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Pesquisador da Nasa explica a ((o))eco degelo recorde na Groenlândia

Membro da equipe que detectou o mais intenso degelo de verão já ocorrido na região, Thomas Mote, interpreta detalhes do fenômeno.

Flávia Moraes ·
26 de julho de 2012 · 13 anos atrás
Um dos choques do degelo de julho foi ter atingido altitudes elevadas. Foto: Divulgação/greenland.com
Um dos choques do degelo de julho foi ter atingido altitudes elevadas. Foto: Divulgação/greenland.com

Entre os dias 08 e 12 de julho, a Groenlândia experimentou o mais agudo degelo já detectado nos 33 anos em que existem registros de satélite. Da sua superfície total, 97% mostrou sinais de degelo, incluindo áreas de 2 mil metros de altitude. O fenômeno foi notícia na mídia mundial e assusta por sugerir que as mudanças climáticas podem estar se acelerando.

Para explicar os detalhes desse recorde e sua relação com o aquecimento global, ((o))eco ouviu Thomas Mote, membro da equipe da NASA que está avaliando o derretimento de gelo histórico.

Mote é professor e chefe do departamento de Geografia da Universidade de Geórgia, nos EUA. Há 20 anos está envolvido com pesquisa da criosfera, através de sensoriamento remoto. Atualmente trabalha para a NASA, onde documenta a extensão do derretimento da superfície de gelo da Groelândia com registro de imagens de satélites. Também estuda as medições de diferentes satélites sobre o degelo de superfície.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Thomas Mote – Normalmente, nós vemos a área de degelo aumentar ou contrair rapidamente, de acordo com os deslocamentos das massas de ar, frias ou quentes, sobre o manto de gelo. O que aconteceu dessa vez foi que a extensão do derretimento foi notável, principalmente nas altitudes elevadas. Esta é a primeira vez, em 33 anos de dados de satélites, que nós testemunhamos um derretimento por quase todo o gelo da Groelândia.

((o))eco – Quais seriam os principais motivos para um derretimento tão rápido, observado em 4 dias, e numa quantidade tão grande?

“Esta é a primeira vez, em 33 anos de dados de satélites, que nós testemunhamos um derretimento por quase todo o gelo da Groelândia”

TM – A Groelândia esteve excepcionalmente quente desde maio deste ano e observamos uma mudança significativa nos padrões climáticos, associada à Oscilação do Atlântico Norte (NAO, do inglês North Atlantic Oscillation). Quando esta oscilação está em sua fase negativa, a Groelândia é dominada por ar quente e alta pressão.

Nós detectamos uma Oscilação do Atlântico Norte bastante negativa desde maio até a semana passada. Essas condições de temperaturas mais elevadas permitiram a expansão do derretimento desde as áreas mais baixas até as altitudes elevadas, fundindo a neve nesses locais.

No meio de julho, principalmente, observamos uma massa de ar bastante quente deslocando-se sobre o manto de gelo, a qual causou esse evento de degelo sobre quase toda a Groelândia. Nesta semana, essa massa de ar foi para o leste. Agora o derretimento da Groelândia está perto do normal e o calor passou a invadir as ilhas britânicas, bem na época das Olimpíadas. Entretanto, os padrões climáticos podem voltar a se alterar na semana que vem.

((o))eco – O derretimento está relacionado às mudanças do clima ou pode ser considerado um episódio isolado?

TM – A resposta simples seria “ambos os casos”. Observamos um episódio isolado, causado por um padrão climático incomum, que foi somado às mudanças climáticas que estão acontecendo. O resultado foi o degelo fora do comum. O curto período, 4 dias de derretimento, sobre todo o manto de gelo foi causado pelo evento de tempo extremo causado pela Oscilação do Atlântico Norte negativa.

Entretanto, o clima cada vez mais quente na Groelândia, e sobre todo o Ártico, nas últimas 3 décadas, resulta em períodos mais longos de derretimento e degelo completo nas regiões mais baixas. Durante esse período de 30 anos, o derretimento vem atingindo regiões cada vez mais elevadas. O resultado é um enorme runoff (escoamento) de água derretida próxima às margens do manto de gelo, neste verão do hemisfério norte.

((o))eco – Qual foi a temperatura média desses 4 dias na Groelândia? São temperaturas do ar anormais para o verão da região?

TM – Nas altitudes mais elevadas da Groelândia, no topo do manto de gelo — a cerca de 3.200 metros — as temperaturas atingiram 0° Celsius, o que é altíssimo para uma região normalmente bem mais gelada. Em regiões sem gelo, neste verão, próximo à costa, os recordes de temperaturas chegaram a exceder os 25° Celsius. No dia 10 de julho, pouco antes do ápice do derretimento, por exemplo, a temperatura estava marcando 23,9°Celsius, próximo ao manto de gelo da região da Kangerlussuaq, onde o normal é chegar a 7°Celsius.

  • Flávia Moraes

    Jornalista, geógrafa e pesquisadora especializada em climatologia.

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