ocupados por mais vagas para carros.

Além disso, literalmente jogou-se dinheiro público fora com a execução mal feita da ciclovia Tricolor e da ligação Lagoa-Botafogo. Ao que tudo indica, foram projetadas por alguém que nunca subiu em uma magrela e resultaram em traçados tão mal feitos que os ciclistas os rejeitaram, preferindo pedalar nas ruas, onde são obrigados a dividir o espaço com carros e ônibus. Por fim, o estado de deterioração das ciclovias da Floresta da Tijuca e da Rua Pacheco Leão preocupa. Nada, contudo, que comprometa (ainda) a Rede Carioca de Ciclovias e que não possa ser consertado. Eis um desafio ao novo prefeito.

Por fim, o caso de Bogotá me lembra, com uma ponta de tristeza, nossa própria capital, Brasília. Plana, cheia de espaços que possibilitariam a construção de ciclovias sem interferência no tráfego de automóveis e com centros laborais e de estudo espacialmente concentrados, a cidade tinha tudo para ser o paraíso da locomoção em duas rodas. Uma ciclovia correndo o Eixão, de ponta a ponta, ligada por um ramal à Esplanada dos Ministérios, poderia ser um grande catalizador do uso do transporte alternativo. Analogamente, as entrequadras poderiam albergar rotas cicloviárias. Por outro lado, bastaria a vontade presidencial para que todos os ministérios, onde substancial parcela da massa trabalhadora brasiliense bate ponto, fizessem pequenas obras, instalando chuveiros e vestiários em seus subsolos.

Em poucos anos, o investimento se pagaria em termos de menor gasto com problemas de saúde e com economia de gasolina. Em qualquer país razoável, essa decisão já teria sido tomada há tempos. Se depender da classe dirigente do Distrito Federal, parece que vai demorar. Mas há luz no fim do túnel. Em recente conversa com Cláudio Langone, ex-secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, fiquei sabendo que o Banco Mundial teria condicionado a liberação de empréstimos à capital à construção de ciclovias. Oxalá!
Comentários
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pedalar é ótimo
elisa ceppas vianna 21/02/2009 19:22:57

Isso que todos desejamos. Seria o paraiso! Imagina uma senhora podendo ir e vir
de bicicleta pela cidade tranquilamente sem medo de ser atropelada. Seria um
sonho.
sonho
elisa ceppas vianna 21/02/2009 19:29:33

Isso seria um sonho. Poder ir e vir bicicletando pela cidade do Rio de Janeiro
sem medo de ser atropelada. Bravo Pedro, mandou bem . Gostei do texto todo.
Parabens!
É só não deixar a peteca (ou a bicicleta) cair!
Eduardo Merheje 22/02/2009 14:10:48

A superfície plana ou poucas elevações topográficas, no meu ver não são
significativas... Muito pelo contrario... A solicitação muscular ao pedalar
variada, e quantidade de marchas das bicicletas... Não classifica a Cidade como
mais ou menos habilitada... Sustentabilidade para todas!

Tambem não concordo
com o fechamento do trânsito automotor, pois ele antipatiza por retirar, embora
por algum tempo... Que é pior ainda... Usa mas devolve ao modal automotor!
Conscientizar espaço real... Com passeios exatamente como determina o uso das
vias publicas por bicicletas pelo Código Brasileiro de Trânsito. Este a meu
ver é o melhor caminho para exigir dos órgãos públicos ciclovias de verdade
e seguras... Falo pelo que vejo na “Metrópole Paulistana” por sua cultura
motor, e pessoas em seus carros fritando nos congestionamentos, ou colaborando
com o aquecimento global com seu ar condicionado ligado na máxima potência.


Em São Paulo são poucos os espaços para o uso exclusivo de bicicletas em
ciclovias... O uso compartilhado com os pedestres e outros modais não
motorizados fomenta a humanização, convivência, e equilíbrio Urbano...
Principalmente se conseguirmos ligar os maravilhosos Parques existentes ao
histórico Parque do Ibirapuera e celebrar a mobilidade sustentável.
Em São
Paulo já temos em algumas estações de Trem e Metrô o empréstimo de
bicicletas... Não é aluguel... Basta possuir um determinado cartão de
crédito... Inclusive é permitido o transporte em alguns horários com a bike
dentro do ultimo vagão do trem... E devolver a bike em outro local
USEBIKE.

Espero também que o Banco Mundial e o Senhor Ministro dos Esportes
Orlando Silva, tambem olhem para o CICLOPASSEIO por São Paulo. E a sua não
execução responsabiliza diretamente os governos por mortes dos ciclistas,
crianças, jovens, e meio inteiro maduro como eu... Colaboramos muito com o
país, perdemos nossa vocação potencial industrial, mas queremos tambem
qualidade de vida, Copas, Olimpíadas, Turismo, e empregos. Queremos tambem à
geometria circular nos transportes coletivos, para compensar os projetos radiais
burros e especulativos... E parem de enterrar os Metrôs nesses aglomerados...
País Tropical tem morro fura, não tem vai por cima e moderno como, por
exemplo, o trem de levitação Maglev (Coppe) UFRJ.

Saudações à
mobilidade,
eduardomerge@Yahoo.com.br
Só faltou uma coisa...
Eric Camara 25/02/2009 04:31:19

Oi, Pedro!

Como sempre, um artigo saboroso e informativo! Duas coisas me
chamaram a atenção na foto: a beleza e qualidade da ciclovia e... NINGUÉM
NELA!

Que desperdício!

abraço
eric
pois é
Pedro Cunha e Menezes 25/02/2009 11:49:32

Prezados Eduardo e Elisa,

obrigado pelos comentários. Concordo que as
ciclovias especialmente dedicadas são o melhor caminho para incentivar o uso da
bicicleta como meio de transporte. Por outro lado, sem integração com metrô e
barcas e sem opções de vestiários e chuveiros é difícil convecer os
usuários a pedalarem até o trabalho.

