Daniel Santini
13 de Dezembro de 2011
Neste final de semana, cerca de 2.800 pessoas viajaram de São Paulo até Santos sem gastar combustível ou dinheiro para o pedágio, sem poluir e causar impactos na natureza. Entre os ciclistas que se animaram a percorrer quase 100 km utilizando somente a energia do próprio corpo, a enfrentar a
garoa leve e a lama nos limites de São Paulo, está uma novata que, a pedido do OutrasVias, escreveu um relato sobre a experiência. Como de costume, a Rota Márcia Prado, que leva este nome em
homenagem à cicloativista morta atropelada por um ônibus em 2009, foi organizada pelo Instituto CicloBR, que, mesmo com a resistência da concessionária Ecovias (
leia mais sobre ecovias de verdade), segue pressionando para que o caminho seja oficializado. Assim
como em 2010, o
roteiro deste ano foi um sucesso.
Rota Márcia Prado, minha primeira cicloviagem
Por Paula Aftimus

"As bicicletas não gostavam de mim. Sempre se mostravam distantes, impacientes e indiferentes ao meu desejo de pedalá-las. Eram amigas dos outros, não minhas. Aos 6 anos de idade, uma rodinha a menos e zero sucesso em me manter equilibrada, desisti de cativá-las. 'Não faço questão, mesmo...'
Toda a minha infância e adolescência depois tentei, novamente, conquistá-las. Nada. Já na faculdade, observava, encantada, aqueles que se davam bem com as bikes. Acenava, de longe, a grupos de ciclistas, às vezes recebendo um tchauzinho de volta, às vezes sendo ignorada. Quem sabe um dia eles me acolheriam? Já formada, madura o bastante para não mais me fazer de vítima e preparada para outras negativas, decidi que era hora de encarar as bicicletas de frente. Pedi ajuda, engoli minhas inseguranças e, aos 25 anos, lá estava eu: pedalando!
Foi um começo de relação complicado. Elas deixavam claro que éramos apenas colegas. Mas, aos poucos, fui ganhando a confiança das bikes. Primeiro, passando por uma ponte estreita; depois, tirando uma das mãos do guidão (não precisava mais parar para arrumar os cabelos!), até conseguir pedalar junto dos carros. Tudo isso com a ajuda de gente que, há anos, já se dava bem com elas. Gente que nos apresentou, ficou ao nosso lado até nos entrosarmos, viu afinidades que nem sabíamos que tínhamos. Éramos, enfim, amigas.

O problema é que eu gostava delas cada vez mais. Comecei a pensar em como passar mais tempo ao lado dessas magrelas tão interessantes. Arrumava desculpas esfarrapadas para vê-las. Meus amigos, mais próximos dos carros, começaram a se preocupar. Nem liguei. Decidi comprar uma bicicleta. A minha bicicleta. Não tinha mais volta. Mas... será que meu amor seria correspondido?
Sim! Nesse final de semana, depois de ter usado minha bike por apenas 30 Km, num sábado à noite, na ciclovia do rio Pinheiros, decidi descer de São Paulo até Santos, no 3º Passeio Cicloturistico Rota Márcia Prado. Seria o ponto-chave da nossa relação: ou ela me amaria de volta ou eu ficaria traumatizada, odiando magras, velôs e camelos pelo resto da vida. Mas ela me amou! Minha bike me ama naquele estágio que a gente nem mais discute se é namoro ou amizade. É para sempre mesmo.
Ela me salvou de ônibus grosseiros e calçadas esburacadas no Grajaú; enfrentou chuva e lama comigo e, sem reclamar, ainda me segurou firme e forte a cada pedra solta na Ilha do Bororé; deixou que eu me sentisse dona do mundo, sem medo e sem freio nas descidas da Estrada de Manutenção da Imigrantes; foi paciente com minha fome, meu cansaço e minhas dores a cada subida, a cada caminho que, no final, parecia não ter fim.

Balsa lotada de bicicletas na Ilha do Bororé, nos limites de São Paulo

Aperto na hora de fechar de partir, tantas as bicicletas enfileiradas

Todo mundo ainda limpo, antes do trecho com barro
Foi incrível estar entre os quase 3 mil ciclistas que, conscientes disso ou não, ajudaram a reforçar o direito de poder ir e vir de bicicleta – de São Paulo a Santos ou de qualquer lugar a qualquer lugar. Foi lindo ver tanta beleza natural num caminho cheio de verde, flores e vida. Foi extremamente cativante e inspirador sentir, a cada quilômetro, a paciência, a compaixão, a irmandade e a tolerância de estranhos que, por uma ladeira ou a partir dela, se tornaram amigos. Mas, mais do que tudo isso, o que ficou desse sábado foi a descoberta, surpreendente, de que eu consigo chegar muito mais longe do que acreditava que pudesse. A consciência de que meu corpo, minha cabeça e minha bike aguentam, sim, o tranco.

Ciclistas lotam o acostamento na Imigrantes

Lama e asfalto molhado
E, se ainda tiver espaço nesse post...
... obrigada ao Fabricio e ao Ivan, que compartilharam cada segundo do ápice dessa história de amor, acreditando que tudo daria certo, sempre. Obrigada ao trio Tarcila, Gonza e Siqueira, que não estavam nem aí para mim e minha bike nova e que, justamente por isso, me fizeram sentir que pedalar 80 Km era tão fácil e habitual quanto pedalar até a padaria. Obrigada à Renata, ao Sussa e a tantos outros que organizaram essa aventura toda, num esforço voluntário e apaixonado, para que gente como eu quisesse e pudesse repetir esse final de semana no próximo e no próximo. Obrigada Talita, Aline e Odin simplesmente por olharem para mim como se eu jamais tivesse desistido de pedalar lá quando tinha 6 anos de idade. E obrigada ao Daniel, por entender e topar esse ménage tão lindo e transformador!"