Abraços,

Pedro
Faltou foi competência
Pedro Cunha e Menezes 25/02/2009 11:51:44

Caro Eric,

Obrigado pelos comentários. Quanto à foto, faltou competência
ao fotógrafo (eu mesmo). Tirei cinco. Quatro tinham ciclistas e saíram
tremidas. Por isso é que a fotografia publicada ficou sem trânsito.

Um
abraço,

Pedro
Exclusivos, os automóveis são...
Eduardo Merheje 25/02/2009 13:55:50

Pedro,

Não importa a exclusividade do espaço cicloviário... Em São
Paulo é tudo pela mobilidade... Cada caso, um caso local
urbano...

Saudações,
Oxalá!
Galiana 25/02/2009 14:23:35

Oxalá que as ciclovias sejam construídas em Brasília mesmo!! O que não
faltam por aqui são ciclistas e pessoas que utilizariam a bicicleta como meio
de transporte se a cidade tivesse infra-estrutura para tal. É realmente
incompreensível que não haja ciclovias na capital do Brasil, ainda mais quando
estimativas que de vez em quando aparecem no jornal, mostram que morre, em
média, um ciclista por semana no DF.
Observatório de Mobilidade
Filipe Reis 26/02/2009 04:12:48

Olá a todos,
peço desde já desculpa por postar um post não relacionado com
a maioria dos visitantes, em que gostariam de poder pedalar pela cidade sem
qualquer problema... O meu interesse á relacionado com o Observatório de
Mobilidade que mencionas Pedro da Cunha e Menezes. Podes-me dizer onde posso ler
esse Observatório de Mobilidade?


Obrigado pela atenção,
Filipe Reis.
observatório urbano
Pedro Cunha e Menezes 26/02/2009 04:41:01

Prezado Filipe,

eis o link para o
observatório:


www.transitobogota.gov.co/omu/ default/default.aspx -
68k

Um abraço,

Pedro
Bogotá e Sorocaba(SP)
Bruno Giorgi 26/02/2009 07:51:32

Caro Pedro, parabéns pelo post. Realmente Bogotá tem alguns exemplos que já
deveriam ser seguidos por várias outras cidades aqui do Brasil faz tempo, em
particular esse do plano cicloviário.

Não sei se você tem conhecimento à
respeito, mas a cidade de Sorocaba (100 km de São Paulo) está seguindo o mesmo
caminho que Bogotá. No carnaval tive a oportunidade de pedalar por algumas das
ciclovias da cidade e fiquei imaginando quanto tempo irá demorar para que São
Paulo tenha plano cicloviário colocado em prática.

No link abaixo tem
maiores informações à respeito:

http://felizcidadefeliz.blogspot.com/
Sorocaba
Pedro Cunha e Menezes 26/02/2009 10:07:43

Caro Bruno,

infelizmente não conhecia o projeto de Sorocaba, que me parece
muito bo. Obrigado pela dica,

Pedro
Goiânia
Valdira Rosa 07/03/2009 09:52:08

Muito boa a matéria! Gostaria muito que aqui em Goiânia o trânsito caótico
fosse reestudado e as ciclovias fossem inseridas nas ruas da cidade. Assim que
eu e minha família chegamos aqui, há um ano, todos adquirimos bicicletas,
triste ilusão, é impossível andar de bicicleta na cidade.
Goiania discute o tema
Ary Soares 08/03/2009 15:53:47

Ha algumas decadas, começaram a condenar os fundo de vales de Goiania, como o
do Corrego Botafogo, com a promessa de ali instalar a primeira ciclovia da
cidade. Foi um erro! O local à época não era rota ciclistica e o tempo
mostrou que a intenção mesmo era ali instalar um corredor para automóveis.
Hoje uma das vias mais movimentadas e que liga de forma mais rapida as regioes
sul e norte da capital.

Sugeri recentemente ao vice-prefeito, recém eleito,
um debate profundo sobre o tema e descobri depois que ha uma comissão
havaliando essa alternativa. Goiania, a meu ver, oferece condições de ter uma
grande rede de ciclovia. Espero que isso venha ocorrer em breve. Minha irmã
Auta, com seus mais de sessenta anos, que corta a cidade encima de uma
"magrela" sonha com isso todo dia!
Goiania tem que ter!!!
HERMES MARCIANO 10/03/2009 08:22:48

Ai caramba,só de pensar em Goiania com uma ciclo via como essa me aquesse os
cambitos vamo pedalar genteeee!!
Locação de bicicleta
Marcelo 05/08/2009 09:55:42

Pessoas...sou de porto alegre e vou passar uma semana em goiania. Queria uma
indicação de lugar para locar uma bicicleta para conhecer a cidade. Podem me
informar?abraços.
Sorocaba
Toninho Carvalho 16/02/2010 05:24:49

Ae, galera...parabens a tds pelo papo descolado...Aqui em Sorocaba, realmente
houve um belo investimento neste ambito, a um ano atras deixei de ir de carro
para o trabalho, preferindo pedalar 10km pela ciclovia. Impressionante, mas um
problema no joelho desapareceu gradativamente, não tenho mais enxaquecas, tenho
conseguido manter o peso com mais facilidade e de quebra dei uma diminuída
considerável na cervejinha do fim de semana, saindo para pedalar com meus
filhos e nossos varios amigos. A construção de ciclovias sem duvida é um
exemplo a ser seguido pelos srs prefeitos e governantes, e a nós cabe o papel
de pedir, solicitar, lutar pelos nossos direitos.
Valeuuuu!!!!
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